Muitas e grandes mudanças acontecerão no Brasil. Essas mudanças fazem parte do programa que apresentamos em nossa campanha eleitoral, e somente poderão ser realizadas através de um esforço conjunto e articulado entre a sociedade brasileira e o Estado que nos propomos a estabelecer. Assim, serão encaminhadas medidas para impulsionar o crescimento econômico e implantar um modelo de desenvolvimento alternativo ao neoliberal, praticado nos últimos oito anos. O neoliberalismo fracassou no Brasil, como em muitos outros países. Não conseguiu o desenvolvimento econômico que havia prometido, já que este foi um dos períodos de menor crescimento na história nacional. Tampouco conseguiu a também prometida redução das enormes desigualdades existentes em nosso País.
A política externa será fundamental para instrumentalizar o projeto de desenvolvimento alternativo que permitirá superar a vulnerabilidade do País no contexto dos instáveis mercados financeiros globais. A prioridade número um de nossa política externa será a reconstrução do Mercosul, o acordo para a integração entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, fortemente sacudido pelas crises econômicas experimentadas por seus membros, particularmente os dois maiores, Brasil e Argentina.
A política de integração com os países vizinhos é fundamental para fazer valer os interesses de nossa região no contexto da Alca. Nosso governo não poderá assinar o tratado da Alca enquanto persistirem as medidas de protecionismo não tarifárias vigentes há muitos anos nos Estados Unidos. Esse protecionismo agravou-se recentemente pelas condições impostas pelo Congresso norte-americano para a assinatura de tratados comerciais e pelo aumento dos subsídios em favor da agricultura, que consiste num fundo adicional de US$ 196 bilhões que será repartido ao longo de oito anos. Basta assinalar que com essas medidas eleva-se a 521 o número dos produtos brasileiros que os Estados Unidos consideram “sensíveis†e diante dos quais pode erguer barreiras protecionistas.
Com todas essas decisões, o governo norte-americano obstruiu o caminho para estabelecer uma área continental de livre comércio sobre bases eqüitativas. Acrescente-se que um acordo desse tipo sempre é problemático quando discutido entre países que possuem imensos desníveis econômicos e tecnológicos, e que neste caso os Estados Unidos representam uma potência hegemônica que tem quase 70% do produto interno bruto de todo o continente. Sob as condições atuais, a Alca não será um acordo de livre comércio, mas um processo de anexação econômica do continente por parte dos Estados Unidos, com gravíssimas conseqüências para a estrutura produtiva de nossos países.
Por outro lado, para que este processo possa avançar, é necessária a introdução de mecanismos de compensação que permitam que as economias menos estruturadas tirem proveito do livro comércio e que não sucumbam com sua adoção. Por isso, no dia 15 de janeiro próximo, quando o Brasil sentar-se na mesa para negociar a Alca junto com os demais países americanos, assumirá com firmeza a defesa de nossos interesses, tal como sempre fizeram os Estados Unidos. E confio que desse modo chegaremos a modelar um acordo que beneficie tanto o Brasil quanto os Estados Unidos e os demais países da região.
Nosso governo se empenhará em manter relações econômicas, políticas e culturais com todas as nações. Com relação aos Estados Unidos, queremos que nossos vínculos não apenas aumentem na área comercial, onde já ocupam 25% de nosso intercâmbio e fazem da potência do Norte o maior importador individual do Brasil, como também nos planos político e cultural. É o mesmo objetivo que nos comprometemos a alcançar com a União Européia e com o bloco asiático que tem seu eixo no Japão. E faremos uma abertura especial para a África, a fim de iniciar uma era de estreitos vínculos que correspondam ao fato de o Brasil ser o segundo país com maior população negra do mundo. (O autor, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente eleito pelo Partido dos Trabalhadores)