Pesca & Lazer

História de Pescador: Fraternidade ictiológica


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“Caros amigos pescadores, cá estamos de volta, pois é impossível ficar longe deste precioso caderno por muito tempo. Antes de contar minha última experiência vivida no imenso rio Paraná, quero mandar um abraço ao confrade Dorival Nogueira, esperando agendar aquele encontro para que a gente se conheça pessoalmente.

Quero também, nesta oportunidade, lembrar aos queridos companheiros de pesca do Banespa (Arnaldo, Zulindo, Sidney, Cirineu, Moron, Lazinho, Pinelli, Luiz Vicente, Perdigão, Chaves e tantos outros) para que tenham muito cuidado ao tirar dos rios peixes com mais de 20 quilos. É que fiquei sabendo que o senhor Kanji Yamada, da vizinha cidade de Duartina, grande pescador de um enorme pacu de 22 quilos, (Caderno de Turismo edição de 12.9.2002) está com sérios problemas de coluna.

Coitado. Sabem lá o que é tirar e colocar de volta ao freezer, centena de vezes por dia, aquele enorme peixe, só para mostrá-lo aos visitantes que fazem uma verdadeira romaria àquela simpática cidade, próxima de Bauru? Mando um abraço ao senhor Yamada, torcendo para que ele já esteja recuperado e pescando novamente.

Mas vamos pescar para acalentar o espírito aventureiro que pulsa em nossa alma, deixando ver em nossa face uma alegria ímpar! E que sensação gostosa sentimos quando já rodávamos pela rodovia Marechal Rondon, em direção à pequena cidade de Castilho, privilegiada por ter, bem próximo de seus limites, o gigante rio Paraná, de águas límpidas e profundas.

Chegamos. Eu, o “Moita” e o senhor Higa, aposentado da Polícia Militar, mais conhecido como “Tio Bu”. Bons companheiros!

Estamos no simples, mas confortável, rancho do “Moita”. Fica no Bairro Beira-Rio, ladeado de inúmeros outros, todos de frente ao caudaloso “Paranazão”. O local é paradisíaco! Da varanda do rancho vê-se, por entre as árvores que se debruçam nas águas, aquele enorme “mar” prateado. É água que não acaba mais!

Antes da longa escada que nos leva ao rio (a margem tem um alto barranco) há um corredor comum , livre passagem para todos, terra batida, desfrutando da sombra de frondosas paineiras. Ali convivem em paz e harmonia cachorros, gatos, galinhas, patos e outros pássaros. Ficamos conhecendo a “Dona Quitéria”, caseira de alguns ranchos, inclusive o do “Moita”.

Trata-se de uma brava senhora nordestina, na “juventude” de seus 70 anos, (40 vividos na região) cujos cabelos brancos emolduram um rosto marcado pelo tempo, sem tirar, entretanto, a alegria de seu sorriso sincero.

No meio da conversa com nossa simpática anfitriã, percebemos algumas cadeiras de fios de plástico trançados oscilando ao sabor do vento, penduradas que estavam, nos galhos das enormes paineiras, crescidas no espaço frontal ao rancho vizinho.

Curioso, perguntei o porquê de tantas cadeiras suspensas. “É que fáis muito calor e a gente não consegue drumi dentro do rancho! Eu e meus filho, argumas veis passamo a noite cochilando e balançando nas cadeiras, pros pernilongo que são dimais, num consegui assentá na gente! É só num pará de balançá”, foi a resposta.

Achei a idéia genial, mas preferi dormir no rancho. Bem, sem mais detalhes, vamos ao fato curioso de nossa pesca. Subimos o rio em direção à Usina de Jupiá. Apoitamos o barco na ponta norte da Ilha Comprida, que divide o rio em dois profundos canais.

O “Tio Bu”, excelente piloteiro, já preparava o seu cigarrinho de palha, mais cheiroso que madame quando sai do banho! Manhã ensolarada, um clima delicioso para a pesca! Molinetes arremessados, linhas esticadas. Alguns pequenos piaus foi o que conseguimos pescar, em poucas horas, com a “minhoca do Tio Bu” (minhoca que ele trouxe). Porém, um puxão mais forte na linha do “Moita” o que nos chamou atenção.

Impressionante! Levou linha toda vida! Em seguida, o salto pra fora d‘água a uns cem metros do barco, rio abaixo. Eram dois dourados enormes! E o mais incrível era que apenas um estava fisgado. O outro estava com a boca cravada no rabo do primeiro, tão firme, que parecia ser um só peixe! Depois de poucos minutos de luta do experiente “Moita”, quando conseguimos embarcar os dois peixes, nossa surpresa foi enorme. “Olha só Fernando, o segundo dourado não larga do rabo do primeiro!”, gritou o “Moita”!

Olhando mais de perto, não dava pra acreditar no que se via: O dourado que se prendia pela boca, no rabo do outro, tinha, nos dois olhos vazados, um anzol pendurado em cada um deles! Sim, é isso mesmo, o peixe era completamente cego!

O dourado fisgado estava exausto e se entregou facilmente. Também, não é pra menos, sabe-se-lá por quanto tempo o pobre peixe serviu de guia pro outro, no fundo do rio, além de ter que saltar fora d‘água pra se livrar do anzol, levando todo o peso do outro, no rabo! Coitado.

Ficamos emocionados com tamanha solidariedade e soltamos os dois peixões numa parte rasa e de água transparente do rio. Do barco, comprovamos a “fraternidade ictiológica” entre os dois peixes. A nitidez da água nos permitiu ver, poucos metros abaixo, no fundo claro do rio, quando o primeiro dourado, bondosamente, esperava o “ceguinho” alimentar-se de algumas algas para, em seguida, com um movimento do rabo mastigado e doído, roçando a cabeça do outro, avisar que já estava pronto para rebocá-lo.

Com algumas algas ainda entre os dentes, o nosso “deficiente visual aquático” abocanhou delicadamente o rabo do fiel companheiro e, para nossa maior emoção, desapareceram nas profundezas do rio... Dizem que já foram vistos lá pros lados de Presidente Epitácio, talvez a caminho da usina Porto Primavera.” (Fernando Lucilha Júnior é pescador e contador de histórias verídicas)

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