Os aumentos expressivos de preços repassados ao comércio e ao consumidor final nos últimos meses - principalmente de produtos alimentícios - têm obrigado donas de casa, empresários e comerciantes a mudar hábitos e planejar novas estratégias para driblar os tempos difíceis. De acordo com levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV), de janeiro a setembro deste ano o impacto do aumento de preços para a indústria foi em torno de 21%, em média.
Desse total, o comércio repassou aproximadamente 9% e “segurou†a situação a rédeas curtas junto aos fornecedores enquanto foi possível. Nos últimos 30 dias, o repasse para o consumidor tornou-se inevitável.
Por todos os períodos que se examine, o Índice de Preços no Varejo (IPV) apurado pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio) na quarta semana de outubro apresentou alta. Desde janeiro subiu 14,39%; de outubro de 2001 a outubro deste ano, alta de 17,58%; na quadrissemana subiu 3,05%; aumentou 5,47% da última semana de setembro à última semana de outubro.
De acordo com técnicos da Fecomércio, esses dados confirmam a tendência de alta e sugerem que, ao final do ano, o IPV poderá estar próximo dos 14%.
Os preços dos produtos alimentícios tiveram alta significativa, registrando, na última semana de outubro, aumento de 8,6% sobre o mesmo período de setembro. Isso pode significar um dos efeitos da alta do dólar no preço do trigo, por exemplo, o que influi nas tabelas de pão e macarrão.
Proprietários de restaurantes em Bauru consultados pela reportagem dizem que, de aproximadamente 30 dias para cá, o movimento de clientes tem caído.
“Além das pessoas estarem precisando economizar e cortar gastos diante de todos esses aumentos, chegamos ao limite e, de uns 15 dias para cá, não foi mais possível continuar absorvendo todas as altas que estamos sofrendoâ€, diz Santo Zampieri, gerente de um restaurante.
Menos movimento
A situação é tão difícil que a empresa precisou demitir dez funcionários, segundo Zampieri. O movimento no horário de almoço, que girava em torno de 700 pessoas diariamente, caiu para cerca de 250 por dia.
O valor do rodízio oferecido pelo restaurante/churrascaria teve que subir: de R$ 13,90 por pessoa para R$ 14,90. A alta, de 7,19%, é pequena frente às constantes elevações de preços que vêm sendo repassadas constantemente ao varejo. Contudo, acaba desanimando a clientela, que também tenta driblar tantos aumentos.
“Há cinco meses atrás eu pagava R$ 0,78 pelo quilo do gás. Agora, está custando R$ 2,65 (239,7% de aumento). Uma lata de óleo de 18 litros custava R$ 17,00. Agora o preço gira em torno de R$ 48,00 a R$ 52,00. O restaurante consome de 12 a 15 latas por semana. Como iríamos continuar oferecendo um serviço de qualidade sem repassar um pouco de aumento para o cardápio? Impossívelâ€, lamenta o gerente.
A compra que é feita semanalmente para abastecer o restaurante somente com verduras custava cerca de R$ 700,00, há cinco meses. Agora, R$ 1,5 mil para a mesma compra. â€œÉ uma tremenda vergonha uma pessoa aparecer na televisão para falar que a inflação do mês não chegou a 1%â€, reclama Zampieri.
Numa churrascaria, o proprietário Osmar Garcia também já sente a queda no movimento. Ele conta que alguns clientes fixos, que costumavam freqüentar o estabelecimento cerca de duas vezes por semana, reduziram os almoços fora de casa para duas vezes por mês.
“Desde o final das eleições a situação tem ficado mais difícil. Como o candidato do atual governo não ganhou, agora a população está sentindo na pele a realidade da inflação, que está aí para qualquer um ver. Tudo aumenta e os salários da maioria das categorias de trabalhadores continuam os mesmos. As pessoas vão ficando sem renda para consumir. Isso se reflete diretamente no comércio, que por sua vez, reduz a demanda à indústriaâ€, observa Garcia.
De acordo com ele, as altas dos preços no cardápio da churrascaria foram pequenas. Por outro lado, o aumento de custos no restaurante está em torno de 15%. “A carne nunca parou de subir e os últimos aumentos do gás nos prejudicou demaisâ€, acrescenta Garcia.
O caminho
O economista Carlos Sette diz que as donas de casa ouvidas pela reportagem estão no caminho certo: cortar supérfluos, pesquisar preços e buscar sempre as promoções é a máxima da vez.
“Procurar marcas alternativas que custam menos mas podem continuar garantindo a qualidade, devem ser as preferidas na hora das comprasâ€, orienta.
De acordo com ele, o quadro macroeconômico mostra uma população com perda de salário real. E com os preços subindo, a redução no consumo é ainda maior.
“Com a redução do consumo, o impacto é direto na receita do varejo, que por sua vez, tem que rever estratégias para pressionar os fornecedores. A inflação só não sobe mais porque não há renda na economiaâ€, afirma Sette.