O ator, poeta e pintor Farid Lawi, os artistas plásticos Vittorio Cuttin e Peres Filho, o fotojornalista Sérgio dos Reis, o professor Hélcio Pupo Ribeiro, o compositor e sambista Menezes, o roqueiro Carlinhos Bauruzão, o mestre de bateria Landinho e o artista plástico Cirilo Daibem, o cantor Osni do grupo Gota D’Água, a cultura de Bauru nunca perdeu tantos talentos em um único ano.
Entretanto, filhos, amigos e discípulos estão se movimentando para que a arte produzida por estes expoentes seja realmente imortal e se preserve na história da cultura local.
Algumas famílias ainda estão muito abaladas com as perdas recentes. É o caso dos irmãos Daibem que só hoje conseguiram se reunir para juntos encontrarem a melhor maneira de preservar e difundir a arte forte impressionante de Cirilo. Aliás, ele mesmo ousava dizer que “depois de Salvador Dalí, só ele.â€
Isaías Daibem, um de seus irmãos, revela que o artista deixou uma obra muito grande. “Muita coisa as pessoas ainda não viram e é um trabalho muito significanteâ€. Dessa maneira, na pauta da discussão sobre o futuro das obras está uma exposição póstuma e talvez a doação de parte do acervo para um ateliê ou instituição de cultura.
A idéia de montar uma nova exposição com obras inéditas, textos e rascunhos de Farid Lawi, que trabalhou nos últimos 14 anos como assessor cultural da Prefeitura do Câmpus da Universidade de São Paulo (USP), também está nos planos a amiga e artista plástica Mara Mazeto, que pretende dividir o trabalho com o artista Percy Coppieters e a escultora Maria Antônia Camolesi, que acompanhou e cuidou da última exposição “Tramasâ€, com trabalhos definidos como sendo “arte-objeto-instalaçãoâ€.
“São trabalhos de grande porte e que farão parte do inconsciente do público, interagindo-o com a instalação, que nada mais é do que uma trama perfeita de um emaranhado de expectativas. Quis elaborar alguma coisa que atingisse o ego das pessoas e as fizesse tramar suas idéias, cores, pensamentos, sentimentos, acho que provocarei reaçõesâ€, definia o artista.
As peças recolhidas por Camolesi foram encaminhadas à família do artista. Mas Mazeto encontrou em seu ateliê muitos versos e textos do amigo. “Acho até que ele escrevia muito melhor que pintava. Podíamos estar num bar que ele pegava um guardanapo e escrevia coisas incríveis. Ele dizia que não sabia como as palavras lhe brotavam. Mas era um processo natural, em dois minutos estava prontoâ€, relembra, revelando que Lawi estava escrevendo um livro.
Expor as “coisas eternas da natureza†que seu pai pintava também é o projeto da professora Stela Cuttin, filha do pintor florentino radicado em Bauru Vittorio Cuttin, que pôde se orgulhar de passar seus 84 anos vivendo de arte.
O artista plástico, de estilo clássico, espalhou seus mares, sóis, céus, flores e nuvens pelo país. “Muita gente de Bauru tem nove, dez telas de papaiâ€, conta Stela que guarda com carinho cerca de 30 peças que lhe restaram. “Não sobrou muita coisa.†Entretanto, Cuttin foi um dos melhores professores de pintura de Bauru e deixou muitos alunos. Sua arte também está catalogada no Museu de Trieste, na Itália.
O jornalismo e a noite de Bauru também perderam os ângulos e sacadas do fotógrafo Sérgio dos Reis. Seu arquivo fotográfico está sendo levantado pelos colegas de profissão entre os jornais, revistas e casas noturnas onde trabalhou e em breve deverá ser mostrado ao público o jeito peculiar com que dos Reis lia os fatos através das lentes.
Para o editor de fotografia do JC Quioshi Goto, Sérgio fazia arte das suas reportagens. “Ele não media esforços para conseguir uma boa imagem. Isso significava sempre uma “briga†por uma foto na capa do jornal.â€