O deputado federal José Genoíno (PT), candidato derrotado ao governo do Estado de São Paulo na última eleição, afirma que o partido terá que ter o pé no chão, praticar a humildade e trabalhar duro no campo político para conseguir implementar as mudanças estruturais no País prometidas pelo presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva.
Genoíno considera que o sentimento popular é otimista, mas repete que o PT não pode errar. Ele chama a atenção para a necessidade de amplo diálogo com a sociedade e sem ira com os adversários para obter as mudanças necessárias para o País. O deputado federal cumpriu visita em Bauru, ontem. Ele está com agenda no Interior do Estado agradecendo pelos votos que obteve na disputa com o governador Geraldo Alckmin (PSDB). Leia os principais trechos da entrevista:
Imprensa - Qual será sua participação no governo Lula? José Genoíno - Eu não estou discutindo essa questão neste momento, não é prioridade e não depende de mim, depende do Lula, ele é que foi eleito. Minha tarefa é ser deputado federal até 31 de janeiro de 2003. Nesse papel minha função é ajudar o governo Lula em qualquer lugar e em qualquer função. Não estamos discutindo esta ou aquela função e este ou aquele cargo. Estou priorizando as visitas ao interior do Estado, onde tivemos uma expressiva votação e é dever nosso agradecer independente do resultado. O Lula vai decidir quais são as escolhas no momento adequado dentro de um governo muito mais amplo do que o PT para governar o país. Nós temos que acertar, não podemos errar.
Imprensa - Qual a avaliação da campanha? Genoíno - Quero destacar a importância da manifestação de apoio à minha candidatura aqui do prefeito de Bauru, do trabalho dos militantes e dirigentes do PSB e da própria Frente Trabalhista no caso do Cabrera que foram manifestações políticas importantes no segundo turno. Isso permitiu alcançar a votação majoritária muito boa que conseguimos no segundo turno. Tivemos uma eleição consagradora para a Câmara Federal, elegemos o Mercadante muito bem e estamos bem representados. Isso foi conquistado pelo Partidos dos Trabalhadores junto com os partidos de esquerda e os apoios.
JC - O senhor fará ou não parte do governo Lula? Genoíno - Essa decisão é do Lula, não é minha. O Lula não deu indicação para isso. Eu tenho uma relação diária de muito respeito, amizade e admiração com o Lula. Se ele precisar de mim vai convocar para onde ele quiser e até agora não convocou. E ele fará as escolhas no momento certo. Não há nada de concreto até agora e não é nem tempo para isso.
JC - Qual sua prioridade na Câmara dos Deputados até o dia 31 de janeiro de 2003? Genoíno - É exercer o meu mandato plenamente até esta data. Segundo, trabalhar no Congresso Nacional com a nova bancada de 91 deputados que foi eleita. Estou ajudando na agenda do Congresso e nos trabalhos que estamos realizando dentro do Congresso Nacional, onde eu tenho um acúmulo grande de experiência. E aqui no Estado de São Paulo, com base nos nossos programas de governo municipais, vamos trabalhar junto com as prefeituras, as regiões e a bancada estadual de deputados. Essa campanha mostrou que a regionalização e interiorização do partido é muito importante para garantir o fortalecimento cada vez maior do PT. Nós tivemos a vitória do Lula, mas o processo não foi completado. Temos as disputas de 2004 e 2006 e um calendário político definido que exige muito trabalho.
JC - Como o senhor viu o bom resultado no Interior, mas uma vantagem maior para o Alckmin na Capital? Genoíno - Em primeiro lugar temos uma disputa muito acirrada na capital com base na cidade de São Paulo. Em algumas regiões da capital eu fiquei em primeiro lugar, exatamente em áreas populares onde a Martha Suplicy tem programas muito fortes na área social. Em outras áreas os serviços da prefeitura ainda estão seno reorganizados, recuperados. Portanto, há um ano e nove meses do governo Martha, a avaliação é muito boa junto às camadas populares. O resultado da capital é explicado por isso. Além disso na capital temos uma disputa acirrada entre o PT, o PSDB e o Malufismo. Derrotamos o Malufismo e isso era previsível pela natureza da disputa na capital. Mas o crescimento no Interior do Estado como um todo foi muito grande. Conseguimos sair do patamar histórico que tínhamos e avançar bastante em termos de votos da população. Além disso, eu disputei com um governo de oito anos, que ora estava fazendo campanha e ora estava despachando e isso faz muita diferença na disputa.
Imprensa - Como será o governo Lula? Genoíno - Um governo de mudanças e de acordo com o que pregamos na campanha eleitoral. Há uma expectativa de otimismo em relação o governo Lula que é muito positiva. Acho que o Brasil recuperou a idéia do sonho, da esperança e do otimismo e isso é fundamental. Segundo, nós temos que viabilizar já no primeiro ano as situações favoráveis para a queda nos juros e o crescimento econômico. Precisamos priorizar as relações políticas com o Congresso e priorizar as ações sociais. O PT venceu a eleição, terá um trabalho duríssimo de mudanças pela frente e terá que ter o pé no chão, muita humildade, muito diálogo, compactuar com outros partidos que nos apoiaram e conversar até com pessoas que não nos apoiaram. Temos que fazer um governo de mudanças mas ao mesmo tempo de composição. O país quer uma saída para a crise sem susto e isso exige muito trabalho e humildade.
JC - Mas o imediatismo popular para as mudanças não pode ofuscar rapidamente este sonho? Genoíno - Entendo que não, porque as pesquisas que estamos tendo acesso mostra que a sociedade brasileira está muito lúcida porque transforma o otimismo não em uma mera pauta de reivindicação, mas o otimismo como algo que ela quer concretizar. E caberá ao PT concretizar esse sentimento de mudança com o pé muito no chão. o otimismo nesse momento tem uma dose de realismo muito forte e isso nos anima muito. Isso está sendo demonstrado pelo processo do pacto social que estamos apenas iniciando. Vamos fazer e cuidar bem do que for feito.
JC - Uma composição com o PMDB e os partidos que apoiaram o Lula é suficiente no Congresso para fazer essas mudanças? Genoíno - Se fizermos uma composição com os partidos do primeiro turno mais os partidos que nos apoiaram no segundo turno, mais uma composição com o PMDB, podemos chegar à maioria para essas mudanças. O PT tem uma bancada muito forte que forma um núcleo de sustentação programática com o PC do B. isso vai se somar com o PPS, PSB, PDT e PL com quem tivemos uma aliança. A conversa com o PMDB está avançando e são sinais positivos para o governo Lula implementar as mudanças. Não vamos partir para o revanchismo ou o acerto de contas com os partidos que são nossos adversários. Vamos trata-los com respeito e até negociar questões pontuais em favor do país.