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O nó da guerra


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Ambroice Bierce, o soldado, aventureiro e grande escritor norte-americano, disse que “a guerra é um método para desatar com os dentes um nó político que não se pode desfazer com a língua”. Hoje, as possibilidades de uma guerra no Oriente Médio, impulsionada pelos EUA, são muito altas e é necessário perguntar qual é exatamente esse nó. Ele existe há muito tempo. A beligerância entre Washington e Bagdá não cessa desde a Guerra do Golfo, há mais de uma década, e, durante todos esses anos, foi manejada fundamentalmente através da língua: declarações bombásticas e bombardeios esporádicos. Então, o que há de novo nesta campanha diplomática, política e, definitivamente, militar, em direção a uma nova guerra, iniciada pela Casa Branca?

A aceitação pelo governo do Iraque das inspeções da ONU sem nenhuma condição e as reações céticas de Washington não fazem prever que o nó será facilmente desatado. Quando se trata de analisar o comportamento dos governos norte-americanos sempre é preciso olhar primeiro para a política nacional, um ponto de referência obrigatório. O governo do presidente George W. Bush está à beira de ser minoria no Congresso nas próximas eleições, a economia não decola, os escândalos empresariais continuam na ordem do dia. E isto já não se acerta com palavras, é preciso usar e mostrar os dentes ao eleitorado.

A luta contra o terrorismo estancou. Ocuparam o Afeganistão mas não puderam capturar os voláteis líderes da Al-Qaeda. É preciso morder forte em objetivos tangíveis e concretos. Saddam Hussein reúne perfeitamente essas características: é um inimigo inconciliável. Outra referência para analisar a política norte-americana é o manejo de seus recursos estratégicos: primeiro o petróleo, sobretudo com um presidente de inegável origem texana e petrolífera. O Iraque é um dos principais produtores e exportadores mundiais e está em meio ao grande lago subterrâneo negro e viscoso que também abarca Irã, Arábia Saudita, Kuwait, Dubai, Emirados Árabes e Catar.

A administração Bush disse sem muita sutileza - através do vice-presidente Dick Cheney - que quer redesenhar o mapa de toda a região do Oriente Médio. Objetivo bastante difícil de conseguir com a língua. A grande incógnita é como ocupar território para destruir o regime de Saddam sem enfrentar elevadas perdas em vidas de soldados norte-americanos e britânicos. O “modelo Afeganistão” é difícil de ser levado ao Iraque, porque, embora enfraquecidas, as Forças Armadas iraquianas agrupadas em torno de Bagdá são importantes.

A batalha será travada no perímetro de Bagdá, com tropas bem entrincheiradas e que organizaram toda sua estratégia com base na clara superioridade aérea do inimigo. É nesse cenário que os iraquianos mostrarão se possuem armamento biológico ou químico. Washington e seus aliados deverão empregar muita “língua” para neutralizar as repercussões que o ataque terá em todo o mundo árabe e, mais geral, nos países islâmicos. Com exceção dos EUA, a opinião pública mundial - incluindo Inglaterra - não apóia a guerra e tem expectativas de paz. Se estas esperanças mais uma vez forem frustradas, o mundo novamente comprovará que a seguinte frase do filósofo alemão Immanuel Kant é certa: “A guerra é nefanda porque produz mais homens maus do que os que mata”. O dramático é que, novamente, serão os civis as grandes vítimas desta nova guerra do século XXI. (O autor, Esteban Valenti, é jornalista e coordenador do semanário uruguaio Bitácora)

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