“Mudança de regimeâ€, o mais recente eufemismo do governo de George W. Bush para referir-se à sua prevista conquista imperial, busca esvaziar estas ações de todas as complicações e ambigüidades que tanto entorpecem uma agressão direta. Por que não “desaparecer†com estes tiranos e fastidiosos opositores políticos que estorvam nossa liberdade de ação? Essa é a pergunta que Bush se faz. A “doutrina Bush†outorga ao presidente o direito de eliminar todos aqueles que julgar indesejáveis, a fim de perseguir seus objetivos, autoqualificados de elevados. O que vemos atualmente, em quase todas as regiões do mundo, são pares de oponentes políticos que se comportam menos como especialistas estadistas do que como petulantes pré-adolescentes. Apertados em um abraço letal, eles se vêem uns aos outros como inimigos mortais.
No Oriente Médio, Ariel Sharon e Yasser Arafat escondem suas próprias falhas de liderança doméstica através do desvio dos ressentimentos de seus respectivos povos para o outro, incitados pelos elementos mais extremistas de suas sociedades. No Sul da Ásia, o primeiro-ministro da Índia, A. B. Vajpayee, se enfrenta com o primeiro-ministro do Paquistão, Pervez Musharaf, na questão da disputada província da Caxemira, enquanto cada um deles busca esconder sua responsabilidade por terem falhado na solução da pobreza e da corrupção endêmica em seus próprios países.
Estas polaridades que surgem em lideranças homicidas e suicidas compartilham várias características. Em cada caso, os líderes dirigem “regimesâ€, mais do que governos. Inclusive naquelas nações que são nominalmente democráticas, como os Estados Unidos, os regimes têm tanto menosprezo por seus próprios povos e são tão condescendentes com os interesses privados que no essencial perderam sua legitimidade popular.
Um punhado de ex-chefes de Estado, como Nelson Mandela, Gro Harlem Brundtland, Mary Robinson e Jymmy Carter, demonstraram capacidade para crescer além de sua atuação no cargo para converterem-se em verdadeiros estadistas. Eles se dão conta de que a paz e a segurança não podem jamais ser alcançadas por meio da força bruta, mas unicamente através da busca simultânea de igualdade econômica, justiça social e sustentabilidade ambiental. Mas eles não podem atuar eficazmente. Sua circunscrição natural é a sociedade civil global, os muitos milhões em todo o mundo que sentem vivamente a urgente necessidade de uma “mudança de regime†em nível universal e que estão atuando desde baixo para consegui-lo.
Ao contrário de movimentos revolucionários anteriores, estes estadistas compreendem que os meios, pelos quais buscam obter um sistema de governo mais humano e efetivo, devem encarnar por completo os fins que perseguem. Também ao contrário de seus governantes e dirigentes que deixam a desejar, eles sabem que não podemos salvar o mundo destruindo-o nem promovendo a democracia no Exterior através de uma agressão ditatorial.(O autor, Mark Sommer, é ensaísta e colunista norte-americano, dirige o programa de rádio “Um Mundo de Possibilidadesâ€, transmitido nos Estados Unidos)