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Piedade, o que é?


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Desde quando pregam humanistas e pseudo-humanistas, como coisa imperiosa porque fundamental, a necessidade de se adotar no mundo uma política efetiva de apoio aos deficientes físicos e mentais? Já vem isso bem de longe, a menos que a memória nos fuja... Não obstante, quase nada de novo tem surgido no campo, pois os problemas sociais que o afetavam nos primeiros tempos continuam vigindo praticamente em toda a intensidade. Consequentemente, todos quantos, por esta ou aquela razão, sofrem limitações do gênero, tendem a mantê-las irrevogavelmente até que os seus olhos se fechem definitivamente ou venham a ser objeto de algum milagre divino. De outra forma, suas discriminações continuarão distanciando-os de seus sonhos.

Qual o motivo disso que, inegavelmente, constitui injustiça? Explique-se incontinente: falta de compreensão da sociedade, porquanto seria preciso que todos entendessem que os excepcionais não almejam piedade e, unicamente, oportunidade para desenvolver as aspirações que carregam em seu âmago. Se assim se pode inferir, por que cruzarem-se os braços diante da problemática, inclusive tendo-se em vista que o apoio que os deficientes reclamam e merecem não devem ser esperados unicamente dos poderes públicos, através de medidas legislativas transformadas em uma política específica, mas, igualmente, de parte dos próprios pais e demais responsáveis em seus desejos de transformarem os rebentos em pessoas independentes na medida do possível, seja social, clínica ou cirurgicamente, para o enfrentamento da existência. Seria benéfico, portanto, que papai, mamãe e irmãos se preparassem para educar seus deficientes em tão importantes sentidos e não somente quanto à sua locomoção, geralmente suas dificuldades maiores, as quais os levam ao uso sistemático de cadeiras de rodas. Não é possível levar-se o problema a outros campos, pois, rotineiramente, a criança deficiente tem aptidões, algumas das quais pode realizar com competência, embora outras lhe sejam difíceis, quase impossíveis. Nem por isso possam ser entregues aos seus próprios destinos, sem algum tipo de encorajamento que, inclusive, tenda a inseri-la em alguma ocupação profissional. Abjuram os deficientes qualquer forma de piedade, lembrando Honoré de Balzac ao escrever ser ela “o sentimento que o homem mais dificilmente tolera dos semelhantes, mesmo quando tem consciência de merecê-la”, e ainda que se atendo ao pensamento de Coelho Netto, segundo o qual “a piedade não é um presente entre amigos e, sim, um amor que não espera resposta”. É também a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)

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