A cena era linda. A moça encarapitada no poste cantando com todos os seus pulmões a “Marselhesaâ€. No fundo o céu imenso, azul quase noite, da praça de La Repúblique. Ela parecia uma revolucionária de 1789. Mas não era 14 de julho. Era maio, como 1968, mas dessa vez de 2002. Aqui nós estamos na semana saideira de uma campanha emocionante e indefinida, sem previsão para os resultados. Haverá segundo turno ou não? É a pergunta que todos se fazem, até mesmo os morubixabas e pajés dos candidatos que não sabem o que fazer, a essa altura, para aliviar a tortura dessa indecisão dos últimos momentos. A única certeza é que nessa semana também haverá cenas belíssimas de gente entusiasmada agitando bandeiras pelas ruas das cidades grandes de todo o País. Talvez a festa valha só por isso. A imagem é o que vale. Pode ser tomada em conjunto, como nos últimos comícios, onde o tremular uníssono daquele mar de cores é música e pode derreter os corações mais empedernidos. Mas a imagem pode ser tomada de maneira unitária. A bandeira só, a única pessoa representando a esperança de todas as 115 milhões de almas, por dias melhores, por uma coisa mais humanitária, menos fria mais generosa. Como a moça desgrenhada e tão linda da praça parisiense.
No Brasil o personagem há de ser mais moreno, também mais risonho, como um passista de escola de samba que traz na sua alegria toda a vontade secular de que as coisas mudem, que os prenúncios de futuro da nação sejam como a caravela roubada, por Ulysses Guimarães, de Fernando Pessoa, num discurso arrepiante, feito na época dos generais, e que começava assim:
“A caravela vai partir. As velas estão panadas de sonho aladas de esperança. O ideal está no leme e o desconhecido se desata à frente. No cais alvoroçado, nossos opositores, como o velho do Restelo de todas as epopéias, com sua voz de Cassandra e seu olhar derrotista, sussurram as excelências do imobilismo e a invencibilidade do establichment. Conjuram que é hora de ficar não se aventurar. Navegar é preciso viver não é preciso. Posto hoje no alto da gávea, espero em Deus que em breve possa gritar ao povo brasileiro: Alvíssaras, meu capitão, terra à vista! Sem sombra, medo e pesadelo; à vista a terra limpa e abençoada da liberdade.†Naquele momento de agitar a bandeira, na esquina de uma rua qualquer. Naquela ação, está contido todo o texto de Ulysses Guimarães que era o pensamento da maioria naquela época. Antes das eleições é assim também. Todos pensam de uma só forma e num só sentido. Não importa que no dia seguinte esteja tudo igual e homem com a bandeira não esteja mais lá.
É claro que é preciso contar com a ressaca devastadora do dia seguinte. A realidade não é musical, é metálica, é fria e cheia de arestas. Seria demais esperar que um governo eleito fosse dar certo. Ingenuidade, a idiotia, também não funciona, não serve para resolver problemas. Quando muito um governo pode errar um pouco menos do que o outro. Pedir mais não dá. Nem com reza forte um governo pode dar certo. Seria trabalho sobre-humano que foge às coisas terrenas. Não adianta pensar. Por isso, sigamos em frente. (O autor, Fernando José Dias da Silva, é articulista da Agência Estado)