Política

Eleitor faz ajuste na política local

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 10 min

As lideranças políticas de Bauru vão ter que repensar a estratégia adotada nesta última eleição se quiserem eleger mais candidatos à Assembléia Legislativa e pelo menos um à Câmara dos Deputados no próximo pleito.

É o que pensa a socióloga e cientista política Maria Teresa Miceli Kerbauy, professora do curso de pós-graduação em Comunicação da Faculdade de Artes, Arquitetura e Comunicação (Faac) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.

Ela avalia que o comportamento da classe política daqui para frente determinará a performance eleitoral dos candidatos nas eleições legislativas de 2006. “Os políticos vão ter que se voltar menos para seus interesses particulares e mais para os interesses da população”, diz.

Também professora do curso de pós-graduação em Sociologia da Unesp de Araraquara, Maria Teresa faz uma análise da atual conjuntura política e prevê frustração do eleitorado após as eleições, que espera mudança a curtíssimo prazo. A seguir, a entrevista.

Jornal da Cidade - Em julho passado, a senhora concedeu entrevista ao JC e já previa que dificilmente Bauru conseguiria eleger deputados. As candidaturas não motivaram o eleitorado? Maria Teresa Miceli Kerbauy - Não foi profecia. Com esse eleitorado que Bauru tem, dificilmente se consegue eleger dois deputados federais e dois estaduais, que é o que deveria acontecer devido ao número de candidatos. Houve a pulverização das candidaturas, e aí, talvez, por uma exigência dos partidos que obrigam seus diretórios a apresentar candidatos. Mas talvez a campanha não tenha sido centrada, não tenha conseguido motivar o eleitorado de Bauru.

JC - Mas cidades do mesmo porte de Bauru elegeram mais do que um candidato. O problema, pelo visto, é pontual em relação ao eleitorado de Bauru. Kerbauy - É, eu acho que é uma questão pontual, mas não apenas de Bauru. Araraquara também tinha um número de candidatos grande e acabou elegendo um único deputado. O que vale notar é que os candidatos que tiveram uma grande votação saíram com uma base boa de Bauru. É o caso do deputado estadual Pedro Tobias e do empresário Caio Coube, que com uma grande votação não conseguiu se eleger. Eles tiveram uma expressiva votação na cidade. E isso é importante. Aponta para uma avaliação do eleitorado desses candidatos.

JC - A senhora consegue enxergar que essa situação poderá melhorar na próxima eleição? Kerbauy - Aí depende de como os candidatos, os partidos e as lideranças locais vão se comportar daqui para frente. Acho que deve ter uma mudança, um outro enfoque para a política local. Como eu disse naquela época, menos voltada para os interesses particulares e mais voltados para os interesses da população.

JC - Na sua avaliação, quem saiu vitorioso desta eleição em nível local? Kerbauy - É o PSDB, sem sombra de dúvida, que elegeu o Pedro Tobias e deu uma votação maciça ao Caio Coube. Os dois, individualmente, poderiam se eleger prefeitos, se tivéssemos eleições e eles fossem candidatos. A soma das votações das duas candidaturas dá um resultado expressivo: cerca de 200 mil votos. Isso é significativo.

JC - É possível, então, avaliar que o PSDB é um partido que sai fortalecido para as eleições municipais de 2004? Kerbauy - Sim, com certeza. O PSDB sai com bom respaldo eleitoral. Vale notar, também, que a votação da Estela Almagro, do PT, foi boa. Ela cresceu eleitoralmente. Se pensarmos na votação que ela teve para prefeito, na eleição passada, a votação para deputada estadual foi significativa, apesar de uma parte desses votos ser regional. Mas de qualquer forma, a Estela ganha uma expressão. Temos, também, o Tuga Angerami que manteve seu eleitorado.

JC - Se há vitoriosos, há derrotados. Os candidatos do PPS, partido ao qual está filiado o prefeito Nilson Costa, não tiveram uma boa performance. O prefeito sai enfraquecido desta eleição? Kerbauy - Olha, eu não sei se o prefeito sai enfraquecido. Na realidade, eu não acompanhei as campanhas. Mas eu acredito que o prefeito não colou muito a sua administração às candidaturas. Não sei se foi uma estratégia, mas não acredito que ele sairia enfraquecido porque os candidatos do PPS não tiveram uma boa votação. Eu diria que o PPS sai enfraquecido na cidade. Não sei se o prefeito, por conta dessa falta de colagem entre os candidatos e a administração municipal, também sai..

JC - O empresário Caio Coube conseguiu somar 73 mil votos. Os candidatos do Prona, alguns com 250 votos, conseguiram se eleger. A legislação eleitoral vigente permite essa disparidade. Não está na hora de engrenar a reforma político-partidária no Congresso Nacional? Kerbauy - A questão da reforma política já esta posta em pauta desde a primeira eleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. Houveram inúmeras resistências para que isso não fosse pensado e, hoje, essa questão volta à pauta por conta de que os partidos ficaram assustados com esse fato do Prona. O doutor Enéas teve uma quantidade imensa de votos e levou junto cinco outros candidatos com votações inexpressivas. É a regra eleitoral, é a forma do voto proporcional. Se todo mundo aceita, é democrático. É injusto? É injusto porque existem candidatos com votações muito mais expressivas e que não foram eleitos. Eu acho que tem que se pensar urgentemente na reforma política. Eu não tenho certeza de que só o voto distrital deveria vigorar nas eleições proporcionais. Eu sou pelo voto distrital misto. Porque senão você regionaliza muito a eleição para a Câmara dos Deputados e para a Assembléia Legislativa. Eu não enxergo isso com bons olhos.

JC - A senhora acredita que o Congresso Nacional vai ter vontade política para mexer nesse tabu que se chama reforma político-partidária? Kerbauy - No calor da hora, eles estão bastante assustados. Gastaram muito dinheiro, tiveram votos. Eu tenho a impressão de que essa vontade política será motivada por esse fato. Não sei quem vai ganhar a eleição para a Presidência da República, mas acho que a questão da reforma política vai estar na pauta sim. Não sei se logo no começo da próxima legislatura.

JC - Comenta-se que essa reforma político-partidária deverá restringir o número de partidos no País, que hoje somam mais de 30. Kerbauy - Essa questão de diminuir o número de partidos é muito controversa. O que se diz é que esses partidos pequenos, com uma legislação eleitoral frouxa, dão aos grandes a possibilidade de servirem como legenda de aluguel. Por outro lado, existe uma discussão de que isso caracteriza uma democracia, os inúmeros grupos que fazem parte da política, e daria voz às minorias. Entre os pequenos também estão incluídos os pequenos de esquerda, que não serviriam como partido de aluguel. Acho que esse assunto é bastante complexo. Esse é um dos motivos que emperra a reforma partidária. O outro é a questão da fidelidade partidária, de exigir tempo para as pessoas ficarem no partido e não ter esse troca-troca. Eu acho que realmente tem que se exigir a fidelidade, mas é uma questão controversa por interesses particulares, interesses regionais. Isso acaba complicando o aprofundamento da estrutura partidária no Brasil.

JC - Uma eventual reforma política poderá resultar em partidos mais fortes e organizados. A questão ideológica vai ficar mais visível? Kerbauy - Do jeito que está a estrutura hoje, nós temos alguns partidos fortes como o PT, o PSDB, o PMDB e o PFL. Outros médios, como o PPS e o PSB. Eu acho que esses sairiam ganhando, seriam fortes. Mas não acredito no sentido de fortes ideologicamente. Acho que a tendência é um crescimento de partidos pragmáticos e não de partidos ideológicos. Você vê que todos os quatro candidatos que concorreram à eleição presidencial se dizem de esquerda. Mas nenhum deles tinha, de fato, uma atuação de programas ou uma atuação na campanha que contemplasse a ideologia de esquerda. Isso ficou mais ou menos esquecido, haja vista as coligações que eles fizeram, inclusive o próprio PT, que deu a esses partidos, nesta eleição, mais um caráter pragmático. Essa é uma tendência no mundo. Os partidos perdem um pouco essa característica ideológica. Ela não desaparece por completo, mas fica diluída por conta do pragmatismo eleitoral.

JC - A eleição do primeiro turno está encerrada. Qual é a avaliação que a senhora faz da performance dos candidatos à Presidência da República? Kerbauy - Acho que a campanha foi num bom tom. Teve alguns excessos que aconteceram, mas acho que isso faz parte do embate, da competição. Não houve nenhuma questão pessoal levantada. Houve um debate de idéias. A população respondeu com uma votação maciça. O número de votos brancos e nulos e de abstenções, dependendo da região, não foi muito expressivo.

JC - O candidato Ciro Gomes destoou um pouco sua campanha em relação aos demais, com declarações mais apimentadas e polêmicas. Kerbauy - Eu acho que o Ciro se perdeu pela própria boca. Independentemente dele achar que foi desconstruído, não se pode deixar de lembrar o dia da declaração sobre a Patrícia Pillar. Eu, realmente, não acreditei que o candidato falou aquilo. Um candidato tem que saber o que falar na mídia, como atingir a população. Isso pesou muito na queda de sua candidatura e refletiu a imagem que ele passou do que pensa sobre as mulheres.

JC - Houve uma boa renovação no Congresso Nacional. O PT foi quem mais cresceu e conquistou cadeiras e os chamados partidos conservadores elegeram menos candidatos. Já é possível afirmar que esse Congresso é mais avançado? Kerbauy - Isso não dá para prever agora. De fato há um crescimento das esquerdas. O PT teve um número de cadeiras muito maior do que era previsto, mas isso dependerá das coligações que forem feitas a partir do funcionamento desse Congresso. Quer dizer, como é que eles vão se comportar, se de fato o PSDB e o PT vão fazer uma coligação à esquerda. De qualquer forma, independente de quem será o presidente da República, esses dois partidos vão ter que se coligar no Congresso para poder fazê-lo funcionar.

JC - A expressiva votação conquistada pelo candidato Luiz Inácio Lula da Silva pode ser considerada como um voto de protesto? Kerbauy - Não é um voto de protesto, é um voto de mudança. A palavra mágica de sábado e domingo passados foi mudança. Todos eles falaram em mudança e, pelo visto, o eleitorado acreditou muito mais na mudança do Lula do que na mudança do Serra.

JC - O candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra, vai para o segundo turno em desvantagem em relação a Lula. Quais são as suas reais chances de vencer essa eleição? Kerbauy - Ele sai com um número de votos bem menor do que o Lula. Ele precisa, a rigor, de 20 milhões de votos. Não sei. Ainda temos 15 dias pela frente. O Ciro deu uma escorregada. Acho que por isso o Lula está tomando todos os cuidados para que não haja nenhum escorregão. Se ele manter essa votação que teve, não precisa nem crescer. Já o Serra, vai ter quer crescer muito mais.

JC - A senhora acha que uma eventual eleição do Lula representa algum risco para a democracia? Ou esse fantasma que persegue o candidato petista está derrotado? Kerbauy - Esse fantasma já não existe mais. Pode ser até que algum grupo de empresários pense assim, mas acho que não é o pensamento da maioria. O PT fez uma campanha nesse sentido, mostrando que não é necessário ter medo do partido.

JC - Com Lula presidente da República pode-se esperar grandes mudanças estruturais no País? Kerbauy - A curto prazo, não. Ganhe quem ganhar, no primeiro ano de governo o presidente eleito terá muitas dificuldades, não só por conta da situação econômica nacional, internacional e de um orçamento bastante restrito. Mas por conta, também, dos compromissos que foram assumidos pelo País com o Fundo Monetário Internacional, o FMI. As metas com o FMI podem até ser renegociadas, mas isso demora tempo. Acredito que o primeiro ano será difícil. Talvez no segundo ano, com uma peça orçamentária um pouquinho mais folgada, se possa fazer alguma coisa. Mas não acredito que antes de dois anos se faça alguma coisa em termos estruturais.

JC - De certa forma, a sociedade conta com mudanças para já. E isso não vai ocorrer a curtíssimo prazo. Poderá haver uma frustração coletiva? Kerbauy - É possível. O eleitorado do Lula, que não é um eleitorado petista por excelência, poderá se sentir frustrado. É gente que votou e vai votar pela mudança. Se isso não for feito no curto prazo, eu acho que pode haver uma decepção.

Comentários

Comentários