Contemplar os militares de alta patente que, desde 22 de outubro, falam a uma massa de cidadãos em uma praça pública, nos mostra a anormalidade democrática que estamos vivendo na Venezuela. Para compreender a realidade venezuelana de hoje, o ponto de partida de tudo se constitui no descrédito, na “deslegitimidade†e no repúdio que o velho sistema político venezuelano, fundado após a queda da última ditadura, em 1958, chegou a acumular em 40 anos de exercício.
Seus resultados se traduziram num empobrecimento progressivo das maiorias nacionais, graus obscenos e repulsivos de corrupção, confisco de todos os espaços da sociedade por um exacerbado partidarismo no controle de cúpulas, disputas de interesses por benefícios indevidos e uma resistência e impermeabilidade frente a demandas e reformas solicitadas pela sociedade.
Somente a partir dos elementos apontados pode-se compreender a irrupção do fenômeno “Hugo Chávez†e suas profundas raízes no ideário social, que catapultaram este tenente-coronel da reserva não só ao poder, mas à condição de líder popular de maior apoio na historia contemporânea do país. Esse apoio se traduziu em força eleitoral que lhe permitiu não apenas ganhar sete disputas eleitorais consecutivas como, também, acumular o maior poder institucional que dirigente algum venezuelano jamais possuiu.
A situação extremamente conflitiva do país, produto não fundamental da contradição de interesses e posições entre o presidente e as forças que o apóiam, e setores cada vez mais numerosos da vida nacional agrupados em movimento opositor, marcam a dinâmica venezuelana, com uma característica também anormal dentro de uma visão democrática: a incapacidade de negociar, de construir acordos, entendimentos e consensos, duplamente impossibilitados: por parte do presidente e seus seguidores, por suas pregações de uma revolução cuja fraseologia “démodé†não permite “transigir†com o adversário, desdobrado em inimigo, porque seria, segundo arrazoado obsoleto, “liquidar o processoâ€; e da parte de seus adversários, a igual convicção de que qualquer entendimento ou negociação apenas permite fortalecer um inimigo que segundo seus fantasmas apenas espera uma oportunidade melhor para liquidar liberdades e propriedades e declarar um regime comunista e totalitário.
O que acontecerá com a Venezuela? Em que tudo isto terminará? O diálogo e a negociação se imporão ou, pelo contrário, o enfrentamento e a violência? E precisamente a incerteza, e, portanto, a impossibilidade de prognósticos ou previsões, um dos indicativos da atual situação venezuelana. A parte qualitativamente fundamental do país, que agrupa proporções de seguidores e opositores do presidente, aposta na saída pacífica, democrática e de liberdade, e invoca uma solução que preserve o sistema democrático. Pelo contrário, minorias radicalizadas fecham-se num jogo perigoso que habilita do enfrentamento direto, a guerra civil e a agressão violenta até o chamado aos militares de ambos os lados a fazerem parte da situação ou inclinar, com as armas, a balança do confronto. A Venezuela tem em sua liderança responsável um desafio frente a si mesma e frente ao mundo. (O autor, Rafael Simón Jiménez, é o primeiro vice-presidente do parlamento venezuelano)