A falta de água prejudica a economia e pode até inviabilizar a instalação de novas empresas em Bauru. O alerta é dos empresários Zeca Simonelli, diretor regional do Ciesp, e Domingos Antônio Malandrino, conselheiro do Ciesp e diretor de Indústria e Serviços da Secretaria Municipal de Desenvolvimento.
“A empresa que estiver analisando Bauru para se instalar terá que levar em conta o custo da perfuração de um poço artesiano, que não é barato, para não correr o risco de ficar sem água. Se outro município oferecer as mesmas vantagens que Bauru e não tiver o problema de água, é claro que não vai escolher Bauruâ€, diz Malandrino.
Proprietário de uma fábrica de pizzas fritas, afirma que a falta de água já está causando impacto econômico. “Gastei R$ 2 mil para aumentar o estoque de água de cinco mil litros para 10 mil litros. Além disso, a produção caiu 5% porque a assepsia do local de trabalho, que era feita no final do expediente, agora é realizada pela manhã, quando tem águaâ€, conta.
Para Simonelli, a falta de água em períodos de estiagem, como é o atual, pode desestimular a instalação de novas empresas e barrar o crescimento das já instaladas no município. Além da falta de água, ele afirma que a cobrança da tarifa de esgoto de empresas que têm poços profundos está pejudicando o setor.
“O DAE está cobrando a tarifa de esgoto com base na quantidade de água retirada do poço. Mas temos muitas empresas que utilizam água no processo produtivo, que não joga a água que retira no esgoto. Portanto, é injusto pagar pelo esgoto que não é jogado na rede do DAEâ€, reclama. A assessoria de imprensa da autarquia informa que a cobrança está sendo feita de acordo com a lei e, portanto, não há irregularidade.
José Fernando Monteiro Benjamin é outro empresário que está preocupado com a falta de água. Recentemente, ele comprou um reservatório com capacidade para 5.500 litros e um outro de 1.000 litros para a sua fábrica de massas frescas e sobremesas. “Gastei R$ 2 mil em reservação e mesmo assim estou sem água hoje (quinta-feira). Por conta da falta d’água, a produção caiu cerca de 3%. Tenho que dispensar funcionários quando acaba águaâ€, afirma.
Para ele, perfurar um poço é inviável financeiramente para muitas empresas. “Um poço não sai por menos de R$ 25 mil. Para a minha empresa, que funciona em prédio alugado, isso é totalmente inviávelâ€, completa.
Nilcéia Lourenço, diretora do DAE, afirma que os consumidores, incluindo residência, indústria e comércio, devem ter reservatório suficiente para o consumo de água por 24 horas.
“Pelas normas brasileiras, as concessionárias de água não são obrigadas a fornecer o produto 24 horas seguidas. Por isso, cada um deve ter reservatório compatível com o seu consumo por 24horas. O que ocorre em Bauru é que tanto consumidores residenciais quanto comerciais e industriais não têm a reservação que precisamâ€, ressalta.
Sobre o risco de impacto na economia, Nilcéia lembra que várias cidades enfrentam o mesmo problema de falta de água e em algumas localidades é bem mais grave. “Não é um problema só de Bauru. Em Minas Gerais, por exemplo, muitas cidades estão em calamidade pública. Nós estamos enfrentando uma das primaveras mais quentes dos últimos 60 anosâ€, afirma.
Ela afirma que o DAE precisa recuperar a capacidade de investir para produzir mais água, mas aponta outra alternativa às indústrias. “Não acho que a falta de água em épocas como esta, de estiagem, inviabilizem novas empresas. Elas podem perfurar poçosâ€, diz.
Economizar é imprescindível
Além de investir em recuperação dos rios e novas alternativas de abastecimento, todos os entrevistados consideram que economizar água é imprescindível para toda a população, não só a de Bauru.
Luiz Alberto Novelli, coordenador de comunicação da Sabesp de Botucatu, ressalta que o Estado de São Paulo está passando por uma das mais acentuadas estiagens dos últimos 50 anos, o que resulta em problemas em abastecimento em muitas cidades. “Além da estiagem, as temperaturas estão dez graus acima da média para o período. Isso está provocando um excesso de consumo. Nessa situação, a falta de água não é um problema localizadoâ€, diz.
Ele conta que nas cidades da região onde a Sabesp opera ainda não foi registrado falta de água, mas sim de prejuízos no abastecimento. “As casas localizadas nas regiões altas estão recebendo água com menos pressão e para voltarmos à normalidade é determinante a conscientização da população quanto ao uso racional da águaâ€, afirma.
A Sabesp, empresa que é concessionária de água em 366 municípios do Estado, conta Novelli faz campanhas periódicas para economia de água. Para José Domingos Malandrino, o poder público tem que investir mais para oferecer água, mas a população tem que economizar.
“A população tem culpa em estar faltando água. Passo pelas ruas e vejo muitas pessoas lavando calçadas com jato dágua. Isso é um absurdo. O ser humano tem que atender que os recursos naturais são escassosâ€, opina. “Em 1985, Bauru tinha 150 mil habitantes e agora está com 315 mil. Esses mais de 150 mil habitantes são uma nova cidade consumindo água do mesmo Batalha que abastecia Bauru há 17 anosâ€, completa.
Para forçar a economia de água, Malandrino sugere a cobrança de uma sobretaxa para consumo acima da média. “Deveria ser adotado a mesma sistemática da época do apagão. O vereador Rodrigo Agostinho, que defende a recuperação do rio Batalha mais do que qualquer outra ação para resolver o problema da água em Bauru, concorda que economia é primordial.
Por isso, ele propôs um projeto de lei que prevê multa e corte no fornecimento de água em flagrantes de desperdícios para períodos que o município estiver em crise de abastecimento. O projeto de lei está tramitando na Câmara Municipal e, se aprovado, autorizará o poder público multar os consumidores que forem flagrados lavando calçadas usando jato dágua, por exemplo.