Soube da morte do Zé Vieira, meu amigo de infância em Marília. Jogamos búrica e pião, fizemos o ginásio juntos. Logo mocinho conseguiu um emprego de caixeiro-viajante. Excelente profissão nos anos 60. Ganhava-se bem, despesas pagas pela firma, os melhores hotéis e restaurantes, jipe à disposição para as viagens. Podia usá-lo como se fosse dele, inclusive nas férias para ir a Santos. Minha mãe sempre citava o Zé como exemplo já que eu não tinha o mesmo talento do meu irmão mais velho que passou no concurso do Banco do Brasil. Há questão de um mês o Zé me ligou já sem a alegria de antes. Em vez das últimas piadas, lamúrias. Cansado, desempregado aos 60 e poucos anos, aposentadoria do INSS, sem ânimo para começar outra coisa.
Ainda conseguira resistir às novas tecnologias. Aprendeu a lidar com o telex nos anos 70 para transmitir os pedidos. Quando esse instrumento de comunicação tornou-se obsoleto aprendeu computação. Dominava os programas de informática implantados pela empresa para o faturamento. Foi difícil. Na última década a empresa jogou no seu colo um lap-top. Zé Vieira foi à luta enquanto os colegas mais antigos sucumbiam a tanto desaforo. Estava disposto a enfrentar qualquer tecnologia com a mesma eficiência dos jovens. Andava com dois celulares. Mas da internet foi impossível ganhar. A firma montou um site, os fregueses passaram a fazer pedidos on-line, reclamavam dos preços on-line, sabiam das novidades on-line, recebiam faturas on-line. “Só falta a esses caras fazer sexo virtual†– brincava o Zé. O pessoal de RH da firma chamava isso de “interação†com o mercado. “Pra quê caixeiro viajante? Nem para contar piadas servem mais†– concordava o meu amigo. Há um repertório imenso e constantemente renovado de piadas na internet... Por ironia, fiquei sabendo da sua morte também pela internet.
Zé Vieira tinha o bom-humor do Élcio Prieto misturado com a boêmia do Mauricinho Geara, aquele grande amor da vida da Eny morto em desastre na Dutra. Boêmio no bom sentido. Um copo de cerveja já o motivava a encostar a mala pesada, bater papo a noite inteira, recitar J.G. de Araújo Jorge e cantar todo o repertório do Nelson Gonçalves. Na bonomia lembrava o Zoltan, da Renner, que de vez em quando liga para dar notícias.
Difusas são as fronteiras que ao mesmo tempo unem e separam o real da ficção. Arthur Miller criou uma obra prima do teatro ao se inspirar na experiência vivida com um caixeiro viajante de olhar lento e andar distante. Cansado, aquele senhor de cabelos brancos pediu que o jovem Miller o ajudasse a pôr sua pesada mala no trem. Depois, surpreendentemente, suplicou que lhe fosse pago o bilhete, o que o adolescente também não negou. Alguns dias mais tarde, Miller encontrou a foto do homem nos jornais: havia se suicidado na manhã seguinte ao estranho encontro, lançando-se com mala e tudo, embaixo das rodas de um trem. Há mais de 50 anos A morte do caixeiro viajante foi levada ao palco sob a direção de Elia Kazan. Foi a maior obra teatral do século 20 depois de Esperando Godot, do irlandês Samuel Beckett. Miller sintetizou, como ninguém, um dos arquétipos da derrota do homem médio na sua contradição mais profunda: depois de tentar, durante décadas, pôr em ordem a sua vida, Willy Loman se descobre, aos 60 anos, sem trabalho, sem dinheiro, sem estima e, ainda por cima, sem o afeto dos filhos. Derrotado pela pós-modernidade.
O detalhe fundamental do texto de Miller era que o protagonista sempre acreditou que os Estados Unidos fossem, sem nenhuma possibilidade de falência, a pátria perfeita para os seus filhos e toda a família prosperar. O drama da peça é calcada no fato do ingênuo Willy Loman perceber que era desprezado e humilhado justamente pela família, a qual deveria dar senso a sua vida. Foi por ela que sempre trabalhou. Para o seu conforto. Sem emprego e sem dinheiro desvaneceram-se as lembranças dos brinquedos, dos doces e do pão-rosca que nunca se esquecia de trazer de cada viagem. Um drama extremamente atual e em qualquer país.
Miller nunca disse o que continha a mala do seu personagem.. Engraçado... Zé Vieira jamais admitiu abrir aquela mala de couro surrado na frente dos amigos. Negava-se a dizer o que carregava. Só agora, repensando a sua vida, descobri o segredo da mala: carregava a ele mesmo. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)