Economia & Negócios

Acesso ao crédito pode ficar mais difícil

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 3 min

A decisão tomada ontem pelo Comitê de Política Monetária (Copom) de elevar a taxa básica dos juros da economia brasileira de 18% para 21% - o nível mais alto desde junho de 1999 - deverá diminuir a oferta e dificultar o acesso ao crédito no mercado. A avaliação foi feita por economistas consultados pela reportagem.

De acordo com o economista e delegado do Conselho Regional de Economia (Corecon) Reinaldo César Cafeo, um dos principais “efeitos colaterais” da medida será a queda no nível de atividade econômica. Ou seja, empresas que precisarem desovar seus estoques no momento em que essa atividade estiver baixa, terão dificuldades.

“Além disso, os bancos tornam-se cada vez mais seletivos. Como terão um volume menor de dinheiro para poder movimentar seus negócios, só concederão empréstimos a quem realmente provar que tem condições de pagar. Enfim, haverá um adiamento geral dos investimentos produtivos, o que pode gerar queda nas vendas”, diz Cafeo.

Para o cidadão comum que estiver endividado, por exemplo, se optar por fazer um empréstimo bancário pagará juros em torno de 0,1% a 0,5% mais altos, em função da elevação da taxa básica. O cheque especial também ficará mais caro.

“Essas pessoas terão dificuldade de conseguir crédito e, quando conseguirem, pagarão mais caro por ele. Isso eleva o endividamento das pessoas e das empresas”, observa.

Contudo, o economista acredita que essa medida radical do Copom para segurar o dólar e evitar inflação tem que ser de curtíssimo prazo, porque isso engessa ainda mais a economia e cria um clima desfavorável para o País.

“Por trás de uma decisão como essa, há uma interpretação que leva ao pessimismo. Ou seja, ao mesmo tempo em que se diz que o Banco Central está agindo, trava a economia. Isso leva a especulações ainda maiores. Nesse momento, as expectativas são sombrias e decisão do Copom pode surtir o efeito contrário ao que se pretende”, analisa Cafeo.

Um dos reflexos da atitude do Banco Central poderá ser um Natal mais “magro” em termos de consumo. Com todo esse ambiente de incertezas, a tendência natural das pessoas é de retração.

“Infelizmente, a cautela deve ser a tônica desse período. Quem teve oito anos para controlar a economia não pode ficar a mercê dos problemas de curtíssimo prazo. Isso é lamentável”, diz Cafeo.

Alterações

O economista Said Yusuf Abu Lawi tem uma opinião um pouco diferente. Apesar de concordar com Cafeo sobre o reflexo da diminuição da oferta de crédito, ele acredita que os principais afetados por isso serão os grandes empresários.

“Algumas empresas já vinham com dificuldade de obter dinheiro em banco. Agora, isso ficará ainda mais difícil. Mas para o consumidor, acredito que não haverá alterações significativas”, analisa Lawi.

Para ele, a oscilação de consumo pode existir, porém, não ocorreria em grande proporção. Isso porque, para o consumidor, a taxa básica já está alta há muito tempo.

“As linhas de crédito oferecidas pelos bancos também têm juros muito elevados. Portanto, para essas pessoas a dificuldade de conseguir crédito não é novidade. Então, acredito que o quadro atual deva permanecer numa situação de estabilidade”, avalia.

Para muitos especialistas, a eficácia da medida do Banco Central é questionável. O motivo é que o aumento dos juros dificilmente vai conter o principal motor da inflação, que é a alta dos preços do dólar. Aliás, a moeda norte-americana era negociada a R$ 3,90 logo após a decisão do banco, apenas um centavo abaixo do nível máximo do dia. O pregão de ontem fechou com o dólar comercial cotado a R$ 3,86 para venda.

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