Bauru está vivendo uma fase de migração interna. A valorização dos bairros da zona sul e a superlotação do Centro da cidade está contribuindo para uma mudança de estilo arquitetônico nos bairros adjacentes à área central.
De acordo com o professor de história da arquitetura e edificações da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Nilson Ghirardello, o crescimento urbano está gerando novas necessidades com relação aos imóveis. “Está havendo uma mudança de uso dos setores. Empresas e famílias estão em busca de novos espaçosâ€, salienta.
Ghirardello explica que o grande número de demolições que estão sendo feitas na cidade se deve a essa troca de conceito. Os bairros que rodeiam o Centro foram valorizados, principalmente para o comércio, mas não têm imóveis que possam abrigar as novas tendências de mercado. “O terreno nessas localidades é muito valorizado, mas as casas que há neles não se adaptam aos padrões atuais de moradia e comércioâ€, explica.
O presidente da Associação dos Administradores e Corretores de Imóveis de Bauru (Aciba), José Martinho Teixeira da Silva, confirma essa tese. “De dez anos para cá, os proprietários de imóveis antigos estão optando por vendê-los para demolição ao invés de reformá-los. Fica menos oneroso e gera maior aproveitamentoâ€, explica.
De acordo com ele, bairros como Altos da Cidade e Vila Santa Clara são os prediletos para a instalação de empresas de serviço, como clínicas médicas e salões de beleza. “Os investidores querem se diferenciar no mercado e, por isso, dão preferência por prédios novos, modernos e confortáveis, ao invés de se instalar em uma casa reformada, mas antigaâ€, destaca.
Para a secretária municipal do Planejamento, Maria Helena Rigitano, outro fator que contribuiu para essa mudança nas construções da cidade foi a entrada de novos profissionais de arquitetura. De acordo com ela, que também é professora da Unesp, os empresários que estão optando por esse diferencial em suas instalações encontram respaldo no mercado. “Nos últimos anos, houve uma melhoria no estilo arquitetônico da cidade. Começaram a surgir prédios com padrões mais ousados e modernos, além de confortáveisâ€, destaca.
Há 30 anos
Ghirardello lembra que o auge das demolições na região central de Bauru ocorreu nos anos 60 e 70. Naquela época, Bauru ganhou impulso no seu desenvolvimento e surgiu a necessidade de transformar as características residenciais que haviam na região central. “A maioria das construções dos anos 20 não existem mais. Elas estavam concentradas no miolo central da cidade, próximo à ferrovia, e cederam lugar para muitos prédios.â€
Na Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan) está exposta uma foto tirada em 1957 que mostra parte do Centro da cidade. Por ela, é possível observar as características residenciais da região central. Também nota-se que muitos prédios tradicionais ainda não existiam, como o do Hotel Colonial, localizado em frente à praça Rui Barbosa, e o que abriga hoje a superintendência do Banco do Brasil, na rua 1.º de Agosto.
Espaços diferentes
A disposição dos cômodos e a estrutura elétrica são as principais peculiaridades que diferenciam os imóveis antigos dos novos. Maria Helena Rigitano cita, por exemplo, que muitos jovens não querem mais montar repúblicas em casas antigas porque elas não têm uma fiação apropriada para instalar o computador. “Eu achava que os estudantes ainda optavam pelo Centro para morar, devido às facilidades de transporte e comércioâ€, diz.
De acordo com ela, um aluno do curso de arquitetura da Unesp teria dito que, embora os cômodos das casas antigas sejam maiores, o local não é apropriado para ter muitos equipamentos eletrônicos. “Ele tem razão. Ficaria muito mais caro para alterar essa estrutura do que escolher um imóvel mais novo.â€
Nilson Ghirardello lembra que o conceito de família mudou completamente nos últimos 50 anos, o que implica numa modificação da residência. “A casa reflete o comportamento de quem moraâ€, destaca.
Segundo ele, antigamente as famílias se reuniam na sala para conversar depois das refeições e, de lá, iam dormir. Atualmente, muita gente faz as refeições fora de casa e retorna apenas para dormir.
Também surgiu o conceito de se ter escritório em casa. Como muitas pessoas acabam estendendo suas tarefas profissionais para as horas de folga, as casas têm necessidade de abrigar um espaço para o computador, os livros e documentos.
Patrimônio histórico
Cerca de 40 prédios antigos de Bauru estão tombados pelo patrimônio histórico. Isso significa que eles não podem ser demolidos e nem ter a sua estrutura modificada.
De acordo com o professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Nilson Ghirardello, presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Bauru (Codepac), o que determina o valor do imóvel para o tombamento é a sua história, cultura e estilo arquitetônico. “A idéia é que essas edificações possam contar a história da cidade através delas mesmasâ€, salienta.
Ele conta que a lista, criada inicialmente em 1996, inclui templos religiosos, hotéis, fazenda, estação ferroviária, entre outras coisas.
Maria Helena Rigitano, secretária municipal do Planejamento, explica que o projeto de revitalização da área central prevê que a fachada dos prédios seja restaurada para mostrar a peculiaridade da arquitetura do local. Mas isso não significa que essas edificações tenham que ser tombadas pelo Codepac. “Não é porque é antigo que tem que entrar na lista de patrimônio cultural. O interessante é limpar o visual do comércio da cidade, ressaltando a fachada original dos prédiosâ€, conta.