Ao ouvir o apito da locomotiva 278, que anteontem estava sendo preparada para a apresentação de amanhã, ex-maquinistas tiveram as mais diferentes reações de emoção. Uns não puderam conter as lágrimas, enquanto outros correram para a antiga estação para ver de perto a maria-fumaça recuperada.
Feliciano Lenta, 71 anos, conta que trabalhou durante 28 anos na ferrovia e na década de 50 teve a oportunidade de ser maquinista da locomotiva 278 no Mato Grosso do Sul.
Aposentado, ele teve uma surpresa na tarde de anteontem ao ouvir o apito da maria-fumaça e foi até a estação para confirmar. “A gente não esqueceâ€, diz.
O ferroviário aposentado José Alves, 102 anos, conta que antes de completar 18 anos já trabalhava como maquinista. “Eu gostava porque eu fui muito bem. Tombei máquina comigo, fiquei meio arranhado, mas estou vivoâ€, brinca.
Quanto à 278, Alves lembra-se de que foi um dos primeiros profissionais a testar a maria-fumaça quando ela chegou a Bauru. E afirma que era uma máquina de difícil regulagem. “Eu trabalhei mais com a 277. Com a 278 eu fiz alguns trens. Mas a pior era a 278â€, confessa.
Apesar de mais de um século de vida, Alves tem registros na memória de detalhes dessa época, como nomes de colegas de trabalho de meados de 1918 e de pessoas que o acolheram quando mudou-se a Bauru devido ao trabalho na ferrovia.
Ele conta que começou como fogueiro e que já nessa época era admirado pelos mais velhos pela forma como conduzia as locomotivas quando tinha a oportunidade. De todos os anos de trabalho, recorda-se de ter tombado no máximo duas delas.
Em uma dessas situações de risco, enquanto o maquinista saltou do trem, Alves, então fogueiro, ficou pendurado na janela da locomotiva fazendo as manobras necessárias para recolocar a máquina no trilho antes que ela tombasse completamente. E conseguiu.
“Eu tenho saudades dessa época porque fui muito feliz. Fui muito feliz porque toda vez que eu fiz, eu fiz com uma vontade que até a própria estrada me admiravaâ€, observa o ex-maquinista.
Antônio Marques de Jesus, 62 anos é mais um saudosista. Ele trabalhou como maquinista de 1956 a 1977. No ano seguinte, aposentou-se como supervisor.
O ofício ele aprendeu do início: primeiro como limpador, depois lenheiro, auxiliar de artífice, foguista e maquinista auxiliar, para então tornar-se maquinista.
O interesse surgiu através do pai, conhecido como “Fumaça†e também maquinista. “Eu ia lá, levava café para ele, comida, andava nas máquinas. Meu pai tinha apelido de fumaça porque era máquina a vapor e ele gostava de fazer muita fumaça para encher essa estaçãoâ€, conta.
Saudosismo
Apesar de ter conduzido também máquinas a diesel, são as movidas a vapor que marcam mais a memória de Jesus. “A que dá mais saudade é a a vapor mesmo. Ela exige mais do maquinista. Ela exige a capacidade de saber trabalhar e controlar a água, lenha, tudo. Já a locomotiva a diesel é igual um carro: acelerou, ela vai emboraâ€, explica.
“Até hoje a gente dorme e acorda lembrando dessas máquinas. Dá saudadesâ€, acrescenta o ferroviário aposentado.