Economia & Negócios

Preços altos modificam estratégias

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 4 min

Os aumentos expressivos de preços repassados ao comércio e ao consumidor final nos últimos meses - principalmente de produtos alimentícios - têm obrigado donas de casa, empresários e comerciantes a mudar hábitos e planejar novas estratégias para driblar os tempos difíceis. De acordo com levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV), de janeiro a setembro deste ano o impacto do aumento de preços para a indústria foi em torno de 21%, em média.

Desse total, o comércio repassou aproximadamente 9% e “segurou” a situação a rédeas curtas junto aos fornecedores enquanto foi possível. Nos últimos 30 dias, o repasse para o consumidor tornou-se inevitável.

Por todos os períodos que se examine, o Índice de Preços no Varejo (IPV) apurado pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio) na quarta semana de outubro apresentou alta. Desde janeiro subiu 14,39%; de outubro de 2001 a outubro deste ano, alta de 17,58%; na quadrissemana subiu 3,05%; aumentou 5,47% da última semana de setembro à última semana de outubro.

De acordo com técnicos da Fecomércio, esses dados confirmam a tendência de alta e sugerem que, ao final do ano, o IPV poderá estar próximo dos 14%.

Os preços dos produtos alimentícios tiveram alta significativa, registrando, na última semana de outubro, aumento de 8,6% sobre o mesmo período de setembro. Isso pode significar um dos efeitos da alta do dólar no preço do trigo, por exemplo, o que influi nas tabelas de pão e macarrão.

Proprietários de restaurantes em Bauru consultados pela reportagem dizem que, de aproximadamente 30 dias para cá, o movimento de clientes tem caído.

“Além das pessoas estarem precisando economizar e cortar gastos diante de todos esses aumentos, chegamos ao limite e, de uns 15 dias para cá, não foi mais possível continuar absorvendo todas as altas que estamos sofrendo”, diz Santo Zampieri, gerente de um restaurante.

Menos movimento

A situação é tão difícil que a empresa precisou demitir dez funcionários, segundo Zampieri. O movimento no horário de almoço, que girava em torno de 700 pessoas diariamente, caiu para cerca de 250 por dia.

O valor do rodízio oferecido pelo restaurante/churrascaria teve que subir: de R$ 13,90 por pessoa para R$ 14,90. A alta, de 7,19%, é pequena frente às constantes elevações de preços que vêm sendo repassadas constantemente ao varejo. Contudo, acaba desanimando a clientela, que também tenta driblar tantos aumentos.

“Há cinco meses atrás eu pagava R$ 0,78 pelo quilo do gás. Agora, está custando R$ 2,65 (239,7% de aumento). Uma lata de óleo de 18 litros custava R$ 17,00. Agora o preço gira em torno de R$ 48,00 a R$ 52,00. O restaurante consome de 12 a 15 latas por semana. Como iríamos continuar oferecendo um serviço de qualidade sem repassar um pouco de aumento para o cardápio? Impossível”, lamenta o gerente.

A compra que é feita semanalmente para abastecer o restaurante somente com verduras custava cerca de R$ 700,00, há cinco meses. Agora, R$ 1,5 mil para a mesma compra. â€œÉ uma tremenda vergonha uma pessoa aparecer na televisão para falar que a inflação do mês não chegou a 1%”, reclama Zampieri.

Numa churrascaria, o proprietário Osmar Garcia também já sente a queda no movimento. Ele conta que alguns clientes fixos, que costumavam freqüentar o estabelecimento cerca de duas vezes por semana, reduziram os almoços fora de casa para duas vezes por mês.

“Desde o final das eleições a situação tem ficado mais difícil. Como o candidato do atual governo não ganhou, agora a população está sentindo na pele a realidade da inflação, que está aí para qualquer um ver. Tudo aumenta e os salários da maioria das categorias de trabalhadores continuam os mesmos. As pessoas vão ficando sem renda para consumir. Isso se reflete diretamente no comércio, que por sua vez, reduz a demanda à indústria”, observa Garcia.

De acordo com ele, as altas dos preços no cardápio da churrascaria foram pequenas. Por outro lado, o aumento de custos no restaurante está em torno de 15%. “A carne nunca parou de subir e os últimos aumentos do gás nos prejudicou demais”, acrescenta Garcia.

O caminho

O economista Carlos Sette diz que as donas de casa ouvidas pela reportagem estão no caminho certo: cortar supérfluos, pesquisar preços e buscar sempre as promoções é a máxima da vez.

“Procurar marcas alternativas que custam menos mas podem continuar garantindo a qualidade, devem ser as preferidas na hora das compras”, orienta.

De acordo com ele, o quadro macroeconômico mostra uma população com perda de salário real. E com os preços subindo, a redução no consumo é ainda maior.

“Com a redução do consumo, o impacto é direto na receita do varejo, que por sua vez, tem que rever estratégias para pressionar os fornecedores. A inflação só não sobe mais porque não há renda na economia”, afirma Sette.

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