Economia & Negócios

Sinergia quer ação contra acidentes

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 4 min

O Sindicato dos Eletricitários (Sinergia) pretende acionar o Ministério Público do Trabalho (MPT) nos próximos dias contra a empreiteira Start e a Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL), que não estariam cumprindo pontos do acordo coletivo e colocando em risco a vida dos funcionários.

De acordo com um levantamento da Comissão Estadual de Serviço Público, em 2001, pelo menos 68 pessoas morreram ou tiveram invalidez permanente em decorrênia de acidentes com empresas de energia apenas em São Paulo.

Desse total, uma pessoa era funcionária própria (no caso, da Eletropaulo), sete eram terceirizados e 60 eram “público em geral”, isto é, trabalhadores na construção civil, usuários e, até mesmo, pedestres que se acidentaram na rede de energia.

De acordo com o diretor do Sinergia Jesus Garcia, não há dados municipalizados sobre os acidentes porque a CPFL não os fornece. Segundo ele, as concessionárias estão “precarizando” o processo de trabalho, daí o elevado número de acidentes.

“Durante a reestruturação organizacional (da CPFL), houve uma mudança profunda na organização do processo de trabalho”, declara Garcia, ressaltando que o impacto dessas mudanças foi negativo. Ele relata que, antes da privatização da CPFL, em 1999, a empresa tinha 7,8 mil trabalhadores. Hoje são cerca de 3,1 mil.

Atualmente, há 1.000 consumidores para cada funcionário, diz Garcia. Antes, essa relação era de um para 280. “A empresa reestruturou, tirou o período da noite em alguns setores e os empregados que faziam seis horas passaram a trabalhar oito, então houve aumento de jornada, que é um aumento do tempo de exposição aos fatores de risco”, declara o sindicalista.

Além disso, o crescente número de empresas terceirizadas pelas energéticas para serviços de manutenção, liga-desliga e leitura estariam, na opinião do Sinergia, prejudicando o consumidor e o funcionário, que não recebe treinamento adequado. “As empreiteiras nem sempre têm (equipamentos de segurança), é tudo precário também”, revela Garcia.

Para o sindicalista, há “negligência” das empreiteiras com o serviço prestado. “Para ganhar a concorrência, eles jogam o preço lá embaixo e depois não dão conta de cumprir a legislação e as normas”, diz.

Outra questão que preocupa o Sinergia seria uma “degeneração” do sindicato pelas empresas de energia, que atribuem as funções de negociação a “sindicatos de cartório” sem representatividade, ou incentivam trabalhadores a criar grupos em nome dos outros empregados. “Todo esse empresariado vem agindo para fazer um desmonte na representação dos trabalhadores”, completa o sindicalista.

Muito trabalho

Um eletricista funcionário da empresa Start confirmou à reportagem parte das denúncias do Sinergia. O trabalhador, que preferiu não se identificar, conta que esteve por cerca de 20 anos na CPFL e está há poucos meses na empreiteira. “Aqui se trabalha demais e não recebe hora extra”, afirma.

Segundo o eletricista, seu turno começa às 7h45 e geralmente é estendido até muito além do horário. “Meu horário de saída é 17h45, mas tem que trabalhar à noite, sábado, domingo”, conta.

Para ele, também falta investimento em treinamento. “Não dá para comparar o que fazem aqui com o que eu fazia lá (na CPFL). Não tem nada a ver. Teve um treinamento que nós tivemos de pagar”, diz. Segundo o funcionário, o curso, realizado durante uma semana, custou R$ 400,00.

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Resposta

Por meio de sua assessoria de imprensa, a Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) afirmou que cumpre “rigorosamente” os termos do acordo coletivo. Quanto ao número de acidentes, a empresa diz que controla as ocorrências de forma sistemática e combate suas causas com rigor.

Segundo a CPFL, a empresa tem certificados únicos de segurança e acumula “vários reconhecimentos” na área, além de ter reduzido em 38,7% o número de acidentes com afastamento e 50% nos fatais nos últimos dois anos, tanto na própria CPFL quanto nas terceirizadas. Além disso, a empresa diz que promoveu mais de 7 mil horas de cursos de segurança em 2001.

De acordo com a assessoria, todas as empreiteiras têm obrigação contratual de cumprir todos os critérios técnicos e de segurança estabelecidos pela legislação em vigor, com acompanhamento da CPFL. Nos acidentes com público em geral, a CPFL diz que isso é movido pela “imprudência e negligência” das pessoas no trato com a rede elétrica, e que faz campanhas de orientação centradas no público que mais se acidenta, como na construção civil.

O gerente da empresa Start foi procurado pela reportagem, mas até o fechamento desta edição não havia sido localizado.

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