Economia & Negócios

Economistas avaliam desafios para Lula

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 4 min

Manter a estabilidade macroeconômica e reverter a atual situação de endividamento e pressão fiscal devem ser os principais desafios do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e sua equipe, de acordo com economistas consultados pela reportagem.

Algumas opiniões divergem entre eles, mas todos são unânimes em traçar um primeiro ano de mandato difícil em função de um orçamento enxuto para 2003 e em apontar a produção como o caminho a ser seguido para melhorar a economia interna e externa.

Em seu pronunciamento oficial na tarde de ontem, o presidente eleito reafirmou sua preocupação em concretizar metas como gerar empregos, melhorar a distribuição de renda para estimular o crescimento econômico e aumentar o superávit da balança comercial.

Também destacou a importância de instituições como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aumentarem os financiamentos a empresas para elevar a produção no País.

Para o economista, professor e delegado do Conselho Regional de Economia (Corecon) Reinaldo César Cafeo, o grande desafio da equipe de Lula será manter a estabilidade macroeconômica do País.

“O superávit primário (saldo entre receita e despesas) tem que ser mantido. Por outro lado, a margem que o novo presidente terá para gastos em 2003 está apertada. Então, no primeiro ano de mandato não vejo a possibilidade de mudanças substanciais”, analisa Cafeo.

Juros

Em relação à taxa de juros, o economista avalia que a política monetária precisará continuar sendo “apertada”. Contudo, afirma que há espaço para a redução dessa taxa. Para ele, é excessivamente conservadora a posição do atual governo de controlar a inflação via taxa de juros, sendo que o componente que leva ao aumento da inflação não é de demanda, e sim de custos.

“Se Lula e sua equipe tiverem capacidade de articulação do ponto de vista dos oligopólios e discutir escalonadamente os aumentos de custos repassados aos preços, eu avalio que será possível estancar a geração de aumento de preço, e isso permitirá reduzir a taxa de juros ao longo do tempo. Ou seja, é possível alcançar essa redução sem comprometer a inflação”, destaca Cafeo.

De acordo com ele, considerando que a transição de governo deve ser tranqüila, que o universo do novo governo é de quatro anos e de que, dependendo do que for feito até o final deste ano, poderá ser retomada a confiança do investimento estrangeiro, será possível, gradativamente, “desarmar essa atratividade de capital estrangeiro via taxa de juros para se tornar uma atratividade natural, pelo que o País representa”.

Apoio

A economista e professora Salete Aparecida Rossini Lara observa que para se conseguir vitórias nas áreas de política econômica e política fiscal, independentemente de qual fosse o partido do novo presidente, será preciso contar com o apoio do Congresso Nacional.

“As alianças políticas serão fundamentais, porque o PT não tem maioria no Congresso e, em termos de governadores, os estados estão totalmente divididos. Conseguindo isso, terá que gerar dinheiro, e a única forma que vejo disso ocorrer é através de empréstimos. Acredito que o primeiro ano do novo governo será repleto de grandes desafios”, diz Salete.

A professora lembra que o próximo governo já começará a trabalhar com dívidas anteriores para pagar, sendo que o orçamento para 2003 já terá sido votado pelo atual governo. Por esse e outros motivos, Salete acredita que não será possível mudar muita coisa em termos de cenário econômico ainda no próximo ano.

“Todos os antigos presidentes da República sempre deixaram dívidas astronômicas para seus sucessores, o que dificulta muito a realização de grandes feitos com um orçamento apertado. A população precisará ter paciência para começar a ver os resultados, porque em um ano ninguém faz milagres. Internamente, não se tem de onde tirar dinheiro”, afirma.

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Mudanças

O economista Wagner Ismanhoto também não espera “milagres” para 2003, mas avalia que será possível o novo governo realizar mudanças econômicas importantes, já que o PT sempre se propôs a utilizar medidas bem diferentes das utilizadas pelo atual governo.

“O próprio Lula, em seu primeiro discurso após eleito, já sinalizou para o mercado financeiro que o caminho para o Brasil é a produção. Ou seja, as ações voltadas a esse objetivo serão priorizadas. Para isso, a atual política financeira precisa ser modificada, porque os empresários têm que ser motivados a investir nos seus negócios, ao invés de ficar especulando o mercado financeiro”, ressalta Ismanhoto.

Contudo, ele observa que o início do ano (quando o novo governo assumirá na prática) é justamente a época mais difícil em termos de geração de empregos. Historicamente, sabe-se que antes do Carnaval a economia brasileira não gira. Além disso, nessa época o nível de desemprego tende a aumentar, porque muitas vagas abertas por empresas no final do ano são temporárias.

“Outro ingrediente desafiador é que já se sabe que o próximo governo terá apenas R$ 7 bilhões em caixa para serem utilizados em programas sociais. Para o Brasil isso é muito pouco e não há de onde tirar dinheiro”, avalia.

Em relação aos juros, Ismanhoto diz que baixar a taxa de juros num curto espaço de tempo é “missão impossível”.

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