Geral

Albergue serve comida 'sagrada'

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

Um banquete preparado especialmente para Deus é servido, todas as sextas-feiras, às pessoas atendidas pelo Albergue Noturno, entidade mantida pelo Centro Espírita Amor e Caridade. Após um ritual realizado por um grupo de Hare Krishnas, o alimento é abençoado e distribuído a fim de fortalecer o corpo e especialmente a alma dos assistidos.

Acreditando neste poder religioso e dispondo da culinária indiana é que Damodara Lila Devi Das, Jarikhanda Das, Radha Sneha Devi Das e mais 25 voluntários de Bauru integram a Organização Não-Governamental Food For Life, que visa erradicar a fome no mundo.

“Através de uma refeição vegetariana de qualidade buscamos um efeito transcendental, independentemente da crença daquele que está se alimentando. Um remédio, por exemplo, faz efeito semelhante em qualquer pessoa que o toma”, explica Damodara.

Para que o resultado obtido seja alcançado, os Hare Krishnas seguem rigorosamente um ritual para preparar os 150 pratos servidos no albergue, além dos outros 650 distribuídas semanalmente na favela instalada no bairro Ferradura Mirim.

O primeiro passo da receita é fazer com que os cozinheiros tomem banho, de modo que possam estar limpos físico e espiritualmente durante o manejo dos alimentos. A segunda fase prevê a limpeza rigorosa do ambiente onde a comida será preparada.

Durante a execução da receita, os ingredientes não podem ser provados. A falta de sal, por exemplo, deve ser corrigida depois que a refeição for servida.

Depois de prontos, os pratos são ofertados num altar em pratos específicos, onde ninguém comeu antes. “Oferecemos os alimentos como se fosse a um rei. Deus é um rei. Por cinco minutos, enquanto cantamos um mantra, pedimos que Ele, através de nossos mestres espirituais, receba nossa oferenda para nosso próprio bem”, esclarece Jarikhanda.

Ao final do ritual, a comida recebe o nome de Prasadam. Antes do processo, o alimento leva o nome de Bhoga.

Tempero

Dos condimentos usados para reforçar o sabor dos alimentos, são excluídos do cardápio a cebola e o alho, que, para eles, são vegetais que subtraem da terra substâncias negativas. “Como tudo o que cozinhamos oferecemos a Deus, fazemos a comida com o que há de melhor. Assim, usamos a azafétida, uma iguaria que tem sabor aproximados do alho e da cebola, mas é bem concentrada”, comenta Damodara.

Também são usados como tempero o fenogrego, o cominho e a pimenta. Segundo ela, existe cuidado no preparo das refeições para não torná-las muito fortes para o paladar ocidental.

O óleo utilizado nas receitas também é diferente e obtido através da fervura da manteiga. Parte dela, a mais pura, segundo eles, é aproveitada nas receitas.

Doações

Para cozinhar os alimentos, a ONG Food For Life conta com a colaboração dos comerciantes da Central de Abastecimento S/A (Ceasa), que doam frutas e legumes, usados no preparo dos pratos, sobremesas e sucos distribuídos aos carentes.

Como a idéia é aumentar o número de voluntários e proporcionalmente o de pessoas assistidas, desde o mês passado, os membros da ONG têm feito campanha em dois supermercados da cidade de modo a conseguir outros gêneros de alimentos não perecíveis.

“Estamos trabalhando para inaugurar uma cozinha industrial. Assim, nosso alcance seria maior. Precisamos de todo o tipo de doações para atingir nosso objetivo, pois nossa casa tornou-se pequena. Gostaríamos de fazer distribuições diárias, mas sozinha não consigo. Meu não pode ajudar o tempo todo porque trabalha.”, coloca Damodara.

Para manter a família, Jarikhanda vende artigos indianos. Mesmo assim, de acordo com ela, nunca faltou alimento para os necessitados. “Já nos disseram que comida abençoada se multiplica. É o que temos visto”, conclui.

Iniciativa aprovada

O sabor apimentado das comidas indianas oferecidas pela Organização Não-Governamental Food For Life agradou Marcelo Pacheco, 27 anos, que está vivendo temporariamente no Albergue Noturno, entidade mantida pelo Centro Espírita Amor e Caridade.

“A comida tem um tempero forte, é muito boa. Eles colocam nomes diferentes em pratos parecidos com os nossos”, explica Marcelo, que é mormon.

Na opinião dele, tudo o que é feito com carinho, tem reflexos positivos, como esta iniciativa.

Pensa da mesma maneira a coordenadora do Albergue Noturno, Bete Cintra. “Recebemos com felicidade projetos como este. Além disso, a comida é exótica e deliciosa. Sal e açúcar, na medida”, completa.

A coordenadora preferiu não indicar outros nomes de colaboradores da entidade porque o número seria tão extenso, que poderia resultar em esquecimentos constrangedores.

Além de ser bem-vindo, o empenho do grupo Hare Krishna também está em conformidade com a lei. De acordo com a presidente do Conselho Municipal de Assistência Social, Ilda Chicalé Atauri, qualquer entidade física ou jurídica pode desenvolver ações voluntárias.

Segundo ela, o Centro Espírita Amor e Caridade dispõe de outros pontos de distribuição de refeições em bairros como a Vila Nova Esperança, Jardim Ferraz, Vila São Paulo, Ferradura Mirim, Jardim Europa, Núcleo Fortunato Rocha Lima e Vila Zilo. A Casa do Leite, mantida pela Sociedade Beneficente Cristã, tem a mesma função.

“Normalmente, estas refeições são servidas nos centros comunitários dos bairros. Não existem outras entidades, com a mesma proposta, registrados no conselho”, esclarece.

Comentários

Comentários