Botucatu - A Indústria Aeronáutica Neiva, empresa subsidiária da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer), apresentou ontem no aeroporto de Botucatu, um protótipo da aeronave agrícola EMB 202 Ipanema. É o primeiro avião brasileiro movido a álcool hidratado - o mesmo usado pelos automóveis.
O projeto, ainda em fase de aperfeiçoamento, está sendo desenvolvido em parceria com o Centro Técnico Aeroespacial (CTA), e já consumiu mais de R$ 1 milhão, desde o início do ano. O CTA é ligado à Aeronáutica, em tem sua sede em São José dos Campos.
Apesar de ser pouco conhecida, a tecnologia do motor a álcool não é nova. Ela começou a ser desenvolvida no início de década de 80 pelo próprio CTA, mas em razão da falta de verba o projeto foi engavetado. Só agora, graças à parceria firmada com a Embraer, a aeronave pôde levantar vôo.
Nos Estados Unidos, avião movido a álcool não é nenhuma novidade. A única diferença é que os americanos usam álcool anidro e não o hidratado, como no Brasil.
De acordo com o diretor gerente da Neiva, o engenheiro Paulo Urbanavicius, a comercialização do avião a álcool só deve ser feita a partir de 2004. Até lá, a empresa precisa obter a homologação do motor e provar que ele é realmente eficiente.
Ontem de manhã, durante apresentação da aeronave à imprensa, Urbanavicius apontou duas grandes vantagens na utilização do motor a álcool hidratado. Uma delas refere-se ao barateamento do custo operacional do avião. A outra leva em consideração questões ambientais.
Além de menos poluente, o motor a álcool é também mais econômico. Ele gasta mais combustível em comparação ao motor movido a gasolina, mas o preço menor do álcool acaba compensando, segundo o diretor.
Pelos cálculos apresentados por Urbanavicius, o litro do álcool hidratado está sendo vendido em média a R$ 0,90. Já o litro da gasolina Augas, própria para a aviação, está em torno de R$ 3,50, podendo chegar a R$ 4,00 dependendo da região.
Enquanto o motor a álcool consome 83 litros por hora de vôo, o movido a gasolina gasta um pouco menos - 70 litros.
Uma dúvida que ficou sem resposta na apresentação de ontem foi quanto a vida útil do motor a álcool. De acordo com o gerente de engenharia da Neiva, Vicente de Camargo, essa questão ainda está sendo estudada pelos engenheiros do CTA.
A apresentação do novo modelo foi feita com muita pompa e incluiu jatos de gelo seco e estouro de champanhe, que serviu para “batizar†a aeronave antes dela levantar vôo no aeroporto de Botucatu.
Modelo é líder no setor agrícola
Botucatu - O avião Ipanema é líder de mercado, no segmento agrícola, segundo informações da empresa. O modelo é fabricado desde o início dos anos 70 e já teve 850 unidades comercializadas.
Isso representa cerca de 85% da frota nacional neste segmento, de acordo com a assessoria de imprensa.
Pelos cálculos de Urbanavicius, nos próximos quatro ou cinco anos a empresa espera fazer a conversão de cerca de 200 motores, adaptando-os para o uso do álcool como combustível. Cada conversão custa em média R$ 77,4 mil, segundo o diretor.
Caso ocorra o desabastecimento de álcool no mercado interno, como aconteceu na década de 80, a conversão do motor para gasolina poderá ser feita sem maiores complicações, segundo Urbanavicius.
O EMB 202 Ipanema é o modelo agrícola mais recente produzido pela Neiva. O tanque para produtos químicos tem capacidade para transportar 950 litros ou 750 quilos de defensivos agrícolas. Segundo a assessoria, isso representa 40% a mais do que pode transportar outros aviões da mesma “famíliaâ€.
A aeronave pode ser utilizada ainda no trabalho de combate a incêndios.
Cada unidade do Ipanema custa em média US$ 200 mil (cerca de R$ 774 mil). Esse valor pode variar de acordo com os acessórios que forem incluídos.
A Neiva possui hoje cerca de 900 funcionários. Em seus 48 anos de existência, já entregou mais de 3.500 aviões.
A empresa foi transferida para Botucatu em 1956. Quatro anos mais tarde iniciou seus projetos em São José dos Campos, onde está sediado o Centro Técnico Aeroespacial (CTA).
Em 1954, quando foi inaugurada, no Rio de Janeiro, a Neiva projetava e produzia apenas planadores.
Hoje, produz peças e componentes para aviões como o ERJ 145, Embraer 170/190 e ALX/Super Tucano. Além do EMB 202 Ipanema, produz também o EMB 120 Brasília, mas apenas sob encomenda.