Economia & Negócios

Demissão de condutor vira caso político com sindicato

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 4 min

Uma demissão na empresa de transporte urbano Baurutrans provocou polêmica em outro lugar: no Sindicato dos Condutores de Veículos Rodoviários de Bauru. Isso porque o demitido, motorista Glaudinês Belmiro da Silva, 32 anos, afirma que foi mandado embora da empresa para ficar afastado da eleição para a nova presidência do sindicato, marcada para os próximos dias 19 e 20.

O motorista é um dos principais articuladores de uma chapa de oposição à atual diretoria, presidida por Elias Pinheiro.

Silva conta que no dia 3 de setembro recebeu aviso prévio da empresa. No entanto, como ele é membro da Comissão Interna de Prevenção a Acidentes (Cipa), tem estabilidade no emprego. Diante disso, ele procurou o sindicato, que, segundo conta, nada fez.

Em seguida, Silva procurou a subsede da Central Única dos Trabalhadores (CUT), que disponibilizou os advogados Márcio José Machado e Luiz Gustavo Branco para defendê-lo. Os advogados conseguiram um auto de reintegração no último dia 12. Ainda assim, Silva recebeu um comunicado da empresa garantindo seu salário, mas com a ressalva de que ele teria de aguardar em casa até segunda ordem.

O motorista revela que outro funcionário da empresa - uma liderança de oposição à atual diretoria - também foi demitido, mas recebeu a indenização da Baurutrans por ser membro da Cipa. “O presidente (do sindicato) sabia que tirando essa pessoa que estava batendo de frente, eliminaria a chapa de oposição”, diz Silva.

De acordo com a assessoria de imprensa da Baurutrans, Silva foi demitido porque “profissionalmente, o trabalho dele não interessava mais à empresa”. Um outro funcionário teria sido contratado em seu lugar e, portanto, não haveria mais espaço para ele na empresa, daí a necessidade de aguardar em casa.

Ainda segundo a assessoria, a determinação da Justiça será cumprida. Quanto à eleição do sindicato, a Baurutrans não teria nenhuma relação com o assunto.

Para os advogados de Silva, no entanto, ainda que baseados apenas em suposições, é necessário deixar claras as ligações entre o atual presidente do sindicato, Pinheiro, e a diretoria das empresas de ônibus, já que não há motivo aparente para as demissões.

Eleições

Para comprovar uma suposta manipulação do presidente do Sindicato dos Condutores para que a chapa da situação seja única nas eleições, Silva apresenta os editais de convocação para eleições. Eles foram publicados no Jornal da Tarde, que segundo os advogados de Silva, circula com apenas 30 exemplares em Bauru e não possui nenhum assinante na cidade.

No primeiro edital, publiado no dia 13 de outubro, as eleições estão marcadas para os dias 19 e 20 daquele mês. Quatro dias depois, novo edital retifica a data - que passa para os dias 19 e 20 de novembro - e apresenta a chapa única.

“Considerando que Bauru tem quase 350 mil habitantes, 30 exemplares não é nada, e nem o sindicato assina esse jornal”, declara Silva. E completa: “Ele (Pinheiro) sabia que na urna iria perder.”

O motorista também afirma que em agosto uma votação alterou o estatuto do sindicato, reduzindo o prazo para a inscrição das chapas para apenas três dias após a publicação do edital. “Três meses antes da eleição, ele (Pinheiro) mudou o estatuto. Ele forjou 205 assinaturas, o que é impossível numa reunião de transporte coletivo numa só audiência às 9h”, diz Silva.

Pinheiro, que preside o Sindicato dos Condutores desde 1998, afirma que as mudanças e a publicação dos editais atendem à legislação sindical. “Tudo o que aqui se fez foi discutido entre todos os componentes da diretoria e em nenhum momento nós descumprimos nenhum dos dispositivos legais que norteiam os rumos da instituição sindical”, declara.

Segundo o sindicalista, não há determinação sobre em qual jornal devem ser publicados os editais - a única condição é que tenham grande circulação.

“Aí não houve um descumprimento de legislação”, aponta Pinheiro.

De acordo com o presidente do sindicato, Silva foi demitido da Baurutrans porque “se revoltou” com a perda de supostos privilégios que tinha com a antiga gerência da empresa, como a troca de linhas. Mesmo assim, o sindicato teria se oferecido para ajudá-lo. “Eu coloquei toda a estrutura sindical à disposição dele”, diz.

Pinheiro também garante: “Ela (a eleição) vai acontecer nos dias 19 e 20 de novembro, com a chapa única que foi registrada.”

Para os advogados Machado e Branco, a eleição poderá ser impedida por uma liminar, cuja ação está tramitando na 6.ª Vara Cível de Bauru. Se deferida, a liminar deverá declarar a nulidade da convocação para a eleição e exigir a veiculação de novo edital.

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