“Todo mês de janeiro, pescadores e amigos do rio Batalha se reúnem em Avaí para uma descida coletiva de barco até a vizinha Pongaí, numa aventura de mais ou menos 120 quilômetros por água.
É uma festa que mal termina e seus participantes já estão pensando na próxima. A última rodada contou com cerca de 60 pessoas em 19 embarcações.
À noite, já cidade de Reginópolis, todos montam suas barracas na margem do rio, participam de um churrasco regado a cervejas e refrigerantes e, após o pouso, seguem de manhã rumo a Pongaí, fazendo o último trecho pelos rios Tietê e Sucuri. Ao lado desse rio acontece o almoço do domingo e, a partir daí, cada qual segue o seu rumo de volta para casa.
Numa dessas descidas, o tempo estava chuvoso, o céu carrancudo o dia inteiro e à noite choveu uma barbaridade. Tanta chuva assim causou o transbordamento do rio, ao ponto de quando em vez perdermos o rumo do leito navegável, passando sobre barrancos, acompanhando alguma vazante que, de tão grande, parecia o próprio rio.
Em um desses desvios ocorreu o naufrágio de um dos botes com todos os seus passageiros e tripulantes e, devido à forte correnteza no local, não lograram êxito em segurar a embarcação, que afundou e só reapareceu do outro lado da mata arrastada pelas águas, onde reencontrou o rio que fazia uma grande curva naquele lugar.
Todos os passageiros, bem como o respectivo barco, foram resgatados tão prontamente, de sorte que ninguém se feriu nem qualquer equipamento se perdeu, mas o motor de popa bebeu água e não mais funcionou.
- Precisamos de um mecânico, disse o piloteiro do barco que afundou. Um olhava para a cara do outro, mas ninguém ali se habilitava.
Eu exibia um boné com a publicidade da empresa onde trabalhava, justamente uma assistência técnica e revenda de motores de popa, por isso fui eleito por unanimidade como técnico que iria consertar aquele motor cheio d’água. Não adiantou eu dizer que não era um mecânico.
Preocupado com a gelada em que me metera, fiquei por ali, andando em voltas feito uma barata tonta, quando alguém se aproximou de mim e se apresentou:
- ‘Leeembra-ssee de mim? Ic... ic... ic..., sou o Nerso...’
Olhei para aquele homem magricela que cheirava longe da “marvada” que tomara o dia todo. Não consegui reconhecê-lo e, meio constrangido, perguntei: Nerso de quê?
- ‘Formicida’, respondeu alguém que ouvia nossa conversa. Ainda assim não conseguia me lembrar dele, pois esse sobrenome só podia ser gozação.
- Nnnhevis, Nerso Nhevis, completou o ilustre.
Agora sim, eu me lembrava. Nelson Neves fora meu colega no Grupo Escolar de Avaí e fôramos alunos da mesma professora, dona Raimi. Ele estava bastante diferente agora, muito queimado do sol ou muito bronzeado ou muito vermelho de tanta “marvadeza”, mas o mais difícil ainda era entendê-lo.
Eu estava com aquele problema do motor atravessado no pensamento e procurava ficar longe do Nelson para poder pensar numa saída, mas era justamente sobre isso que ele queria me falar tentando me ajudar.
- ‘Esse probleminha é fácil de resolver’, disse. ‘É só você retirar as velas, virar o motor de cabeça para baixo, puxar a fieira da partida várias vezes que a água sai todinha. Depois é só recolocar tudo no lugar que o motor funciona, mas como você é mecânico de uma concessionária, então você sabe, não sabe?’
Não. Eu não sabia, mas pensei um pouco sobre o assunto e concluí que o amigo, mesmo naquele estado, estava certo. Tornei-me então o líder do pessoal e comecei a dar ordens:
- Todos em fila para puxar a fieira do motor. Os mais fortes na frente.
Enquanto o nosso amigo se colocava humildemente em último lugar, aparecia à frente um tal Sérgio Coelho, que se dizia o mais forte, mas deu apenas um puxão e quase desmaiou. Ele não era tão forte como se achava. Quando chegou a vez do último ele nem precisou fazer nada pois já não havia mais água dentro do motor e foi só recolocar tudo no lugar e dar partida pra valer.
Dito e feito, bendito efeito. Foi certinho como o Nelson Neves me ensinou e o motor pegou na primeira partida. Eu nem acreditei.
Todos os presentes elogiaram os meus conhecimentos técnicos. As meninas do Jornal da Cidade que cobriam o evento disseram, que ‘menino sabido...’
Mais tarde fui agradecer ao Nelson pela ‘dica’ que me dera:
- ‘Obrigado Nelson Neves, amigão, mecânico... engenheiro.’ Só que ele não me ouvia, pois estava dormindo a sono solto.
Quando as fotos daquele dia ficaram prontas, fui mostrá-las ao irmão mais velho Rubens, pensando que ele ia me achar bonito nas fotos. Eu me achava bonito e importante com um boné da Marinha Mercante do Brasil, com patrocínio e tudo, mochila nas costas, óculos escuros, colete salva-vidas, barco, motor e com uma carreta novinha em folha.
Mas o mano-velho me achou parecido com um burro com uma broaca de carga nas costas, tapa-olho na cara, coalheira no pescoço e com uma carroça novinha em folha.” (Eurico de Oliveira - Servidor Público aposentado e pescador de histórias)