Saúde

Doença funciona como 'inspiração'


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O escritor Luiz Fernando Veríssimo imaginou que, em um encontro de “doentes imaginários”, como os definiu Molière, alguém discursaria assim: “Infelizmente, muitos dos que estão aqui hoje não participarão do congresso no ano que vem... Eu mesmo acordei esta manhã com umas pontadas do lado e acho que não passo deste mês”.

Nem frei Betto resistiu à tentação de escrever um texto ridicularizando os hipocondríacos, entre os quais se incluiu. “Quando viaja, não se hospeda, se interna. No bolso do paletó não carrega caneta, mas termômetro. O hipocondríaco não tem remédio. Ele só se cura quando morre e, paradoxalmente, a morte é o sintoma mais óbvio de que ele tinha razão. Repare como ele, defunto, traz um sorrisinho de vitória nos lábios”, declara.

Ironias à parte, não se pode esquecer que o hipocondríaco sofre, e muito. “A pessoa reclama de sintomas orgânicos, mas está, na verdade, pedindo ajuda para um sofrimento psíquico que não encontra outra forma de se manifestar”, diz o psicanalista Rubens Marcelo Volich, autor do livro “Hipocondria - Impasses da Alma, Desafios do Corpo”.

“Pode ser que ela se queixe do que não tem motivo porque não consegue manifestar a verdadeira razão. Por isso, em vez de seguir a pista falsa de uma queixa que não existe, o médico deveria considerar outra pista, que o paciente não consegue apontar”, sugere.

Segundo Volich, aquilo que na definição de hipocondria é dito como imaginário, o paciente vive como realidade. “Mesmo que não se encontre o quadro clássico da doença, se percebe um quadro depressivo, uma altíssima ansiedade. Não adianta falar: eu acho que você tem um problema psíquico. O paciente não suporta isso”, adverte.

Renério Fraguas Júnior concorda com Volich. E conta que 45% dos pacientes de hipocondria costumam ter depressão. “Uma vez detectada e tratada a depressão, acaba a hipocondria”, garante.

Os psiquiatras condenam a imagem grotesca e estereotipada que se faz dos hipocondríacos, como se fossem pessoas que sentem prazer em infernizar a vida dos médicos. “Eles procuram ajuda, mas discordam do médico porque não se sentem esclarecidos em suas inquietações”, diz José Atílio Bombana.

Mas ninguém pode ignorar o clamor do hipocondríaco. Afinal, ele pode ter realmente a doença de que se queixa. Ou outra qualquer.

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