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Racionamento prejudica economia

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 5 min

A falta de água prejudica a economia e pode até inviabilizar a instalação de novas empresas em Bauru. O alerta é dos empresários Zeca Simonelli, diretor regional do Ciesp, e Domingos Antônio Malandrino, conselheiro do Ciesp e diretor de Indústria e Serviços da Secretaria Municipal de Desenvolvimento.

“A empresa que estiver analisando Bauru para se instalar terá que levar em conta o custo da perfuração de um poço artesiano, que não é barato, para não correr o risco de ficar sem água. Se outro município oferecer as mesmas vantagens que Bauru e não tiver o problema de água, é claro que não vai escolher Bauru”, diz Malandrino.

Proprietário de uma fábrica de pizzas fritas, afirma que a falta de água já está causando impacto econômico. “Gastei R$ 2 mil para aumentar o estoque de água de cinco mil litros para 10 mil litros. Além disso, a produção caiu 5% porque a assepsia do local de trabalho, que era feita no final do expediente, agora é realizada pela manhã, quando tem água”, conta.

Para Simonelli, a falta de água em períodos de estiagem, como é o atual, pode desestimular a instalação de novas empresas e barrar o crescimento das já instaladas no município. Além da falta de água, ele afirma que a cobrança da tarifa de esgoto de empresas que têm poços profundos está pejudicando o setor.

“O DAE está cobrando a tarifa de esgoto com base na quantidade de água retirada do poço. Mas temos muitas empresas que utilizam água no processo produtivo, que não joga a água que retira no esgoto. Portanto, é injusto pagar pelo esgoto que não é jogado na rede do DAE”, reclama. A assessoria de imprensa da autarquia informa que a cobrança está sendo feita de acordo com a lei e, portanto, não há irregularidade.

José Fernando Monteiro Benjamin é outro empresário que está preocupado com a falta de água. Recentemente, ele comprou um reservatório com capacidade para 5.500 litros e um outro de 1.000 litros para a sua fábrica de massas frescas e sobremesas. “Gastei R$ 2 mil em reservação e mesmo assim estou sem água hoje (quinta-feira). Por conta da falta d’água, a produção caiu cerca de 3%. Tenho que dispensar funcionários quando acaba água”, afirma.

Para ele, perfurar um poço é inviável financeiramente para muitas empresas. “Um poço não sai por menos de R$ 25 mil. Para a minha empresa, que funciona em prédio alugado, isso é totalmente inviável”, completa.

Nilcéia Lourenço, diretora do DAE, afirma que os consumidores, incluindo residência, indústria e comércio, devem ter reservatório suficiente para o consumo de água por 24 horas.

“Pelas normas brasileiras, as concessionárias de água não são obrigadas a fornecer o produto 24 horas seguidas. Por isso, cada um deve ter reservatório compatível com o seu consumo por 24horas. O que ocorre em Bauru é que tanto consumidores residenciais quanto comerciais e industriais não têm a reservação que precisam”, ressalta.

Sobre o risco de impacto na economia, Nilcéia lembra que várias cidades enfrentam o mesmo problema de falta de água e em algumas localidades é bem mais grave. “Não é um problema só de Bauru. Em Minas Gerais, por exemplo, muitas cidades estão em calamidade pública. Nós estamos enfrentando uma das primaveras mais quentes dos últimos 60 anos”, afirma.

Ela afirma que o DAE precisa recuperar a capacidade de investir para produzir mais água, mas aponta outra alternativa às indústrias. “Não acho que a falta de água em épocas como esta, de estiagem, inviabilizem novas empresas. Elas podem perfurar poços”, diz.

Economizar é imprescindível

Além de investir em recuperação dos rios e novas alternativas de abastecimento, todos os entrevistados consideram que economizar água é imprescindível para toda a população, não só a de Bauru.

Luiz Alberto Novelli, coordenador de comunicação da Sabesp de Botucatu, ressalta que o Estado de São Paulo está passando por uma das mais acentuadas estiagens dos últimos 50 anos, o que resulta em problemas em abastecimento em muitas cidades. “Além da estiagem, as temperaturas estão dez graus acima da média para o período. Isso está provocando um excesso de consumo. Nessa situação, a falta de água não é um problema localizado”, diz.

Ele conta que nas cidades da região onde a Sabesp opera ainda não foi registrado falta de água, mas sim de prejuízos no abastecimento. “As casas localizadas nas regiões altas estão recebendo água com menos pressão e para voltarmos à normalidade é determinante a conscientização da população quanto ao uso racional da água”, afirma.

A Sabesp, empresa que é concessionária de água em 366 municípios do Estado, conta Novelli faz campanhas periódicas para economia de água. Para José Domingos Malandrino, o poder público tem que investir mais para oferecer água, mas a população tem que economizar.

“A população tem culpa em estar faltando água. Passo pelas ruas e vejo muitas pessoas lavando calçadas com jato dágua. Isso é um absurdo. O ser humano tem que atender que os recursos naturais são escassos”, opina. “Em 1985, Bauru tinha 150 mil habitantes e agora está com 315 mil. Esses mais de 150 mil habitantes são uma nova cidade consumindo água do mesmo Batalha que abastecia Bauru há 17 anos”, completa.

Para forçar a economia de água, Malandrino sugere a cobrança de uma sobretaxa para consumo acima da média. “Deveria ser adotado a mesma sistemática da época do apagão. O vereador Rodrigo Agostinho, que defende a recuperação do rio Batalha mais do que qualquer outra ação para resolver o problema da água em Bauru, concorda que economia é primordial.

Por isso, ele propôs um projeto de lei que prevê multa e corte no fornecimento de água em flagrantes de desperdícios para períodos que o município estiver em crise de abastecimento. O projeto de lei está tramitando na Câmara Municipal e, se aprovado, autorizará o poder público multar os consumidores que forem flagrados lavando calçadas usando jato dágua, por exemplo.

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