Articulistas

Discurso político e razão


| Tempo de leitura: 3 min

Política em arte certamente não tem muitas coisas em comum, embora ao longo da história tenham se influenciado mutuamente tantas vezes. Idealmente, ao menos, ambas usam linguagens que não só são distintas, mas opostas. A oposição das linguagens não significa que ambas não possam dizer a mesma coisa muitas vezes, ainda que de um ponto de vista totalmente diferente.

Quando falo de linguagens idealmente opostas me refiro à distinção feita por Aristóteles entre Retórica, que deveria ser a linguagem da política, e Poética, que é a linguagem da Arte. A primeira deveria ser baseada exclusivamente na lógica e falar à razão, ao juízo somente. Todo apelo da linguagem política à emoção seria para Aristóteles uma aberração, um desvio imperdoável e, principalmente, uma ação cuja conseqüência seria o afastamento da justiça, portanto da felicidade.

Já a linguagem das artes, pelo contrário, deveria falar diretamente às emoções, dispensa justificações e critérios racionais, porque lhe bastam os argumentos estéticos que são compreendidos pelo espírito mais do que pelo cérebro.

Contudo, e é importante notar isto, Aristóteles chamou a ambas, Retórica e Poética, de “artes”. Ao chamá-las assim, diferencia-as da técnica, porque seu exercício depende de treinamento, mas também de talento, porque podem ser aprendidos, mas também requerem certa vocação e disposição para que o aprendizado seja totalmente compreendido.

Mas, como eu disse no início, se ambas são linguagens distintas isto não impede que falem a mesma coisa com diferentes argumentos, desde que mantenham a identidade de meios e argumentos. O que normalmente chamamos de retórica, os discursos repletos de imagens bonitas e apelos demagógicos, nada tem a ver com a verdadeira retórica porque abandona a linguagem da política - baseada no argumento racional e no senso de justiça - para buscar as imagens da poética. Da mesma forma, uma obra de arte cuja finalidade fosse provar alguma tese política estaria condenada a ser artificial e não atenderia a suas necessidades estéticas.

Assim, a ação política não pode ser julgada por seu efeito estético, assim como uma obra de arte não pode ser julgada pelos seus argumentos políticos. Isto não significa que um político não possa se preocupar com a beleza ou que um artista não deva ter consciência e participação política, apenas que cada um deva manter a sua identidade no discurso, falando um à razão e outro à emoção.

Guernica de Picasso, só para dar um exemplo, trata de um tema político - a Guerra Civil Espanhola, denunciando o bombardeio fascista sobre a cidade - mas o faz propriamente pois não argumenta racionalmente e sim emocionalmente, tentando gravar no coração de quem vê aquele momento dramático.

Infelizmente, bons exemplos do contrário não são tão simples. Vivemos em uma cultura na qual o discurso político se confunde com o discurso demagógico. Quando se fala de discurso se imagina muito mais uma longa arenga sentimental do que uma sólida argumentação racional e, embora se deplore a demagogia que falseia e perverte a política, não sei se estamos totalmente preparados pra aceitar e entender um discurso político traçado apenas em termos de argumentação racional.

Esta necessidade de distinguir estas duas linguagens e chamar a atenção para o fato de que se ambas podem andar juntas quanto aos fins, expressam-se - ou deveriam se expressar - através de meios totalmente distintos considero é essencial para que se distinga a verdadeiro discurso político daquilo que o senso comum julga que ele seja.

Tende-se a valorizar a beleza dos discursos políticos ou os efeitos que as imagens que eles evocam podem causar emocionalmente, mas deve-se ter a clareza que o discurso que conduz ao bem comum - objetivo da política - não é o mais bonito, mas sim aquele que consegue se sustentar com argumentos sólidos. (Walter Feldman (PSDB), 48 anos, médico, é presidente da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo)

Comentários

Comentários