Cultura

Sobre Mundos: Manter a própria chama acesa

Por Padre Beto | Especial para o JC Cultura
| Tempo de leitura: 4 min

Ao chegar à Terra Santa, um bravo cavaleiro acendeu no sepulcro sagrado de Cristo uma vela e fez a promessa de levar esta chama acesa até sua cidade natal, Florença, na Itália. Assim, o cavaleiro se pôs a caminho com a pequena vela. A certa altura da viagem ele foi atacado por ladrões.

Diante destes, o cavaleiro somente fez uso da defesa e recusando-se a contra atacar com violência, prometeu aos ladrões entregar tudo o que tinha contanto que eles não apagassem a pequena vela. Os ladrões levaram todos os pertences do cavaleiro.

A sua armadura foi substituída por uma roupa velha e suja e seu cavalo por um jumento. A vela, porém, foi mantida acesa. Para proteger a chama do vento, o cavaleiro resolveu montar no jumento com as costas para frente. Chegando em Florença, os garotos da rua pensavam que ele não passava de um louco e tentavam a qualquer custo apagar a vela.

Por um milagre a sua chama continuava acesa. Finalmente, o cavaleiro chegou à catedral da cidade e depositou a vela sobre o altar. Uma pessoa que possuía também sua vela acesa, vendo o cavaleiro perguntou-lhe o que deveria fazer para que a chama de sua vela não se apagasse.

O cavaleiro, então, respondeu: “Esta pequena chama exige que você se concentre no essencial. Em momento algum você pode se descuidar. Não importa de quantos perigos você já a salvou, sua chama sempre precisará, em cada minuto, de sua atenção.”

O ser humano é algo que não podemos definir. Ao surgirmos na existência, apesar de causarmos alegria a muitos, possuímos pouco significado em relação ao que, na verdade, somos. Todo ser humano constrói o seu significado à medida que conduz a sua existência. Neste sentido, nos tornamos nossos próprios criadores.

No empreendimento de darmos significado ao nosso ser, estamos na condição de seres livres e solitários. Apesar da carga hereditária e de todas as influências positivas ou negativas do meio ambiente, o ser humano é livre e solitário para determinar o que deseja ser ou como deseja compreender sua existência. Aqui está o núcleo da subjetividade humana, como também de sua dignidade.

Neste sentido, Jean-Paul Sartre nos lembra que a existência determina o ser e não o contrário. Somente durante à minha existência poderei dizer, na verdade, quem eu sou. Desta forma, todo ser humano é responsável por seu próprio ser pois em suas mãos estão as escolhas que poderá fazer diante dos desafios da vida, das limitações da realidade ou da mediocridade humana à sua frente.

Subjetivismo significa aqui a escolha sobre nós mesmos. Esta escolha, porém, determina não somente a vida particular de um ser humano, mas também toda a humanidade. A forma de conduzir minha existência não só constrói meu retrato como indivíduo, mas influencia minha família, meu grupo de amigos e também minha sociedade. “Somente a pessoa que crê em si mesma é capaz de crer nos outros” (Erich Fromm).

Certa vez, escreveu Dostojewski que, se Deus não existir, tudo é permitido. Porém, o que sustenta esta afirmação é uma concepção errônea de Deus. Deus não é uma força determinista que condiciona o ser humano a determinadas ações e, por conseqüência, as religiões não deveriam significar “freios” ou “cabrestos” que direcionam a vida dos seres humanos como se estes fossem animais.

De acordo com a concepção teológica cristã, Deus nos chamou para a vida em total liberdade. Neste sentido, para o ser humano tudo é permitido, apesar da existência de Deus. O ser humano carrega toda a responsabilidade sobre o que ele é, sobre o seu relacionamento com os outros e sobre o sistema social que ele mesmo constrói.

Nós estamos, neste sentido, sozinhos em nossa responsabilidade e sem desculpas. Apesar dos “bodes expiatórios” que procuramos criar, como demônios, forças do além, destino, sorte ou um deus que controla toda a nossa vida, o ser humano precisa se conscientizar de que ele está condenado à liberdade.

Sem dúvida alguma, esta não é totalmente absoluta. Ao buscarmos construir a nossa existência, obrigatoriamente descobrimos que estamos dependentes da liberdade dos outros. Esta dependência, porém, não significa que devemos esperar a aceitação dos outros diante da construção de nossa própria história.

Muitas vezes, não somos incentivados, muito menos encorajados, para viver nossos sonhos ou buscar sermos o que desejamos. Muitas vezes, somos vistos como loucos e muitos tentam, a qualquer custo, apagar a nossa chama. O importante é ter sempre em vista de que na vida possuímos somente duas escolhas: caímos na mesmice e nos condenamos à frustração ou vamos em busca do que desejamos ser, apesar, de algumas vezes, termos que conviver com a solidão.

“Depois de algum tempo você aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam” (W. Shakespeare)

Comentários

Comentários