As eleições governamentais sempre trazem consigo a necessidade de uma ampla revisão e discussão dos temas que preocupam os cidadãos. São colocados em destaque os problemas e carências que afligem a sociedade e apresentadas propostas para resolvê-los. Não cabe discutir aqui a competência dos candidatos ou a qualidade e viabilidade das soluções propostas. Porém, chama a atenção um tema que é sempre o grande ausente no debate das grandes questões nacionais: a cultura. Não cabe dúvida de que existe uma hierarquia de prioridades que devem ser obedecidas nos planos de governo para solucionar problemas mais graves como o desemprego, a violência, a saúde, a moradia, o transporte, etc, e que tanto afligem a população, mas não seria a falta de cultura e de educação uma das maiores causas do problemas e das desigualdades sociais, principalmente nos grandes centros urbanos? por acaso a exclusão social dos indivíduos não começa com a exclusão cultural?
A cultura, neste caso, deve ser entendida não apenas como uma manifestação erudita, grau de instrução e a criação intelectual ou artística, que normalmente são privilégio de poucos, mas no seu sentido mais amplo, como um conjunto de códigos, normas e padrões de comportamento que regulam e orientam as atividades do ser humano, dentro da sociedade em que vive, de uma forma individual e coletiva.
A cultura, portanto, manifesta-se através de todos os aspectos da vida, modos de sobrevivência, normas de comportamento, crenças, instituições, valores espirituais, criações materiais, etc.
É um conjunto de características que não nascem com o indivíduo, mas são resultantes de um constante processo de aprendizado, onde os traços culturais se criam, se aprimoram e se preservam através da comunicação, transmissão de conhecimentos e cooperação dos indivíduos na sociedade.
A educação como processo de desenvolvimento da capacitação física, intelectual e moral do ser humano, tem um papel preponderante na formação do indivíduo e visa uma integração melhor deste na vida em sociedade. Porém, é apenas uma etapa na formação cultural da sociedade em que vivemos. A cidadania, por exemplo, não se adquire automaticamente com um maior grau de instrução.
O individualismo exacerbado que se observa no comportamento dos indivíduos, principalmente nos grandes centros urbanos, é o resultado de uma falta de cultura e isto não é creditado somente aos que não tiveram condições ou não quiseram estudar, pois os maus exemplos de cidadania muitas vezes vêm das camadas sociais mais altas e que tiveram “melhor educaçãoâ€.
O grau de desenvolvimento social de um grupo, um povo, uma nação é o resultado do aprimoramento de seus valores e instituições. É, portanto, através da cultura que podemos avaliar o grau de civilização e de progresso de uma sociedade.
Portanto, senhores governantes, se quisermos realmente melhorar as condições da sociedade e do mundo em que vivemos, é necessário colocar a cultura também como prioridade. Investir em cultura, em qualquer uma de suas manifestações, é investir no ser humano, na formação do cidadão, evitando problemas que teremos de enfrentar futuramente e que exigirão muito mais recursos e sacrifícios para a sua solução.
Sem cultura não haverá ordem e nem progresso. (O autor, Mario Vendrell, é economista e delegado da Organização Capital Americana da Cultura - e-mail: vendrell@plugnet.com.br)