O abandono às escolas é um dos principais fatores apontados pelos familiares de menores infratores entrevistados pelo JC como responsável pela violência. Com dia e noite ociosos, os adolescentes saem para as ruas e fogem do controle dos pais.
O menor de 15 anos detido na madrugada de ontem por acusação de furto a um salão de beleza na quadra 14 da avenida Rodrigues Alves, no Centro, abandonou a escola há mais de dois anos.
“Na maioria das vezes que eu arrumei vaga para ele, os moleques iam atormentá-lo na porta da escola e ele acabava não indo às aulasâ€, conta o pai, um motorista desempregado cujo nome foi preservado.
“Não sei como ele conseguiu chegar a 4.ª série sem saber ler. Ele sabe escrever copiando, mas se você fizer um ditado para ele, ele não sabeâ€, acrescenta.
O adolescente mora na Vila Santa Clara com os pais e duas irmãs. Devido à reincidência em pequenos delitos, ele já esteve internado na Gilgal, mas fugiu. “Não tem mais lugar para ele ficar. Ele teria que ficar num lugar bem isolado e 24 horas monitoradoâ€, diz o pai.
Ele afirma que não consegue mais controlar a rotina do filho, que costuma dizer que sai para guardar carros em porta de bares. Às vezes, chega a ficar três dias sem voltar para casa. A família sai à procura do garoto, mas nem sempre o encontra.
“Meu moleque sai na rua e eu não tenho contato com ele. Se eu pudesse, eu levava ele comigo o tempo todo. Mas com o serviço que eu faço não dá para levá-loâ€, lamenta o pai.
“Eu não tenho como ficar no pé do meu moleque. Eu não vivo só para ele. Eu tenho minha mulher e duas meninas para cuidar e eu tenho que trabalhar para mantê-las. Não dá para ficar só no pé deleâ€, acrescenta o motorista.
O pai acredita que na maior parte das vezes o filho comete delitos porque é influenciado por rapazes mais velhos. “Eu não vou dizer que ele é boa pessoa. Mas desde o início ele foi mal influenciado. Muitas vezes ele é obrigado a fazer muitas coisas que ele não está a fim de fazerâ€, observa.
O JC localizou também outro adolescente de 15 anos, também da Vila Santa Clara, que já foi apreendido pela polícia diversas vezes pela prática de pequenos delitos.
Ele afirma que concluiu a 4.ª série do ensino fundamental e não soube explicar o motivo do abandono da escola. “Parei à toa mesmo. Eu penso em voltar a estudar, mas quando eu não seiâ€.
O menino conta que o último furto que praticou foi há duas semanas, mas garante que parou por medo de ir para a Fundação para o Bem-Estar do Menor (Febem). “Quando eu faço coisa errada é porque dá na cabeça e a gente faz. Não tem muito motivo. Mas agora eu estou fora. Eu parei porque o juiz já quase me mandou para a Febemâ€, justifica.
O menino atualmente mora com a tia, apesar do pai ter a guarda. A mãe “desistiuâ€, segundo a tia, que é funcionária pública. “Ele é terrível. Ele gosta de roubar, de ficar na rua. Ele não quer ficar com os pais. Ele prefere ficar solto porque não gosta de ser pressionadoâ€, diz a servidora.
Ela também afirma que não tem controle sobre o paradeiro do sobrinho. E só toma conhecimento dos delitos que ele pratica quando a polícia a comunica. A freqüência chega ser de duas a três vezes por semana.
“Ele nem fala para onde vai. Ele sai volta a hora que quer. Enquanto eu estou trabalhando eu não sei onde ele está. À tarde, quando eu chego em casa, tem dia que eu encontro ele. Tem dia que eu não encontro. É difícil. Está sendo uma barra muito forte para a gente. A gente não encontra saída para essa situaçãoâ€, lamenta.