Tribuna do Leitor

Dr. Antônio Gabriel Atta, médico, professor e amigo


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Após 40 anos de exercício da medicina nesta cidade de Bauru, faleceu no dia 17 de agosto último o caríssimo colega prof. dr. Antônio Gabriel Atta.

Formado em 1951 pela Faculdade de Medicina da Bahia, iniciou o exercício da profissão em uma pequena e pobre comunidade do norte de Minas Gerais. Algum tempo depois, entretanto, percebeu que seu espírito indomável ansiava por vôos mais altos e resolveu aprimorar sua educação médica nos Estados Unidos. A intenção inicial era permanecer afastado do Brasil por dois anos para concluir o internato rotativo no Paterson General Hospital de New Jersey. Entretanto, novas oportunidades foram surgindo naquele país e graças ao seu reconhecido talento, prolongou os estudos de medicina interna culminando com o curso na Post-Graduate Medical School da New York University. Só retornou a Bauru 9 anos depois, tendo recusado diversos convites para associar-se a colegas americanos. Nesta cidade, por suas invulgares qualidades, pelos amplos conhecimentos da arte e da ciência médica e pela dedicação a todos os pacientes, em pouco tempo firmou-se como médico conceituado, deixando florescer de maneira espontânea, simples e humana o lado mais cativante de sua personalidade exemplar: a imensa capacidade de se envolver e de se emocionar com o sofrimento dos mais humildes e esquecidos.

Entretanto, trouxera como um dos objetivos primordiais de sua vida desenvolver a medicina bauruense, transplantando o que de melhor havia aprendido nos grandes hospitais onde trabalhara. Graças aos seus esforços, foi criado um Centro de Estudos da Regional da APM, com reuniões semanais onde casos clínicos bem documentados eram discutidos, palestras sobre temas das diversas especialidades eram apresentadas. Havia também um Clube de Revistas em que artigos dos mais importantes periódicos internacionais eram lidos e discutidos por todos os presentes. Cerca de 300 sessões foram realizadas por esse Centro de Estudos como conseqüência do empenho e entusiasmo deste tão caro amigo.

Nessa ocasião (1962), iniciavam-se os cursos da Faculdade de Odontologia de Bauru pertencente à Universidade de São Paulo. Seu primeiro diretor efetivo, o prof. dr. Paulo de Toledo Artigas, desejava que esta nova Faculdade se constituísse em um marco no ensino da Odontologia no Brasil. Os alunos egressos desta Escola, dizia o prof. Artigas, deverão ser os médicos da boca. Para tanto, as disciplinas básicas deverão te rum desenvolvimento especial como as de uma Faculdade de Medicina. Com essa idéia, todas as disciplinas básicas foram entregues a jovens médicos de extraordinário valor e capacidade. O dr. Atta que havia se preparado por três anos na South Jersey Medical Research Foundation da Pensilvania University, trabalhando ativamente como pesquisador, foi convidado para lecionar a disciplina de Fisiologia. Mais um grande desafio na sua carreira que enfrentou com galhardia, disciplina e acendrado amor aos estudos. Galgou todos os degraus da carreira universitária, com solidez e comedimento, em tempo parcial, enquanto continuava a exercer a medicina liberal em seu consultório. Doutor em 1972, livre docente em 1976, professor associado em 1979 e professor titular em 1983. Durante esse período, publicou cerca de 70 trabalhos científicos e de divulgação em revistas nacionais e estrangeiras, apresentando-os em congressos no Brasil e no exterior. Desligou-se da Universidade em 1997 alcançado que foi por uma injusta, discutível e insensata determinação legal: a aposentadoria compulsória. Foi obrigado a abandonar a docência quando mais se faziam necessários professores como ele, sazonados pelo tempo, amadurecidos no ensino e portadores de uma visão ampliada de nossa realidade educacional. Um professor que, pelo contato diário com a mocidade, rejuvenesceu-se e que ao lado de notáveis qualificações técnicas tornou-se um verdadeiro educador. Na verdade, nem a Universidade nem o próprio Brasil poderiam dispensar ilustres professores como ele, exemplos admiráveis de qualidades ímpares, desenvolvidas ao longo de profícuos e exaustivos trabalhos que os transformaram em líderes incontestes nas suas especialidades.

Mas relatar apenas suas atividades como médico e professor não faz justiça às qualificações admiráveis de sua cultura humanística ampla e diversificada e de sua personalidade de homem sereno, íntegro, ínclito, ao qual se ajusta com perfeição o dizer quinhentista de Sá de Miranda, professor da Universidade de Coimbra e um dos primeiros mestres da língua portuguesa:

Homem de um só parecer,

De um só rosto, de uma só fé,

De antes quebrar do que torcer! (Dr. Roberto Loureiro Maringoni - prof. aposentado da FOB e atual prof. da UNIP/Bauru)

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