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Provas exigiam improvisos e extrema perícia

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

As milhas e as corridas esporádicas em Interlagos marcaram época e tiveram papel importante para a popularização do esporte a motor no País. Entretanto, muitos dos que participavam delas não possuíam recursos financeiros suficientes para comprar carros de ponta da época, como as Ferraris e Maserattis. Na maioria das vezes, os veículos preparados para as competições pareciam verdadeiros “Franksteins” mecânicos.

Scanferla conta que muitos automóveis eram feitos em fundo de quintal. “A maioria era dono de oficina, comprava um chassi e um motor em ferro-velho e montava-os para as corridas”, destaca ele. Nessa hora, era comum ver Chevrolets com motores Lincoln ou Fiat com propulsores de outras marcas. “Quem corria nesses carros era audacioso, pois não eram tão seguros e muito difíceis de serem guiados”, relata.

Segundo o italiano, os automóveis tinham que ser “toureados”. “Na reta eles chegavam a atingir os 220 km/h, mas nas curvas os pilotos tinham que segurá-los, pois não havia ainda os eficientes freios a disco de hoje. Mas era um ambiente muito gostoso e de extrema rivalidade entre os pilotos e mecânicos”, considera Scanferla.

Os improvisos nos consertos, devido à falta de peças sobressalentes, também eram constantes. “Platinado furado era levado no ourives para encher de platina e dentes de câmbio quebrados tinham de ser soldados. Precisávamos ser criativos e aprender com dicas de outras pessoas, como o Cláudio Carsughi (atual comentarista da ESPN). Na época, ele nos ensinou como calcular a troca de coroa e pinhão conforme os circuitos”, revela ele.

Mesmo com todas as dificuldades, Scanferla demonstrou mais uma vez seu talento e chegou a ser premiado em uma prova em Interlagos, em 1958, por ter trocado sete pneus durante a corrida. “Um amigo convidou o Celso para correr a prova como seu co-piloto em um Talbot Cadilac. Alguns pneus, que estavam há muito tempo estocados, ressecaram e começaram a decompor-se durante as voltas”, relembra ele.

Entretanto, engana-se quem pensa que trocá-los era tarefa fácil. Além de contar com número reduzido de pessoas, as equipes sofriam com a falta de ferramentas adequadas. “Um pequeno macaco hidráulico levantava. Como não existiam as chaves de roda, contávamos com um martelo de ferro com a ponta de cobre para não machucar as borboletas (porcas da roda)”, frisa o italiano.

Scanferla destaca que tais atividades hoje são fáceis de serem executadas. “Para trocar pneus e abastecer, os times de Fórmula 1 chegam a contar com 25 homens para fazer tudo, desde polir o carro. Além disso, é tudo eletrônico e pode-se controlar dos boxes o desempenho dos bólidos e com três fios faz-se um check-up de todos os defeitos. Na minha época convivíamos com um monte de peças e chegávamos a regular até 12 carburadores só no ouvido.”

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Fangio

O ano de 1957 também ficou marcado para Scanferla por ter sido a época em que conheceu o argentino Juan Manuel Fangio. A oportunidade surgiu quando o então tetracampeão mundial de Fórmula 1 participou, com seis Maseratis, de uma corrida na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, juntamente com Chico Landi (vencedor da prova), Gino Munaron e outros pilotos.

“Ele me deu um cartão e conversamos muito sobre o desempenho dos carros. Depois, encontrei-o novamente em uma corrida em Interlagos e fizemos uma boa amizade. Então, ele me convidou para participar dos 1.000 Quilômetros de Buenos Aires, pois me achava um ótimo mecânico”, lembra Scanferla, orgulhoso.

Em 1958, Celso Lara Barbelis e Eugênio Martins disputam novamente a mesma competição e, mais uma vez, levam Scanferla. “Ao chegar no aeroporto, a primeira pessoa que me cumprimentou foi Fangio. Fiquei muito feliz pela atenção que ele sempre me dispensou nas poucas vezes que nos encontramos, pois sempre valorizou muito meu trabalho”, afirma ele.

Segundo o italiano, Fangio era muito calmo e um ás na pista. “Dos pilotos que vi correr, ele foi o que mais me impressionou. Era muito bom e diferenciava-se dos demais pela coragem. Nos locais das pistas onde muitos tiravam o pé a 150 metros, ele tirava a 100, distanciava-se e ganhava vantagem”, diz Scanferla.

Juan Manuel Fangio dominou a década de 50 na Fórmula 1, conquistando cinco títulos mundiais com quatro marcas diferentes - Alfa Romeo (1951), Mercedes-Benz (1954), Mercedes-Benz (1955), Ferrari (1956) e Maseratti (1957) - e quase 50% das provas que disputou.

Foram 24 vitórias em 51 grandes prêmios, sendo que o último ganho foi em 1957, na Alemanha. Um ano mais tarde, já com 47 anos, abandonou a competição. Fangio morreu em 16 de julho de 1995, com 84 anos.

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