Sou um apaixonado pela economia brasileira. Não uma dessas paixões violentas e de curta duração, mas uma admiração madura e curtida ao longo de muitos anos - já são mais de trinta e cinco - de vida em comum. Paixão pela capacidade de sobreviver a uma série infinita de crises terríveis, com o enterro já contratado e encomendado, que aconteceram nos últimos anos. Paixão pela resistência de nosso sistema produtivo a experiências econômicas insanas que economistas, da direita e da esquerda, de tempos em tempos, exercitam quando estão no poder. Paixão pela forma como o brasileiro suporta esses tempos difíceis, sempre prontos a encarar com otimismo cada nova oportunidade de melhora que aparece. E olhando para trás, entendemos o porquê desse comportamento quase esquizofrênico do brasileiro: estamos sempre melhorando e progredindo apesar de tudo.
Agora mesmo, estamos vivendo um desses períodos de renascimento. O Banco Central divulgou nessa última quinta-feira, os resultados de nossa Balança de Pagamentos, referente ao mês de setembro. São impressionantes! Deveremos ter um déficit em conta corrente este ano, na ordem de US$ 11 bilhões ou cerca de 2,42 % do PIB. Mantido para o ano que vem o processo de ajuste em curso, o déficit em conta corrente, informa o BC, deverá ser de US$ 9 bilhões ou algo como 1,9% do PIB. Para que o leitor possa julgar essa mudança, lembro que esse déficit já foi de mais de US$ 30 bilhões, ou mais de 4% do PIB. Para que isso ocorra, o departamento econômico do BC está prevendo um superávit comercial da ordem de US$ 15 bilhões em 2003. Um número viável.
Nesse cenário, o Brasil vai certamente sair do grupo de risco dos países com trajetória explosiva em suas contas externas. Vamos poder respirar novamente e voltar, a partir de 2004, a cuidar de forma responsável de nossos problemas estruturais.
Os pessimistas de sempre vão argumentar que esse ajuste está sendo feito a partir de uma recessão interna muito grave, com um alto desemprego e uma queda do salário dos trabalhadores. A eles respondo com outra pergunta: existe outra forma de enfrentarmos a crise atual? Felizmente, o PT, que a partir deste domingo será poder no Brasil e, a acreditar no que estamos ouvindo nesses últimos dias de alguns de seus lideres, não estará mais do lado das barricadas esquerdistas que tanto barulho fez, nos últimos anos.
A direção do partido parece perceber que o sucesso de sua longa caminhada em direção ao poder político do País, implica na manutenção do quadro recessivo atual por mais algum tempo. As lições do fracasso eleitoral de FHC e de seu candidato são muito claras. Um governo que deseja manter-se no poder, precisa administrar a economia sempre com um olho no calendário eleitoral. Precisamos entender primeiro a natureza do processo de ajuste atual de nossas contas externas. Ele está ocorrendo apesar do governo!
Em outras palavras, da mesma forma como aconteceu a flutuação de nossa moeda em 1999, foi o mercado que detonou esse ajuste. Ele não é fruto de uma decisão autônoma do presidente da República e de sua equipe econômica. Quando a ameaça de uma vitória eleitoral do velho PT ficou mais clara, por volta de maio desse ano, começou um processo de fuga dos investidores internacionais, principalmente dos grandes bancos, de ativos brasileiros. Esse movimento defensivo fez com que o chamado risco Brasil iniciasse uma trajetória explosiva de alta.
O comportamento dos mercados no momento em que escrevo esse artigo - queda do dólar e do Risco Brasil - parece indicar que o PT está ganhando pontos na guerra das expectativas. Esse processo de melhora do humor dos mercados vai depender dos próximos passos de Lula e de seus companheiros. O discurso de aceitação de sua vitória logo após as eleições, a definição da equipe de transição e, principalmente, as divulgações dos nomes da equipe econômica do governo, serão eventos analisados com lupa pelos principais agentes econômicos. Somente a partir dessas informações é que o quadro atual de mais esperanças pode se consolidar. (José Roberto Mendonça de Barros é economista, ex-secretário da Câmara de Comércio Exterior (Camex) e sócio da MB Associados)