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2003: um ano muito difícil


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O agravamento da crise financeira, principalmente com a desvalorização do real, obrigou o Banco Central a elevar ainda mais os juros e reduzir a oferta de crédito ao setor real da economia. A perda de valor da nossa moeda frente ao dólar está provocando um aumento exponencial do saldo comercial, com aumento expressivo das exportações e queda das importações. Poderemos chegar ao fim de 2002 com um excedente de mais de US$ 10 bilhões. Esse valor representa mais de um terço de nosso déficit de transações correntes com o Exterior. É, sem dúvida nenhuma, uma performance extraordinária, que mostra o bom estado da nossa estrutura produtiva. Esse superávit, mais uma redução nas despesas do País com viagens internacionais e outros serviços devem levar o saldo negativo da conta corrente para algo, próximo de US$ 16 bilhões. Menos da metade do déficit dos anos anteriores.

Se a taxa de câmbio real continuar nesses níveis em 2003, nosso excedente comercial pode crescer ainda mais e, como conseqüência, reduzir para algo como US$ 13 bilhões o furo de nossas contas externas, fora a amortização de nossa dívida externa. Em relação ao PIB, esse número deve representar pouco mais de 2%, nível considerado pela maioria dos analistas como confortável e seguro para o país. Representa a tão clamada redução de nossa vulnerabilidade externa. Ou seja, em menos de dois anos promovemos um ajuste extraordinário em nossa Balança de Pagamentos, eliminando um dos calcanhares de Aquiles herdados dos anos do “malanismo”.

Como tudo na vida, a sociedade brasileira terá de pagar um preço elevado por essa correção dos caminhos errados seguidos nos últimos anos: crescimento econômico praticamente nulo no período 2002/2003, com a renda per capita caindo em termos reais, desemprego em alta e uma inflação mais elevada, nesse mesmo período. Mas se persistimos no ano que vem nesse caminho, poderemos voltar a crescer de maneira estável a partir de 2004, e voltar a uma inflação civilizada da ordem de 5% ao ano. Mas, se o novo governo que será eleito na próxima semana, resolver soltar as amarras que estão segurando a economia na tentativa de retomar em seu primeiro ano de mandato o crescimento, vamos mergulhar em um abismo sem fim. Moratória externa, inflação acima de 20% ao ano e recessão estrutural serão os resultados desse erro.

Por isso, eu estou com medo de nosso futuro. Infelizmente, os dois candidatos a presidente não estão, em suas campanhas, explicitando de maneira clara essa escolha dramática, que terão de fazer em nome da sociedade. Até agora, apenas uma promessa vaga sobre a manutenção da estabilidade, faz parte do discurso de Serra e Lula. O melhor exemplo desse autismo eleitoral é a verdadeira competição que se estabeleceu, para ver quem promete a criação do maior número de empregos: dez milhões o candidato do PT e oito milhões o candidato do oficialismo. Nenhuma palavra sobre as dificuldades do próximo ano! (Luiz Carlos Mendonça de Barros, economista, publicador do site e da revista Primeira Leitura, ex-ministro das Comunicações e ex-presidente do BNDES. www.primeiraleitura.com.br)

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