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Homens são maioria em asilos de Bauru

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 5 min

O homem vai mais para o asilo do que a mulher quando fica velho. Eles são maioria na Vila Vicentina e no abrigo da Sociedade Beneficente Cristã, duas entidades públicas que atendem idosos carentes em Bauru. Já o Lar dos Desamparados, que fica no município de Agudos, só acolhe homens.

Bauru tem 32 mil pessoas com mais de 60 anos, segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2000. O detalhe é que a população feminina da cidade, assim como do País, é ligeiramente maior que a masculina (veja quadro).

A explicação desse realidade estaria na forma de vida do homem, acredita Lucila Paula Manso Bacci, assistente social da Vila Vicentina. “A mulher, mais que o homem, permanece com os membros da família, com os filhos. Já o homem, por causa de problemas de conflito de personalidade, econômico, alcoolismo e até a boemia, perde mais o contato com os familiares. Quando fica velho precisa de ajuda e recorre a um asilo”, diz.

Porém, ela ressalta que parte dos abrigados mantém os laços familiares, mas está na entidade porque não tem condições de se manter. “Temos muitos casos de idosos cujas famílias são carentes e não têm condições de mantê-los, de custear os remédios e alimentação. Aqui na Vila Vicentina temos idosos que gastam R$ 400,00 por mês em remédio”, completa.

A entidade tem 98 vagas, sendo que 93 delas estão ocupadas atualmente. “A procura é maior para homens e damos prioridade para os mais carentes”, conta Marlene de Faria Dalla Chiara, presidente da Vila Vicentina. A maioria dos internos tem mais de 70 anos e, apesar de poder retornar para suas famílias, fica no asilo pelo resto da vida.

O Lar dos Desamparados, outra entidade de regime de internato, só abriga homens porque a demanda do sexo masculino é maior. Todas as 70 vagas estão preenchidas e se tivessem mais 30 haveria interessados, conta Edna Soares Dalálio, enfermeira e auxiliar da coordenação da entidade.

Ela também diz que a maioria dos internos perdeu os laços com suas famílias por causa de problemas com alcoolismo, entre outros. É o caso de Avelino Ferrari, 61 anos, que por causa da bebida perdeu o contato com os filhos há cerca de dez anos e está há sete meses no Lar dos Desamparados.

Edna conta que são acolhidos os carentes, sem residência, e os idosos, que são maioria. “Cerca de 60% dos nossos internos são idosos. Os demais são pessoas que viviam andando de um lugar para outro e que, às vezes, ficam pouco tempo na entidade.”, ressalta.

A Sociedade Beneficente Cristã é a única entidade de Bauru que mantém mulheres idosas em regime de internato. Porém, os homens são maioria. “Temos 80 vagas para mulheres e 130 para homens. A maioria é idoso, mas também recebemos doentes cujas famílias não têm condições de mantê-los, carentes e incapacitados”, conta Anita Camilo, tesoureira da entidade.

Ela ressalta que a procura por vagas é maior entre os homens. Se tivéssemos mais vagas todas seriam preenchidas”, afirma. “A maioria fica aqui o resto da vida. Temos pessoas com 30 anos de casa”, completa.

Numa casa de repouso particular de Bauru, que no momento mantém 13 idosos, os homens também são maioria. Mas Leila Zorzi, gerente administrativa da casa, ressalta que a internação não é devida à perda de laços familiares, mas sim à situação de saúde dos idosos.

“Os idosos da nossa casa vieram para cá porque estão debilitados, acamados, e precisam de acompanhamento 24 horas. A família dificilmente tem tempo para dar o tratamento adequado e por isso acaba optando pela casa de repouso. Mas normalmente fazem isso depois da experiência de contratar uma pessoa para cuidar do idoso na casa, o que geralmente não dá muito certo”, conta.

Ela frisa que o idoso, além de alimentação, banho e remédio, precisa de carinho e amor. “O idoso precisa de pessoas que conversem com ele, que façam brincadeiras, que sentem para jogar baralho, que dêem beijos, que faça festa de aniversário. E isso eles têm aqui na casa. Somos uma família”, completa.

A casa de repouso funciona em uma chácara próxima a Bauru e cobra R$ 800,00 por mês da família de cada idoso. “Eles moram aqui, mas a família visita com freqüência e quando não pode vir, liga para a gente para saber se está tudo bem”, completa.

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Da rua para o lar

Avelino Ferrari, 61 anos, um dos 70 abrigados do Lar dos Desamparados, conta que tem filhos, mas considera a entidade seu lar, onde está há sete meses. “Já fui bem de vida, mas acabei perdendo tudo e caí na bebida. Meu casamento acabou e faz uns dez anos que não vejo meus filhos. Eles não sabem se estou vivo ou morto”, revela.

Com tom de quem está muito ciente do que diz, ele afirma que apesar de desejar o melhor para os filhos, prefere ficar à distância. “Já tive muitos problemas com a minha família. Acho melhor ficar assim, mas desejo muitas felicidades a eles. Eu, agora, estou muito bem. Acho que não existe no Brasil um lar tão acolhedor e especial quanto esse aqui”, completa.

Seu Avelino conta como chegou ao Lar dos Desamparados, após ter sido um profissional de sucesso e perambular pelas ruas. “Morei em São Paulo por 44 anos, onde trabalhei na área de propaganda. Conheci o Silvio Santos, o Bóris Casoy. Mas depois que cai na bebida acabei sem rumo, passei por Serra Negra e vim parar em Bauru. Quando cheguei na rodoviária, não sei porquê, tomei um ônibus para Agudos”, conta.

Em Agudos, sem dinheiro, Avelino precisou dormir em uma casa vazia. “Faltava uns dias para receber a aposentadoria e acabei me instalando numa garagem de uma casa que estava para alugar. Dias depois, quando já estava fraco, desanimado, uma senhora me convidou para vir para o Lar dos Desamparados”, relata.

Ele afirma que sua vida mudou e desde que está na entidade não bebeu mais. “Eu queria muito rever essa senhora e agradecê-la”, diz.

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