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Elias Maluco


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A prisão de Elias Maluco marca um ponto positivo para a polícia do Rio de Janeiro, tantas vezes desacreditada. Constitui-se num alívio para a sociedade carioca que vê enfim, fora de circulação, o bárbaro assassino do jornalista Tim Lopes e de várias dezenas de outros seres humanos sem tanta notabilidade. O fato deixa algumas interrogações relevantes que os cidadãos têm o direito de propor e os governantes de responder. Há anos o Comando Vermelho exerce uma espécie de poder paralelo nos morros cariocas, refúgios de traficantes onde ninguém ousa molestá-los a não ser que o País inteiro, a imprensa e as organizações internacionais assim exijam. Pressionada, a polícia foi capaz de levar a cabo uma operação extraordinária de 50 horas. Não fora a vítima um jornalista da TV Globo ou de qualquer outro órgão de comunicação de projeção nacional, teria ocorrido ação semelhante? As evidências nos levam a uma resposta negativa. O megaquadrilheiro acumulava mandados de prisão e processos por tráfico de drogas, homicídios e seqüestros, antes do caso Tim Lopes.

A imprensa se concentra nos efeitos, às vezes até com elogiável coragem, mas hesita em se envolver em suas causas. Fernandinhos Beira-Mar, Elias Malucos, Marcinhos VPs não surgem da noite para o dia. São frutos de lenta e meticulosa criação, cozinhada em fogo brando durante muito tempo. Não são produtos de uma simples determinação conspiratória de fabricar bandidos. As incubadoras do crime organizado são os bolsões de pobreza. Os morros que deveriam ser parte do cartão postal da cidade mais bonita do mundo se transformaram em fortalezas de excluídos em guerra contra a alta burguesia lá de baixo, detentora de privilégios que levam à exclusão.

Desde o advento da República os políticos só fizeram por estimular a ocupação dos morros, caso que se repete em áreas públicas periféricas das grandes cidades e até de cidades-médias como Bauru. Ao invés de combaterem as causas da pobreza estimulam o surgimento de favelas. O que deveria ser problema virou solução. Se têm onde morar, o que mais querem? Prefeitos populistas distribuem sacos de cimento, tábuas e instalam bebedouros de água potável para ganhar eleitores no amontoado de barracos que vão brotando e ainda acham que cumprem suas obrigações para com o povo sofrido.

Em lugar nenhum estamos a salvo do que acontece no Rio. Bastou uma geração para que o perfil da criminalidade migrasse do bicheiro transgressor, dos Boca de Ouro romantizados por autores como Nelson Rodrigues, para traficantes que esquartejam jornalistas, intimidam a cidade inteira e debocham das instituições.

Segundo se anuncia, Elias Maluco foi conduzido para o quartel do Batalhão de choque da PM do Rio de Janeiro. Lá já se encontra Fernando Beira-Mar, depois de haver causado mortes e destruição no presídio de segurança máxima de Bangu 1. Inexistem alternativas. O secretário da Segurança promete transformar a vida dos delinqüentes em “um inferno” à custa de R$ 700 mil dos cofres públicos para cobrir gastos com câmeras de vigilância e barreiras eletrônicas anti-celular. Continuará a persistir no Brasil um modelo prisional que ora não reabilita os apenados, pois são eles trancafiados em depósitos superlotadas de seres humanos, ora oferece-lhes, como a Beira-Mar, exclusivos escritórios montados para que prossigam, sem qualquer incomodo, com suas atividades delitivas.

Eis aí temas sobre os quais deveriam pronunciar-se não só os detentores de mandatos, mas os candidatos que ora disputam a chefia do Executivo, os que querem ser legisladores e mesmo aqueles que aspiram chegar ao Palácio do Planalto. O que está em jogo não é pouco: um temor à violência e uma sede de justiça hoje e mais do que nunca largamente compartilhados pelos cidadãos honrados deste País. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

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