A simpatectomia torácica endoscópica bilateral - nome da cirurgia que corrige a hiperidrose - consiste em cortar alguns gânglios e nervos do sistema nervoso simpático. Isso impede o nervo de transmitir às glândulas sudoríparas a ordem para que funcionem, ou seja, a pessoa deixa de transpirar naqueles locais.
De acordo com os cirurgiões Sebastião Benetti e José Ribas Milanez de Campos, a técnica atual é realizada com dois cortes de cada lado na região das axilas e das mamas. Cada incisão tem entre meio e um centímetro.
Na abertura superior, o profissional introduz a minicâmera até localizar e visualizar adequadamente a região a ser operada. Pela outra incisão, ele passa o bisturi, que fará a secção dos gânglios e nervos.
Benetti explica que estes gânglios são bolinhas ligadas umas às outras como num rosário. Elas ficam junto das vértebras e delas saem nervos que passam pela costelas.
“Nós temos que localizar os gânglios e cortá-los, seccionando também a membrana que reveste os ossos da costela - igual àquela que existe na costelinha de porco ou vaca. Isso é para garantir a interrupção da transmissão nervosa, porque esta membrana tem alguns raminhos muito finos poderiam manter os impulsos nervosos até as glândulas sudoríparasâ€, descreve.
Cada um destes gânglios tem um nome e é responsável pela transpiração em um determinado ponto do corpo. De acordo com os médicos, para a correção da hiperidrose das mãos, corta-se o gânglio denominado T2. Para o rosto e couro cabeludo, também. Quando há hiperidrose palmar e axilar, corta-se o T3. Para o tratamento da hiperidrose axilar pura, retiram-se os gânglios T3 e T4.
“A cirurgia só não corrige a hiperidrose plantar, porque a enervação que ordena a transpiração nos pés sai da parte baixa da coluna. Ali existe um tufo de nervos, como um pincel e por enquanto não existe uma técnica apropriada para localizar e isolar este nervo específicoâ€, adverte Benetti.
Porém, ele ressalta que 70% dos pacientes apresenta uma melhora considerável na transpiração dos pés. Provavelmente isso deva-se ao componente psicológico. Ao sanar a sudorese nas mãos, axilas e face, o indivíduo reduz a ansiedade e o medo de transpirar, quebrando o ciclo vicioso e melhorando a condição dos pés em até 100%.
Pulmão
A simpatectomia é feita sob anestesia geral e com o paciente entubado. Segundo Benetti, o tubo utilizado é de duplo lúmen, ou seja, ele tem uma bifurcação que permite impedir a oxigenação de um dos pulmões enquanto o outro trabalha normalmente. Isso é fundamental para esta cirurgia.
“O pulmão está dentro do tórax como uma câmara de ar dentro do pneu. Para chegar aos gânglios e nervos, nós temos que murchar, esvaziar os pulmões. Então, fazemos a cirurgia em duas etapas, uma de cada lado. Você murcha um pulmão e opera. Depois expande este pulmão, retira o ar da pleura com um dreno e sutura. E repete o procedimento do outro ladoâ€, detalha Benetti.
A duração da cirurgia varia muito de médico para médico. Em média, são 40 minutos a duas horas. Geralmente, o paciente recebe alta no dia seguinte e pode voltar ao trabalho em três dias, desde que não faça movimentos bruscos ou exercícios pesados por pelo menos três semanas.
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Técnica é estudada desde 1926
Os primeiros trabalhos científicos apontando a utilização da simpatectomia torácica para o tratamento da hiperidrose datam de 1926 a 1935. No entanto, a cirurgia era realizada por meio de incisões grandes sobre a clavícula (ombro) e pescoço, o que expunha o paciente a riscos importantes.
O cirurgião Sebastião Benetti explica que, pela técnica antiga, o médico só tinha acesso a um dos gânglios torácicos, o T1. “Só que o T1 fica junto com o gânglio cervical. O médico tinha que cortar o T1 até a metade. Só que, naquela posição, ficava difícil identificar o que era a metade e, algumas vezes, cortava-se uma fibra ou outra estrutura cervical por enganoâ€, comenta.
As seqüelas mais freqüentes nestes incidentes eram paralisia de membros superiores, queda de pálpebras, projeção dos olhos para fora e dilatação das pupilas, o que recebe o nome de Síndrome de Claude Bernard Horner.
De acordo com o cirurgião José Ribas Milanez de Campos, de lá para cá, a cirurgia difundiu-se por vários países e a técnica veio sendo aprimorada. “Mas a simpatectomia só teve um ‘boom’ no mundo a partir de 1992, quando surgiu a videocirurgia. As minicâmeras tornaram as operações mais simples, mais fáceis, mais precisas e mais segurasâ€, destaca.
O procedimento também mudou, segundo os médicos. Hoje, são feitas apenas duas pequenas incisões de cada lado. Ribas utiliza a técnica no Hospital das Clínicas de São Paulo desde 1995. Benetti realiza as cirurgias em Bauru há cerca de seis meses.