O médico e deputado estadual reeleito Pedro Tobias nasceu em 1947, na aldeia de Bekarzala, no Líbano. Aos 16 anos foi para a França onde estudou medicina, fez residência e mestrado. Foi durante a faculdade que Pedro descobriu o Brasil vindo passar as férias com a família que já havia se estabelecido no País. “Me tornei mais brasileiro que muita gente nascida aqui.â€
Veio definitivamente para o Brasil depois de ser um dos fundadores do programa “Médico sem Fronteiras†que leva voluntários a cuidar de necessitados em todos os cantos do mundo. É casado com Juliana Gaião e pai de uma “princesa beduína do desertoâ€, de 10 anos, chamada Letícia, a quem espera levar para conhecer o lugar onde nasceu a família Tobias no Oriente Médio.
Apesar de estrangeiro, a rotina de Tobias é de um brasileiro típico. Todo dia levanta cedo, às 6h da manhã, quando está em Bauru, começa operar às 7h. Em São Paulo salta da cama para ler quatro ou cinco jornais na padaria em frente à casa onde mora.
Ele come na rua todos os dias, mas garante que se alimenta bem e lamenta ter que esperar muitas vezes 30 dias para fazer uma refeição em casa e comer comida caseira. Também confessa ser um “doceiroâ€, apaixonado por tudo o que leva açúcar. Simples, não esconde que já chegou a um restaurante fino do bairro Jardins em São Paulo para jantar com mais dez amigos deputados e pediu arroz, dois ovos fritos e salada. O deputado conta que o garçom lhe disse que essa comida ele comia em casa. Tobias viu-se obrigado a retrucar: “Eu não tenho casa, vivo na estrada.â€
Em sua jornada como médico soma mais de 18 mil cirurgias e partos, como integrante do legislativo soma dois mandatos como vereador e entra no segundo como deputado estadual, batendo recorde de votos em Bauru e região. A grande maioria, faz questão de salientar, de uma população pobre.
Espiritualista, ansioso e teimoso assumido. Pedro Tobias não é muito de filosofar, mas de agir. “Eu acredito que existem algumas coisas e sempre peço para que Deus me ajude. Peço sim e muito. Todo dia, toda hora. Se pudesse realizar um desejo para me fazer mais feliz, queria um dia de 48 horas, 24 é muito pouco.â€
Jornal da Cidade - O que a vitória representa na trajetória da vida de Pedro Tobias? Pedro Tobias - Mais responsabilidade. Mais amor para essa terra e para esse povo que confia em min. Eu como brasileiro adotivo, por opção tenho minha obrigação redobrada. Depois de uma votação expressiva que nunca ocorreu em Bauru, a gente sente uma responsabilidade maior. Todas as urnas na cidade foram homogêneas com uma média de 200 votos seja na periferia ou nos Altos da Cidade.
JC – Sendo um médico e um político ao mesmo tempo, como o senhor arruma tempo para a família? Tobias – Vou falar primeiro como médico, pois um médico se realmente gosta da medicina, ama gente, gosta de gente. Se vai à política, leva isso. A medicina é uma profissão nobre, que não tem igual.
A minha maior gratificação, quando estou em campanha na periferia ou nas cidades da região, é encontrar uma paciente operada comigo, uma criança que nasceu em minhas mãos, muitas hoje com 18, 20 anos, que chegam para abraçar você. Elas pagam com amor o serviço prestado a elas, até porque não têm outra coisa para pagar. Mas o amor é muito mais gratificante.
Nesse sentido de agradecimento, preciso voltar à sua pergunta e agradecer publicamente à minha esposa Juliana, porque não é fácil ficar longe da família. Ela cuida de tudo. Eu fico triste por ter uma filha e não poder cuidar dela. Esse é o custo da vida que escolhi.
Terça, quarta e quinta fico em São Paulo na Assembléia. Segunda e sexta exerço a profissão de médico, opero, atendo na clínica. Sábado e domingo faço política na região. Minha esposa é dona de casa, é marido, mulher, cuida de tudo e ainda me ajuda na campanha.
JC – Mas a sua filha de 10 anos deve cobrar sua presença... Tobias – Cobra. Cobra sim. Esses dias ao chegar em casa, por volta de meia-noite, uma hora, minha mulher estava dormindo e ela estava acordada “apanhando†por causa de uma tarefa da escola. Eu sentei perto dela e em meia hora expliquei tudo. Ela ficou tão feliz, que acordou a mãe dela para dizer: “Mãe, nunca meu pai sentou comigo para ajudar a fazer tarefa. Ele conversou comigo e me tratou como adulto.†Olha, isso dói... Mas é o preço. Porque a política é opção, não é obrigação. Se saio de casa para pedir voto, não posso dar banana a essa população que me elegeu. Eu optei por essa vida e tenho que fazer por ela o máximo que posso. Nesses quatro anos, eu sempre faço autocrítica: “Não poderia ter feito mais? Podia. Eu falho como todo ser humano. Mas procuro sempre corrigir.â€
JC- De imediato, qual a coisa que a pessoa Pedro Tobias precisa fazer e se cobra por não ter feito? Tobias – Muitas coisas, mas levar minha família para passar dez dias em algum lugar é o que gostaria muito, mais ainda não dá.
JC – Quando tem um tempo para descansar, o que o senhor procura fazer? Tobias – Quando estou trabalhando faço o que gosto. Uma pessoa fica feliz quando está na praia, outra na montanha. A melhor terapia para mim é operar. Eu descanso quando estou operando e também quando estou fazendo contato. Se não opero, alguma coisa me faz falta. Operando descanso minha cabeça.
JC – Pedro significa pedra, com um nome tão forte em que ponto o senhor se considera turrão, duro feito pedra? Tobias – Sou teimoso em tudo. Quando acredito em uma coisa vou até o fim. Até exagero. Às vezes quem trabalha comigo e a minha família pagam pela minha teimosia. Na minha profissão de cirurgião aprendi que tudo tem que ser 100%, por isso sou sistemático demais nas coisas, cobro horários e fico bravo quando as coisas não andam como eu quero.
JC – O senhor já se arrependeu de alguma coisa? Tobias – Lógico, eu não sou perfeito. Quando se descobre que está errado, está feito. O que me resta é pedir desculpas. Várias vezes cobro e em algumas sou até mal-educado. Se acontece um problema com um paciente o problema é meu, por isso sou sistemático.
JC – E as camisas vermelhas? Quando começou a paixão ou existe um outro motivo? Tobias – Sempre foi assim. Lembro-me quando criança, a gente era pobre e eu esperava a minha mãe lavar e passar uma camisa vermelha para poder usar de novo, pois tinha uma camisa só. Hoje tenho umas 12 camisas vermelhas. Eu gosto e nunca pensei num motivo especial.
JC – Como o senhor citou a infância qual sua maior recordação deste tempo? Tobias – Meus pais. Meu pai faleceu, minha avó morava com a gente e vivíamos em um barracão. Lembro-me que minha mãe ajeitava os colchões lado a lado para dormirmos. Éramos em oito pessoas. No dia seguinte, pela manhã, ela recolhia os colchões e ali virava a sala de comer, etc. E mesmo com todas essas dificuldades nossos pais passaram para a gente o caminho certo. Isso me marca muito. Outro fato que marcou minha vida foi o Médico sem Fronteiras, projeto de que fui um dos fundadores. Fomos ao Kosovo, ao Vietnã e salvamos muitas vidas. Perdi o medo de paciente de urgência. Lá chegavam de 50 homens baleados, arrebentados. Isso me marcou muito e aprendi muito. Pouca gente sabe disso, mas fui pioneiro numa associação de médicos voluntários que passavam às férias se dedicando aos países em guerra e que hoje está no mundo inteiro e atende a outros casos. No Rio de Janeiro, existe um grupo na Favela da Rocinha.
JC – E de onde o senhor tira essa coragem? Tobias – Não é coragem. Eu uso bom senso. Quem não deve nada, não tem medo de nada. Pessoas com problemas ficam com medo. Pessoas muito ricas têm medo de assalto, de seqüestro. Um filósofo francês diz que a pessoa rica é aquela que tem R$ 1,00 a mais que a sua necessidade. Eu digo que é rico quem tem saúde.
JC – Mas como lida com a ansiedade? Tobias – É, todo mundo sofre dessa patologia moderna. Para aliviar, eu falo e já disse que às vezes falo demais. Me resolve o problema, mas crio para os outros. Outra coisa é não misturar medicina com política e não levar trabalho para casa. Quando chego, deito e durmo. Desligo.