A psiconeuroendocrinoimunologia é uma área de pesquisa que busca as relações da psicologia com a neurologia, a endocrinologia e a imunologia. Ela parte da constatação de que o corpo humano é um sistema complexo, composto por subsistemas interdependentes e interconectados. Ou seja, apesar de terem sido estudados separadamente até agora, eles só funcionam integrados uns aos outros.
Na prática, tudo o que acontece com o organismo passa pelo sistema nervoso (cérebro). Se ele sofre qualquer perturbação, certamente isso vai repercutir em um ou vários dos outros sistemas. Isso inclui preocupações, tensão, medo, ansiedade, mágoa. Ao alterar a harmonia cerebral, ela pode alterar outras partes da “engrenagemâ€.
“Quando o homem conseguiu estudar a menor das células, ele concluiu que, sozinha, ela ainda era um sistema altamente complexo. Então, quanto mais se dividiu, quanto mais se fragmentou o corpo humano, mais se confirmou o conceito de totalidade, de complexidadeâ€, afirma a psicóloga Carmen Maria Bueno Neme, professora do Departamento de Psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp-Bauru).
Segundo ela, ao estudar o sistema imunológico, os cientistas descobriram que células deste sistema produzem hormônios. Até então, supunha-se que somente as glândulas (sistema endócrino) exerciam esta função. Estes resultados mostraram que as células imunológicas interferem no funcionamento do sistema endócrino e vice-versa.
“A psiconeuroendocrinoimunologia está pesquisando os caminhos de ligação entre esses vários sistemas, incluindo as questões psicológicas, a capacidade cognitiva, as crenças e as emoções como um sistema tambémâ€, comenta.
Segundo ela, a nova teoria derruba, inclusive, o preconceito referente àquelas situações em que a pessoa garante estar doente, mas os exames não encontram nada errado. Muitos profissionais dizem tratar-se “apenas†de um problema psíquico. “Hoje a gente sabe que, na verdade, o ser humano funciona como um todo e uma alteração, não importa em qual sistema, é uma alteraçãoâ€, observa.
Identidade
Neme salienta que a principal analogia entre os sistemas psicológico e imunológico é que ambos são responsáveis pela formação da identidade dos seres vivos. Enquanto os aspectos psicológicos formam a personalidade, os imunológicos defendem a individualidade genética. Juntos, eles protegem a pessoa da aproximação de seres e situações indesejados.
As características psicológicas de uma pessoa determinam seu jeito de ser e de encarar os outros e a vida. O que gosta ou não gosta, o que quer ou não quer, o estado de humor otimista ou pessimista, as coisas em que acredita formam o conjunto de conceitos que diferem um ser de outro. Ao mesmo tempo, cria empatia ou repulsa por outros seres, lugares e situações, e assim por diante.
Já o sistema imunológico é o “vigia†do organismo. Conhecedor de cada célula, órgão e tecido, ele dá o alarme toda vez que algo ou alguém incompatível se aproxima. Ele reage quando uma ferpa se finca na pele, quando uma partícula de pó é inspirada, quando uma bactéria se aloja no corpo ou quando uma célula nasce com defeito.
“Nas doenças auto-imunes (artrite reumatóide, diabetes, hipertensão arterial), por exemplo, o sistema imunológico passa a não identificar mais como seu aquele pedaço que é ele. Por isso, essas doenças são chamadas auto-agressivas, ou seja, meu sistema imunológico passa a rejeitar e combater a mim mesmaâ€, explica.
As razões que levam esse sistema a reagir contra seu próprio organismo podem estar relacionadas a um desvio psicológico. Diversas pesquisas comprovam que aspectos da personalidade, experiências de vida e o modo de lidar com situações de estresse, por exemplo, aumentam ou baixam a imunidade das pessoas.
Em poucas palavras, o que se busca com estes estudos é explicar porque duas pessoas com a mesma idade, mesmo porte físico, mesmas condições de vida reagem de maneira diferente a determinados estímulos. Por que uma delas tem dor de garganta ao tomar gelado e a outra não.