Articulistas

Os filhotes do Enéas


| Tempo de leitura: 3 min

O problema não foi o Cacareco. O caldo entornou foi quando apareceram os cacarecozinhos. Para quem não é da época, Cacareco era um simpático rinoceronte que habitava o Zoológico de São Paulo e disputou nas décadas de 50, 60, renhidas eleições com Adhemar de Barros, Carvalho Pinto, Auro Moura Andrade, Lucas Nogueira Garcez.

Ninguém sabe o fim do Cacareco. Deve ter se aposentado ou mesmo morrido tranqüilo no aconchego dos seus. Agora o lugar vinha sendo ocupado pelo Enéas. As pessoas achavam engraçado votar naquele senhor exótico, de barbas negras retintas, sem um fio de cabelo na cabeça e vociferando à plenos pulmões: “Meu nome é Enéééas!”

É muito comum a população revelar apreço a determinadas figuras populares da cidade, ou do País, lembrando o seu nome nas eleições. Na Argentina, o Clemente teve uma votação espetacular nas últimas eleições. As autoridades acharam por bem não revelar números, mas corre a versão de que Clemente foi eleito senador e, para a presidência, chegou pertinho de Fernando de La Rúa, que, aliás, já foi defenestrado do poder. Então é assim mesmo, o Enéas vinha cumprindo esse papel de ser o representante do deboche, do escracho daqueles que consideram todos nesse processo eleitoral uma imensa palhaçada. Se o voto não fosse eletrônico a disputa seria emocionante entre Enéas e o “Seu Creysson”.

O pessoal começou a descobrir que Enéas não é o “Seu Creysson”, o personagem do “Casseta & Planeta”, quando na sua esteira ele elegeu mais cinco deputados federais e a sua versão feminina, Avanir Nimitz, também conseguiu se eleger e levar para a Assembléia Legislativa de São Paulo mais três integrantes do Prona, o inexpressivo partido de todos eles. Tomaram um susto quando perceberam que o grupelho é hipernacionalista e raivoso, contra tudo e contra todos. O fato é que o doutor Enéas Carneiro está dando o que falar. Uns acham que ele é a reencarnação do integralismo, dos anos 30. Outros acham que Enéas reflete a despolitização do sistema partidário e eleitoral. Os dois grupos divergentes concordam em um ponto: é preciso fazer alguma coisa.

E aí começa uma outra discussão. O aparecimento dos cacarecozinhos não revela a inferioridade do sistema proporcional diante do distrital. No voto distrital puro, por exemplo, só são representados aqueles eleitores do vencedor, porque não existe alternativa: ou leva tudo ou não leva nada. No sistema proporcional são atribuídos pesos para que mesmo aqueles que ficaram com a minoria possam ser representados.

Existem dezenas de maneiras para escolher a representação. Nenhuma é perfeita. Todo esse caso do Enéas serviu para chamar a atenção para a precariedade do sistema político brasileiro. Mas, por favor, não imaginem que existe uma fórmula mágica. Por isso é preciso muita discussão para uma reforma política. E, cá para nós, empenho dos senhores que freqüentam palácios, parlamentos e que não querem mudar nada, querem manter os estatutos da gafieira: “quem está fora não entra, quem está dentro não sai”. (O autor, Fernando José Dias da Silva, é articulista da Agência Estado)

Comentários

Comentários