O homem vai mais para o asilo do que a mulher quando fica velho. Eles são maioria na Vila Vicentina e no abrigo da Sociedade Beneficente Cristã, duas entidades públicas que atendem idosos carentes em Bauru. Já o Lar dos Desamparados, que fica no município de Agudos, só acolhe homens.
Bauru tem 32 mil pessoas com mais de 60 anos, segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2000. O detalhe é que a população feminina da cidade, assim como do País, é ligeiramente maior que a masculina (veja quadro).
A explicação desse realidade estaria na forma de vida do homem, acredita Lucila Paula Manso Bacci, assistente social da Vila Vicentina. “A mulher, mais que o homem, permanece com os membros da família, com os filhos. Já o homem, por causa de problemas de conflito de personalidade, econômico, alcoolismo e até a boemia, perde mais o contato com os familiares. Quando fica velho precisa de ajuda e recorre a um asiloâ€, diz.
Porém, ela ressalta que parte dos abrigados mantém os laços familiares, mas está na entidade porque não tem condições de se manter. “Temos muitos casos de idosos cujas famílias são carentes e não têm condições de mantê-los, de custear os remédios e alimentação. Aqui na Vila Vicentina temos idosos que gastam R$ 400,00 por mês em remédioâ€, completa.
A entidade tem 98 vagas, sendo que 93 delas estão ocupadas atualmente. “A procura é maior para homens e damos prioridade para os mais carentesâ€, conta Marlene de Faria Dalla Chiara, presidente da Vila Vicentina. A maioria dos internos tem mais de 70 anos e, apesar de poder retornar para suas famílias, fica no asilo pelo resto da vida.
O Lar dos Desamparados, outra entidade de regime de internato, só abriga homens porque a demanda do sexo masculino é maior. Todas as 70 vagas estão preenchidas e se tivessem mais 30 haveria interessados, conta Edna Soares Dalálio, enfermeira e auxiliar da coordenação da entidade.
Ela também diz que a maioria dos internos perdeu os laços com suas famílias por causa de problemas com alcoolismo, entre outros. É o caso de Avelino Ferrari, 61 anos, que por causa da bebida perdeu o contato com os filhos há cerca de dez anos e está há sete meses no Lar dos Desamparados.
Edna conta que são acolhidos os carentes, sem residência, e os idosos, que são maioria. “Cerca de 60% dos nossos internos são idosos. Os demais são pessoas que viviam andando de um lugar para outro e que, às vezes, ficam pouco tempo na entidade.â€, ressalta.
A Sociedade Beneficente Cristã é a única entidade de Bauru que mantém mulheres idosas em regime de internato. Porém, os homens são maioria. “Temos 80 vagas para mulheres e 130 para homens. A maioria é idoso, mas também recebemos doentes cujas famílias não têm condições de mantê-los, carentes e incapacitadosâ€, conta Anita Camilo, tesoureira da entidade.
Ela ressalta que a procura por vagas é maior entre os homens. Se tivéssemos mais vagas todas seriam preenchidasâ€, afirma. “A maioria fica aqui o resto da vida. Temos pessoas com 30 anos de casaâ€, completa.
Numa casa de repouso particular de Bauru, que no momento mantém 13 idosos, os homens também são maioria. Mas Leila Zorzi, gerente administrativa da casa, ressalta que a internação não é devida à perda de laços familiares, mas sim à situação de saúde dos idosos.
“Os idosos da nossa casa vieram para cá porque estão debilitados, acamados, e precisam de acompanhamento 24 horas. A família dificilmente tem tempo para dar o tratamento adequado e por isso acaba optando pela casa de repouso. Mas normalmente fazem isso depois da experiência de contratar uma pessoa para cuidar do idoso na casa, o que geralmente não dá muito certoâ€, conta.
Ela frisa que o idoso, além de alimentação, banho e remédio, precisa de carinho e amor. “O idoso precisa de pessoas que conversem com ele, que façam brincadeiras, que sentem para jogar baralho, que dêem beijos, que faça festa de aniversário. E isso eles têm aqui na casa. Somos uma famíliaâ€, completa.
A casa de repouso funciona em uma chácara próxima a Bauru e cobra R$ 800,00 por mês da família de cada idoso. “Eles moram aqui, mas a família visita com freqüência e quando não pode vir, liga para a gente para saber se está tudo bemâ€, completa.
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Da rua para o lar
Avelino Ferrari, 61 anos, um dos 70 abrigados do Lar dos Desamparados, conta que tem filhos, mas considera a entidade seu lar, onde está há sete meses. “Já fui bem de vida, mas acabei perdendo tudo e caí na bebida. Meu casamento acabou e faz uns dez anos que não vejo meus filhos. Eles não sabem se estou vivo ou mortoâ€, revela.
Com tom de quem está muito ciente do que diz, ele afirma que apesar de desejar o melhor para os filhos, prefere ficar à distância. “Já tive muitos problemas com a minha família. Acho melhor ficar assim, mas desejo muitas felicidades a eles. Eu, agora, estou muito bem. Acho que não existe no Brasil um lar tão acolhedor e especial quanto esse aquiâ€, completa.
Seu Avelino conta como chegou ao Lar dos Desamparados, após ter sido um profissional de sucesso e perambular pelas ruas. “Morei em São Paulo por 44 anos, onde trabalhei na área de propaganda. Conheci o Silvio Santos, o Bóris Casoy. Mas depois que cai na bebida acabei sem rumo, passei por Serra Negra e vim parar em Bauru. Quando cheguei na rodoviária, não sei porquê, tomei um ônibus para Agudosâ€, conta.
Em Agudos, sem dinheiro, Avelino precisou dormir em uma casa vazia. “Faltava uns dias para receber a aposentadoria e acabei me instalando numa garagem de uma casa que estava para alugar. Dias depois, quando já estava fraco, desanimado, uma senhora me convidou para vir para o Lar dos Desamparadosâ€, relata.
Ele afirma que sua vida mudou e desde que está na entidade não bebeu mais. “Eu queria muito rever essa senhora e agradecê-laâ€, diz.