Vítimas, parentes, amigos, vizinhos e curiosos, acompanharam prostrados, durante a tarde de ontem, a retirada de entulhos do terreno onde até domingo viviam 17 pessoas na favela do Ferradura Mirim. Elas ficaram desabrigadas após um incêndio, que atingiu três barracos na tarde de anteontem, instalados na rua B, quadra 1.
Enquanto um caminhão basculante e uma pá carregadeira, enviados ao local pela Regional do Redentor, retiravam cerca de seis toneladas de entulho entre madeira, móveis e utensílios domésticos queimados, as vítimas tentavam encontrar forças para recomeçar a vida. Para isso, vão depender da doação de parentes, amigos e da comunidade.
“Não sobrou nada, só dívidas para pagar. Tinha acabado de comprar parcelado umas roupas e mantimentos, que vou continuar pagando sem dispor deles. Assumi uma dívida de quase R$ 400,00, que não vai desaparecer com o fogoâ€, conta Elisângela Aparecida Maciel, enquanto observava a retirada dos seus objetos.
Ela morava com a mãe, o pai, o filho de um ano e oito meses e irmãos na casa de madeira onde o incêndio começou. “Hoje fomos até o local para tentar salvar alguma coisa, mas foi tudo queimado. Pela segunda vez recomeçaremos do zero. Há uns anos, perdemos tudo com uma enchente, quando vivíamos no Jardim Flóridaâ€, conta.
Segundo Elizângela, a família perdeu também documentos, além de galinhas e cães de estimação. “Eu, meu filho e três irmãos estamos provisoriamente na casa da minha ex-sogra, até que nossa vida seja construída. A cena do incêndio não sai da minha cabeçaâ€, finaliza.
Assim como sua mãe, Silvanira Maciel, ela não sabe quando poderá reconstruir o barraco, pois depende de doações. “O que mais me deixa triste é ter perdido a igrejinha que construí em casa. Mesmo assim, conto com a força de Deus, que me tirou tudo, mas poupou a vida do meu marido e dos meus filhosâ€, lamenta Silvanira.
Ela e parte da família estão vivendo nas dependências da igreja pentecostal Herdeiros do Reino, instalada no bairro, que está recebendo doações para auxiliá-los.
O incêndio de anteontem também vitimou Maria Isabel de Paula, que ontem não acompanhou o trabalho dos funcionários da Regional Redentor pois ainda está se recuperando do desespero vivido no domingo.
“Minha mãe desmaiou ontem (anteontem) três vezes antes de ser atendida pelo Resgate. Ela tomou muita medicação no Pronto-Socorro e agora está meio abobada. Não deixamos que ela viesse até aqui para não sofrer uma recaídaâ€, explica a filha Maria Lúcia de Paula.
Maria Izabel e o marido vão viver na casa de um neto no Núcleo Octávio Rasi, até que outro barraco seja levantado. “Fico preocupada porque ela é cardíaca e tem diabetes e seus medicamentos desapareceram no fogoâ€, queixa-se a filha.
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Doações insuficientes
A Defesa Civil recorreu ao resto do estoque da Campanha do Agasalho para distribuir roupas aos desabrigados, contudo não dispõe de vestimentas de bebê e crianças. Também entregou colchões e cobertores às vítimas, que esperam doações de madeira para reconstruir suas residências.
De acordo com o coordenador da entidade, Álvaro de Brito, neste primeiro momento, as pessoas que puderem ajudar devem contribuir com madeira, prego, vigota, ripa e caibros.
“Precisamos erguer novas moradias, de dois cômodos, para abrigá-los. Por enquanto, as doações de móveis e utensílios são secundárias, porque não temos onde colocá-los. Serão muito necessárias numa outra etapaâ€, ressalta.
Para ele, o ideal é que a Defesa Civil contasse com um barracão para guardar outras doações. Além disso, Brito defende um convênio entre a prefeitura e o Consórcio Intermunicipal de Promoção Social (Cips), por exemplo, onde crianças e adolescentes pudessem aprender recuperar móveis e eletrodoméstico para beneficiar a população carente.
“Muita gente acaba doando madeira podre para limpar o quintal de casa, portanto checaremos o material. Quem quiser prestar auxílio deve nos procurar. Vamos buscar em casa se a pessoa não tiver como transportarâ€, enfatiza o coordenador.
Segundo ele, o Núcleo de Apoio Sócio Familiar também está prestando assistência às famílias desabrigadas.
• Serviço
Doações podem ser feitas nas regionais dos bairros ou à Defesa Civil, que pode recolher o material oferecido. Informações através do telefone (14) 9651-0304.
A igreja pentecostal Herdeiros do Reino também está recebendo doações na rua 14, 2-30, no Ferradura Mirim.