Política

Alckmin chega otimista à véspera

Por Gilmar Dias | Especial para APJ
| Tempo de leitura: 8 min

O governador Geraldo Alckmin (PSDB), candidato à reeleição, chega otimista na reta final da campanha ao Palácio dos Bandeirantes. A exemplo de José Genoíno (PT), seu adversário, Alckmin foi entrevistado pela Associação Paulista de Jornais (APJ).

Ele fala sobre suas propostas de governo, reconhece que o valor e o número de praças de pedágio estão desproporcionais e promete mexer na ferida.

Se reeleito, Alckmin será um forte nome na indicação de pré-candidatura à Presidência da República em 2006, disputando com Aécio Neves (PSDB), governador eleito de Minas Gerais, os holofotes da renovação tucana. A seguir, a entrevista:

Associação Paulista de Jornais (APJ) – O senhor tem despontado nas últimas pesquisas com uma média de 12% das intenções de votos à frente de José Genoíno. O senhor está confiante de que será reeleito nas eleições deste domingo? Geraldo Alckmin – Não. Por enquanto são intenções de votos. Votos mesmo se confirmam no domingo. E eu sempre oriento os meus companheiros para não ter salto alto. Temos que manter os pés no chão, sandália havaiana.

APJ – No primeiro turno o candidato José Genoíno recebeu muito mais votos do que as pesquisas apontavam. Alguns analistas dizem que isso ocorreu devido à “onda Lula”. O senhor teme que isso possa ocorrer de novo no segundo turno? Alckmin – Acho pouco provável. Quando terminou o primeiro turno, se fosse uma curva ascendente, ele já deveria estar na frente. Nós já estamos no fim do segundo turno. O que tem havido é uma separação, um distanciamento da nossa candidatura para o segundo colocado.

APJ – O senhor declarou que o Genoíno é um caronista na candidatura do Lula. Por outro lado, o Genoíno fala que o senhor tem medo de colar a sua imagem a do candidato tucano José Serra. Há uma estratégia nesse sentido? Alckmin – Não. Na realidade, toda a minha campanha tem o nome do Serra. O Serra estando em São Paulo estamos sempre juntos. Eu tenho que fazer campanha só em São Paulo. O Serra, em 27 Estados da federação. É evidente que é diferente. O que eu tenho dito é que na realidade não existe essa história de “escolha um e leve dois”.

APJ – Se esse quadro atual for mantido e Lula se eleger presidente da República, como será o relacionamento do senhor com ele? Alckmin – Olha, eu tenho confiança no julgamento popular. Acho que o povo recebendo todas as informações, é um bom juiz. Nós precisamos ter cautela, aguardar o resultado das eleições e trabalhar por ambas candidaturas: a do Serra e a nossa. Mas sou contra, independentemente do resultado das eleições, o chamado terceiro turno. Por quê? Porque nós temos uma cultura política de ficarmos sempre em campanha.

APJ – O Paulo Maluf e parte do PPB declararam apoio ao candidato José Genoíno, do PT. O senhor acha que perde votos com isso? Alckmin – Não. Primeiro, ele tem o direito de apoiar quem quiser. Mas eu acho que não. O eleitor é livre. Especialmente no segundo turno.

APJ – O desempenho do PSDB ficou um pouco aquém da expectativa. Como uma das lideranças do partido, qual é a avaliação que o senhor faz desse desempenho? Alckmin – O PSDB deve refletir. Se aprende mais nas derrotas do que nas vitórias. Tivemos vitórias importantes, como em Minas Gerais, ainda no primeiro turno. E eu sempre defendi a tese, e eu sou fundador do PSDB e acho o PSDB um bom partido, de que é preciso amassar mais barro, comer mais poeira, estar mais perto dos movimentos populares para ser melhor intérprete dos anseios da população.

APJ – O senhor acha que o PSDB se distanciou do povo? Alckmin – Na medida em que você é governo em vários níveis, os melhores quadros do partido acabam indo para o governo e ficam nas tarefas executivas. Mas é preciso tocar o partido enquanto partido para que seja cumprido seu papel enquanto instrumento da população.

APJ – O senhor conta, formalmente, com os apoios do PFL e PSD e, informalmente, neste segundo turno, com o PV, PDT, PSB, PPS. Se reeleito, o senhor pretende governar com esses partidos? Alckmin – Olha, eu até citei há pouco um fato importante, que é a chamada nova política, que mostra que estamos avançando no amadurecimento democrático e aprimoramento da vida pública. Ninguém exigiu nada. Eu aprendi o seguinte: você tem que ter a pessoa certa no lugar certo. Esse é o critério. Não é o critério do loteamento, do toma lá, dá cá.

APJ – O senhor acha que o episódio envolvendo os seguranças do seu filho pode ser uma retaliação do Primeiro Comando da Capital, o PCC? Alckmin – Eu acho que a investigação deve ser ampla. Mas não se pode afirmar, hoje, que há uma relação entre um caso e outro.

APJ – O adversário do senhor tem criticado muito a questão do regime de Progressão Continuada nas escolas do Estado. O senhor já anunciou que esse sistema deve mudar. O que efetivamente deverá ser alterado? Alckmin – Nós pretendemos mexer na educação com duas medidas importantes. A primeira é a capacitação do professor. Demos um passo oferecendo o curso de pedagogia, curso de terceiro grau, nos antecipando à Lei de Diretrizes de Base da Educação. Estamos comprando 100 mil computadores – a maior compra do País – para que o professor tenha um em casa. Metade o governo paga e a outra parte financiaremos pela Nossa Caixa. Os alunos passaram de quatro para cinco horas-aula. Isso traz um ganho. No próximo mandato vamos investir no professor. Hoje, o Saresp é realizado, no primeiro ciclo, na quarta série. No segundo ciclo, na oitava série. Nós vamos fazer essa avaliação todos os anos, permanente.

APJ – Outra crítica do candidato do PT é o número excessivo de praças de pedágios. E o indexador que corrige os preços é o IGPM, que é voltado mais para o mercado financeiro e menos para a estrutura de custos da operadora de pedágio. Como o senhor pretende tratar essa questão num eventual segundo mandato? Alckmin – Essa é uma questão que já estamos analisando. O programa de concessão de rodovias é importante. Não é privatização porque você não está vendendo nenhum ativo do Estado. É um aluguel por 20 anos. O governo não tem dinheiro para tudo. Quando é que nós poderíamos fazer a segunda pista da Imigrantes? Iríamos levar mais 30 anos. As concessões geraram 25 mil empregos. As rodovias paulistas são as melhores do País porque você tem conservação permanente. Reduzimos em 31% as mortes nas estradas. Há o conceito de rodovia viva, atendimento médico, mecânico, guincho. E o governo ainda recebe uma parte da receita. Qual é a crítica? A crítica é que há um número excessivo de praças de pedágio. Vamos analisar caso a caso. Por exemplo, eu já detectei que há pistas simples pedagiadas e não duplicadas onde o custo do pedágio é 40% da arrecadação. É uma praça que não se justifica. É quase a metade do que se arrecada para manter os custos.

APJ - Se reeleito, quando o senhor pretende retomar a duplicação da Bauru-Marília? Alckmin - Nós já estamos em obras entre Vera Cruz e Garça. A próxima etapa pegaremos por Bauru, a partir do ano que vem. Por que Bauru? É porque perto das cidades maiores a média de veículos/dia é maior. O critério é técnico.

APJ - Há uma expectativa muito grande para o início das operações do novo aeroporto de Bauru. O senhor tem previsão de quando essa obra ficará pronta? Alckmin - O aeroporto de Bauru-Arealva é a maior obra do Interior do Brasil. Eu espero no ano que vem fazer a terceira e última fase. As torres, obras de acesso e colocar para funcionar.

APJ - Na hipótese de o senhor ser reeleito para cumprir mais um mandato de quatro anos, não há como negar que o seu nome sairá fortalecido como pré-candidato à Presidência da República na eleição de 2006. O senhor já pensou nisso? Alckmin - Eu sou contra antecipar eleições. Eu aprendi com o meu pai o seguinte: o futuro trará a sua própria aflição. O futuro a Deus pertence. A gente tem que fazer bem feito o que se faz hoje. Tenho que cumprir meu mandato até 31 de dezembro. E ponto final.

APJ - O senhor já pensou na formação do secretariado? Alckmin - Só depois de abertas as urnas.

APJ - A mudança é a grande palavra desta eleição. O que mais deve mudar num eventual segundo mandato do senhor? Alckmin - A mudança é permanente. O Mário Covas fez o ajuste grosso. Ele fez um ajuste fiscal sem aumentar impostos. Geralmente aumenta-se a carga tributária para equilibrar as contas e o povo paga a conta. Agora, o ajuste fino, um exemplo prático, será a eficiência no gasto público. Se for governador, eu tenho quatro prioridades definidas. Primeiro: governo empreendedor. Nós vamos pisar no acelerador. Segundo: governo educador. Qual é a vocação da região? É agronegócio? Vamos implantar lá a Faculdade de Tecnologia, a Fatec. Terceiro: prestação de serviço público. Governo é prestador de serviço público com qualidade. É o padrão Poupa Tempo. Nós vamos pegar o padrão Poupa Tempo e colocar na educação, na saúde e na segurança. E governo solidário. Se o dinheiro apertar - e vamos ter turbulência pela frente -, o túnel, o viaduto vão esperar um pouco. A administração pública não tem mágica. É trabalho, trabalho e eficiência.

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