Economia & Negócios

Setor de importados busca alternativas para dólar alto

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 5 min

Com o dólar rondando a casa dos R$ 4,00, comerciantes e empresários que dependem quase exclusivamente da moeda norte-americana para comprar e vender seus produtos estão vendo seus negócios caírem “assustadoramente”, como definiu um deles. A saída é ter um bom estoque ou oferecer alternativas mais baratas para garantir a manutenção da empresa até a cotação baixar.

Ontem, o dólar bateu novo recorde do Plano Real: fechou cotado a R$ 3,88, culminando numa desvalorização de 13,95% na semana.

Para o comerciante Haroldo Alves Penteado, que há sete anos trabalha com produtos eletrônicos, a alternativa é esperar a cotação baixar para poder renovar o estoque de fim de ano. Segundo ele, suas vendas hoje são feitas praticamente por meio de encomendas. “Mesmo a encomenda não dá muito certo, porque a pessoa se assusta com o preço”, diz.

Penteado afirma que suas vendas tiveram queda de 60% nos últimos meses, quando o dólar começou a avançar para os R$ 3,00. “Este está sendo o pior momento, sim. A gente vem sentindo as vendas caírem assustadoramente”, declara.

De acordo com o comerciante, grande parte da retração de seus negócios se deve mesmo à desvalorização do real. A outra parte, ele explica, é causada pela falta de dinheiro no bolso do consumidor. “60% da minha mercadoria é importada, e o que não é importado é feito com componentes importados. Até o telefone padrão mais simples”, observa.

Em uma loja de perfumes importados, a alta do dólar desta semana ainda não foi repassada aos produtos nas prateleiras, mas as “más notícias” sobre a situação da moeda brasileira têm espantado os consumidores, que já estariam esperando por um reajuste natural. “Nessa semana, que teve alta intensa do dólar, quase não teve compra nem venda”, conta a gerente Nilza Ribeiro.

Segundo ela, o setor não está sentindo tanto o aumento do dólar porque muitas outras marcas estão chegando ao mercado - pouco conhecidas e mais baratas. “O que ajuda é que hoje no mercado existem mais opções, e sempre tem aquelas com preço menor”, ressalta Nilza.

Ela declara que o consumidor de perfume importado, geralmente, não deixa de usar o produto, mas procura cada vez mais alternativas para gastar menos. “Acontece muito isso: algumas pessoas começam a substituir por grifes mais em conta ou em promoção. Outras que compravam dois agora levam só um, ou em tamanho menor”, diz a gerente.

O comerciante Carlos Alberto Prando, proprietário de uma loja de artigos importados, declara que ainda não repassou as altas do dólar para seus produtos porque está com um “estoque médio”. Mesmo assim, ele afirma que é hora de esperar a moeda americana voltar a patamares mais baixos. “Eu não estou totalmente preocupado porque tenho quase certeza de que o dólar vai retroceder”, diz.

Segundo Prando, os produtos que ele têm na loja atualmente foram comprados a um valor mais baixo em reais, mas ele afirma que também há comerciantes “especulando” com a turbulência da moeda brasileira. “Têm comerciantes que, em cima da especulação do dólar, aumentam o produto porque o dólar aumentou”, declara.

Turismo

Fazer uma viagem de turismo também se tornou difícil com o dólar a quase R$ 3,90. Para as agências de viagem, as conseqüências do câmbio alto são imediatos. Em uma agência de Bauru, o movimento caiu entre 30% e 40% desde o ano passado. “Não sei se é conseqüência do dólar ou do turismo mesmo, que ficou abalado desde o 11 de setembro”, conta o executivo de contas do estabelecimento, Dorival Vendramini.

De acordo com ele, pelo menos um pacote para a Disneylândia, por exemplo, era fechado todo mês até o final de 2001. Em contrapartida, Vendramini afirma que nenhum foi vendido durante todo este ano. O custo médio dessa viagem é de US$ 1.500,00 a US$ 2.000,00.

Os pacotes que ainda são comercializados se restringem a destinos locais, como Fortaleza, Natal e Porto Seguro. Na primeira opção, um casal paga, atualmente, R$ 2.500,00. “Há um ano não chegava a R$ 2.000,00”, diz Vendramini. E explica: “A gente percebe que muda o preço de hotéis e outras coisas, mas o que mais afeta realmente é a passagem.”

Segundo o funcionário, os consumidores estão buscando alternativas mais baratas, que evitem gastos com itens relacionados ao dólar. “O pessoal está deixando de viajar, ou buscando alternativas por via terrestre para locais mais próximos, hotéis da região”, declara Vendramini.

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No hospital

Não é só o comércio que tem prejuízos “por tabela” com a alta cotação do dólar. Ainda que a relação não seja aparente, a saúde pública também está comprometida com itens calculados pela moeda americana.

No Hospital de Base (HB) de Bauru, o diretor clínico Samuel Fortunato afirma que a dívida do hospital está aumentando, pois, ao passo que o dólar dispara, o orçamento permanece o mesmo.

“Qualquer equipamento que antes era R$ 2,00 por US$ 1,00, agora é R$ 4,00 por US$ 1,00. Isso está inviabilizando muito qualquer troca e manutenção de equipamento importado”, conta Fortunato, citando aparelhos como tomógrafo e ultra-som, além de produtos descartáveis.

Segundo o diretor, também o filme em que é revelado o raio-X tem um impacto “pesado” sobre as contas do hospital. No HB, são feitos 18 mil raios-X por mês. Fortunato relata que a caixa com 100 filmes custa hoje R$ 218,00, contra R$ 146,00 no mês passado.

No total, um gasto que era de cerca de R$ 26.280,00 passou para R$ 39.240,00 no período de um mês - aumento de 33%.

“A gente vai aumentando o buraco financeiro, porque o paciente precisa do produto, e nós vamos comprar”, diz Fortunato. E completa: “A gente primeiro faz (a compra) para depois correr atrás do dinheiro.”

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