Dois amigos alpinistas estavam caminhando pelas montanhas em plena nevasca. O frio era terrível e os dois andavam com rapidez para alcançar a cidade mais próxima. Ao avistarem, no caminho, um homem caído ao chão, disse um deles: “Nós precisamos ajudá-lo!†O outro, porém, quase que aos gritos respondeu: “Ninguém pode exigir que nós o ajudemos, se nós mesmos estamos em perigo!â€
“Mesmo assimâ€, respondeu o amigo, “se nós morrermos é melhor que morramos ajudando alguém!†O outro não deu ouvidos ao comentário idealista do colega e continuou a andar com pressa. O primeiro, então, aproximou-se do homem caído ao chão, levantou-o e colocou-se a caminho tentando carregá-lo. Com o esforço o alpinista começou a esquentar-se e o calor de seu corpo ajudou com que o desconhecido se mantivesse quente.
Depois de caminhar um bom pedaço o alpinista avistou seu amigo caído ao chão congelado. Ele, porém, ao tentar salvar uma pessoa acabou salvando sua própria vida.
O ser humano é incapaz de viver sozinho. Faz parte de sua estrutura a interpersonalidade, ou seja, o relacionamento com o outro. Neste, o ser humano busca de forma inconsciente algo que o complete, algo que o humanize. É no relacionamento amigável com o outro que nos sentimos aceitos, acolhidos, somos alvo de interesses, experimentamos confiança, e o que é fundamental, nos sentimos amados e, a partir deste sentimento, somos capazes de amar.
Se uma criança não recebe dos adultos que estão à sua volta o calor da atenção, é inevitável que ela inicie uma verdadeira luta para conquistar o amor de alguém, mesmo que esta busca acabe se transformando em uma atitude de rebeldia, de desobediência, um comportamento hiperativo ou até mesmo em uma doença.
O fato é que nós só passamos a existir quando alguém acompanha nossa existência, o que só passa a ter significado quando alguém consegue entendê-la. Justamente esta é a função da amizade, pois viver cercado de amigos é ter constantemente nossa identidade confirmada. “De todas as coisas que nos oferece a sabedoria para a felicidade de toda a vida, a maior é a aquisição da amizade†(Epicuro).
A relação de amizade é uma forma de salvação de nossas vidas, pois nos mantém “aquecidos na caminhada e, principalmente, durante a nevascaâ€. A amizade nunca é unilateral. Ela se inicia através da livre escolha de duas pessoas diferentes que desejam, por um tempo indeterminado, viver uma experiência de verdadeira comunhão.
Uma amizade exige como base a simpatia, a confiança, a disponibilidade para a ajuda e até mesmo o sacrifício. Para ela simplesmente inexiste papel definido na relação, obrigatoriedade de fazer ou deixar de fazer alguma coisa, atração física ou delimitação de espaços. Amizade vai com o tempo e com o desenvolvimento da relação tornando-se um espaço de abertura e familiaridade, onde a cada dia a superação de limites é alcançada.
Através dela alargamos nossa estreita esfera particular, nossa privacidade e aprendemos a desenvolver nossa sociabilidade. É por este motivo que ter um amigo é a possibilidade de aprimorar verdadeiras virtudes, como cordialidade, hospitalidade, amor ao próximo...
É a amizade sadia que nos faz perceber que o sentimento de amor não existe simplesmente por causa do objeto amado, mas constitui-se em uma faculdade, em uma capacidade humana que deve ser sempre exercitada.
“Antes de comer ou beber qualquer coisa, pondere com mais atenção sobre com quem comer e beber do que a comida ou a bebida, pois se alimentar sem a companhia de um amigo é o mesmo que viver como um leão ou um lobo†(Epicuro).
Segundo o clássico livro hindu “Mahabharataâ€, certas posturas pertencem obrigatoriamente à amizade: a postura de alegrar-se com as vitórias do amigo, a de preocupar-se com os infortúnios do mesmo, nos limites da possibilidade presentear o amigo com o que ele deseja, mesmo que isto seja de grande valor, alegrar-se com a simples satisfação do amigo e ter a consciência de que na relação de amizade os agradecimentos são desnecessários.
Verdadeiros amigos não nos julgam com os mesmos critérios que somos julgados normalmente pela sociedade, é nossa personalidade que lhes interessa; como pais ideais, o amor que nos dedicam não é afetado pela nossa aparência física ou pela posição que ocupamos na hierarquia social.
“Um amigo é alguém que gosta de você, apesar de seu sucesso†(Murilo Felisberto). Importante é não esquecer que amigos nunca são iguais, por isso faz parte de uma verdadeira amizade a experiência da crise ou do conflito, pois nestas além de termos a certeza de que os amigos estão sendo sinceros, possuímos a chance de descobrir algo novo.
“Depois de algum tempo você... aprende que não temos que mudar de amigos se compreendermos que os amigos mudam, percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos.†(W. Shakespeare)