Nem todos aprendem nos bancos escolares quem foi o personagem a que se chama de Zumbi. Isto porque se detêm geralmente os colégios de hoje em dia no ensino de outras culturas. Teria sido ele um simples extra-terrestre como aquele que, ao invés de fazer caretas, saía por aí emitindo zumbidos carinhosos junto às orelhas do próximo? Não se ensinam isso nos educandários e, dessa forma, as novas gerações vão passando o tempo sem levar para casa um pouco do tema como esse que, igualzinho a tantos outros, tem muito a ver com a história do País e de seu povo.
Estamos entrando nesse assunto porque, neste 20 de novembro (amanhã) evoca-se a memória daquele Zumbi que, para os que não o sabem, foi gente como a gente, ainda que “coloredâ€, cristalizou um homem de personalidade moral e humana excepcional e, no entanto, hoje muitos quase não conhecem. Então, imbuído do dever de contribuir para aumentar a sua projeção, diríamos que Zumbi não foi absolutamente nada do que seu curioso nome possa insinuar e, sim, na verdade, um esplendoroso herói negro, chefe do histórico quilombo dos Palmares, símbolo de luta e resistência à escravidão dos peles escuras. Conseqüentemente, bem mais que uma simples lembrança secular, constitui sua memória no maior expoente da raça que, não obstante sob o jugo da chibata, jamais deixou de sonhar e se bater pela sua liberdade. Só por isso, foi assassinado por Antônio Soares, ex-companheiro seu, a mando do bandeirante Domingos Jorge Velho, fato acontecido em 1685, há, portanto, 307 anos, lá na longínqua Serra dos Dois Irmãos (Paraíba). Foi, a partir da desumana ocorrência, que a data de seu sacrifício passou a ser considerada Dia Nacional da Consciência Negra, instituído para repudiar e repelir a condenável discriminação racial, que já acontecia no País desde o nascimento daquele escurinho que acabou preferindo sair da vida para não continuar sujeito ao cativeiro, como tantos outros que a história insiste em ocultar.
Na verdade, o racismo brasileiro, ainda que em nível pequeno, diferente do existente em outras nações adeptas do “apartheidâ€, vai se perpetuando no torrão, onde a falsa democracia racial, resistindo a qualquer observação, transparece em inúmeros setores sociais e profissionais, haja vista que 55% dos trabalhadores negros, de ambos os sexos, raramente têm vencimentos superiores a 1,5% salário mínimo. Quanto ao estudo, “a propensão de jovens de ascendência preta ou indígena, que ingressam em colégios de nível secundário, é muito inferior ao tamanho da sociedade brasileiraâ€, conforme testemunham educadores insuspeitos, os quais até se mostram tristemente surpresos quando ouvem opiniões otimistas, emitidas por escuros, segundo os quais “apesar dos pesares tudo está bem com eles, que a prevenção contra a sua cor não existe aqui de forma acentuada e a discriminação do País não é tão grande quanto se avalia. Se a gente tenta criticar toda a carga ideológica que jogam sobre nossos ombros há companheiros, da mesma cor nossa, que acham que é a gente que está sendo racistaâ€. Seria mesmo esse o panorama? Já não seria o momento de todos chutarem suas prevenções e brancos e negros se sentirem plenamente iguais em tudo? Achamos que seria! (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)