Regional

Prona já cobrava em 98, dizem políticos

Por Tânia Fonseca | Com Agência Folha
| Tempo de leitura: 5 min

Agudos - Dois políticos da região afirmaram ontem terem sido cobrados pelo Partido da Reedificação da Ordem Nacional (Prona) quando procuraram a legenda na intenção de disputar uma vaga na Assembléia Legislativa, em 1998. José Carlos Octaviani (PMDB), hoje prefeito de Agudos, disse que achou a proposta indecente e “pulou fora”. Já o ex-vice-prefeito de Barra Bonita, Val Girioli (PPB), hoje investigador de polícia em Manduri, disse que pagou R$ 5 mil para concorrer a uma vaga.

O prefeito de Agudos que já havia recorrido ao Jornal da Cidade em outubro de 1997 para denunciar o que ele chamou de “venda de legenda” voltou a procurar o JC ontem para externar sua indignação frente ao surgimento, esta semana, de outras denúncias contra o Prona.

Desta vez, trata-se de uma acusação do comerciante Jorge Roberto Leite, de São Paulo, contra a vereadora Havanir Nimtz (Prona), eleita deputada estadual na última eleição. Leite afirma queria ser candidato a deputado estadual e Havanir teria pedido R$ 5 mil em troca de 500 cartilhas. O caso está sendo apurado pela Procuradoria Eleitoral.

No caso do prefeito de Agudos, a proposta de cobrança teria acontecido em 1997 quando ele queria sair candidato, no ano seguinte, à Assembléia e procurou o Prona, em São Paulo, para conversar sobre a possibilidade. De acordo com Octaviani, sua intenção era sair candidato e montar um diretório do partido em Agudos. Para isso ele teria que dispor de R$ 15 mil.

Octaviani disse ter questionado a cobrança e foi informado que o dinheiro era para o partido. “Achei inconcebível e desisti da candidatura”, afirmou ontem acrescentando que na opinião dele, essa é uma prática antiga e que deve ser combatida pela Justiça.

Já o ex-vice-prefeito de Barra Bonita, Val Girioli (PPB), afirmou ontem ao JC que quando disputou uma vaga à Assembléia Legislativa pelo Prona, em 1998, o pagamento era uma condição para que a candidatura fosse aceita. “Paguei os R$ 5 mil em dinheiro. Eles não aceitavam cheque”, disse.

De acordo com Val Girioli, os reponsáveis pelo Prona não falavam em comprar a filiação ou candidatura. “Eles falavam como se fosse colaboração ao partido. Então eu precisei comprar 1.000 revistinhas a R$ 5 mil”. Girioli disse ainda que afora as revistinhas doutrinárias que o partido entregou -que na opinião dele tinham um conteúdo fraco- não houve nenhuma outra espécie de ajuda durante a campanha.

Analisando a cobrança, hoje, Girioli disse que se o dinheiro estivesse sendo contabilizado para o partido “poderia até ser justa”. “Mas ontem mesmo eu vi numa entrevista que o Enéas (presidente nacional do Prona) não estaria contabilizando isso como doação para o partido e sim para a empresa dele. Quer dizer, ele está usando os candidatos para o bem dele, então aí não”.

Em 1998 quando candidato a deputado estadual pelo Prona Girioli obteve aproximadamente 7 mil votos. Já na última eleição, em outubro, disputando uma vaga para a Câmara dos Deputados, desta vez pelo PPB, o candidato obteve pouco mais de 3 mil votos. “Mas desta vez fui convidado. Não tive que pagar nada para ninguém”, declarou.

‘Era um dízimo’

A vereadora Havanir Nimtz, deputada estadual mais bem votada, contrariou a sua posição e a ordem do presidente nacional do seu partido, Enéas Carneiro, e se pronunciou no início da manhã de ontem sobre a suposta venda de vagas para concorrer à Assembléia Legislativa de São Paulo.

Em entrevista a médica dermatologista repetiu o discurso de Enéas e alegou que o dinheiro cobrado do empresário de Santos Jorge Roberto Leite referia-se à compra de cartilhas do partido. “Fizeram uma interpretação maliciosa. Tem um grupo por trás disso que está com vontade de nos prejudicar’’, afirmou Havanir.

Havanir comparou a quantia paga pelas cartilhas do Prona a um “dízimo que a pessoa dá". Anteontem, Enéas afirmou que o dinheiro dos exemplares vai para a conta de uma firma de sua propriedade e que ele ‘repassa’ parte desse dinheiro ao partido “quando e quanto for necessário".

Ontem, a vereadora, a exemplo do que Enéas havia feito na quarta-feira, alegou ser vítima de ameaças de morte, que seriam parte de um esquema que visa derrubar o Prona para ocupar as vagas do partido na Assembléia.

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Câmara abre sindicância

A Mesa Diretora da Câmara Municipal de São Paulo decidiu ontem instaurar uma Comissão Especial de Sindicância contra a vereadora e deputada eleita Havanir Nimitz (Prona) para apurar denúncias sobre suposta exigência de dinheiro - R$ 5 mil - em troca de espaço partidário na legenda.

Caso seja comprovado que houve quebra de decoro parlamentar, o presidente da Casa, vereador José Eduardo Martins Cardozo (PT), disse que pedirá a abertura de uma comissão processante que avaliará uma possível cassação da vereadora.

As lideranças partidárias da Câmara têm 72 horas para indicar os nove vereadores que farão parte da comissão e mais 48 horas para instalá-la em plenário.

Após a instalação, os vereadores têm 30 dias para investigar o caso. Se Havanir renunciar antes dos 30 dias, o caso é automaticamente arquivado, mas a Assembléia Legislativa pode abrir um procedimento semelhante por suposta quebra de decoro parlamentar. “Se for comprovado a quebra do decoro, poderá ser aberto um processo de cassação da parlamentar”, disse Cardozo ontem em entrevista coletiva.

As acusações atuais contra Havanir partiram do comerciante Jorge Roberto Leite, que gravou duas conversas com a vereadora e deputada eleita do Prona. Ele queria ser candidato a deputado estadual. Havanir teria pedido R$ 5 mil em troca de 500 cartilhas de doutrinação - escritas pelo deputado federal Enéas Carneiro, presidente nacional do Prona.

Após Leite avisar o Prona que tinha gravado as conversas, o seu nome foi colocado na legenda do partido. Entretanto, Leite que teve pouco mais de 300 votos, disse que não fez campanha e não se elegeu. De acordo com Carneiro, que anteontem deu entrevistas no lugar de Havanir porque era “autoridade maior” no partido e por ela ser “mulher e estar estressada”, o dinheiro que foi cobrado de Leite seria uma transação comercial. Todo o dinheiro, segundo Carneiro, seria depositado na conta corrente da Livraria e Editora Enéas Ferreira Carneiro.

De acordo com o presidente da Câmara, até a tarde de ontem Havanir não tinha sido encontrada para ser notificada sobre a abertura da comissão. “Não consigo localizá-la, parece que ela está fora de São Paulo”, disse Cardozo. (Agência Estado)

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