Na hora de sair com o carro, quem é que não lembra de ajustar os bancos, os cintos de segurança e os espelhos retrovisores? Tais procedimentos, de tão rotineiros, ocorrem de maneira praticamente automática para a maioria dos motoristas.
Entretanto, há um equipamento, igualmente importante e fundamental para garantir a segurança ao rodar como os citados anteriormente, cujo funcionamento e simples manuseio são amplamente ignorados pelos condutores: o encosto de cabeça.
Um estudo realizado na Inglaterra apontou que 72% dos motoristas do país não ajustam o apoio de cabeça corretamente ou dirigem carros cujos encostos não permitem a regulagem adequada. Em Bauru, a situação também não é diferente.
Além disso, de acordo com um trabalho publicado na revista Accident Analysis and Prevention e divulgado pela Associação Brasileira de Acidentes e Medicina de Tráfego, o pescoço e a coluna vertebral são afetados em 9,45% dos acidentes. A pesquisa foi feita com amostras de 88 mil acidentes rodoviários, com 15 mil feridos tratados em hospitais de todo o mundo.
Segundo o ortopedista bauruense Alberto Sala Franco, um encosto de cabeça bem-posicionado é fundamental para evitar o chamado efeito chicote. Este é um movimento repentino e forte, que ocorre normalmente em colisões traseiras a baixas velocidades, em capotamentos ou até mesmo em aceleradas bruscas, capaz de provocar o deslocamento da cabeça do motorista para trás.
E é justamente nessa situação que “mora” o perigo. Franco alerta que o efeito chicote pode causar desde sintomas mais leves, como fortes dores cervicais, dorsais, cefaléia e tontura, como lesões temporárias, fraturas simples da coluna e até o rompimento da medula, provocando paraplegia (perda de movimento em dois membros) ou tetraplegia (perda de movimento em quatro membros).
“O efeito chicote provoca uma inversão da curva, ou enrijecimento, da coluna cervical, que pode provocar fraturas, dores que se irradiam do pescoço para várias partes do dorso e da cabeça e até quadros gravíssimos e irreversíveis de incapacitação física”, ressalta o médico.
Nessa hora, quem pode sofrer mais são as mulheres. Isso porque, conforme o ortopedista, organicamente a região próxima ao pescoço é mais flácida em comparação com a dos homens. “Teoricamente, elas têm mais probabilidade. Entretanto, tudo irá depender do reflexo da pessoa. Se este for lento, o efeito chicote é mais intenso”, afirma ele.
Diante disso, Franco explica que a prevenção deve ter como regra principal a posição correta do apoio de cabeça. O certo é que o topo do encosto esteja na altura dos olhos e encostado na cabeça ou bem próximo dela.
“Dentre as muitas variáveis existentes e que podem influenciar nocivamente à saúde em uma colisão, como a velocidade e o local da batida no veículo, a mais importante é a posição do apoio de cabeça. Se ela estiver correta, a ação das demais diminuirá consideravelmente. Caso contrário, o motorista passará a contar com o fator sorte, que nem todos a têm”, enfatiza o ortopedista.
Franco acrescenta que a questão central é o espaço que existirá entre os bancos e as cabeças dos motoristas ou passageiros. “Quanto menor o espaço, menor a reação e, conseqüentemente, a chance de algo grave ocorrer”, frisa o médico.
Falha grave
O ortopedista critica o que ele considera como uma “falha grave” das agências revendedoras de automóveis. Segundo Franco, elas não se preocupam em orientar seus clientes sobre a importância do ajuste correto do encosto de cabeça.
“Além das montadoras nunca terem feito um apoio decente, nunca vi vendedores nas concessionárias prestando-se a esclarecer o funcionamento correto dos apoios no ato da concretização dos negócios. Não custaria nada e colaboraria para salvar vidas”, finaliza ele.
Equipamento pode ser adaptado
O fato de seu carro não possuir apoios de cabeça não é motivo para desespero. Eles podem ser facilmente adaptados em estabelecimentos especializados em estofamentos automotivos.
Segundo Gilmair Baptista, proprietário da Ágil Auto Capas em Bauru, a instalação dos encostos não demora mais do que um dia. “Basta desmontar os bancos, colocar as buchas que irão acomodar os ferros que os apóiam e fazer pequenas soldas. É um serviço simples”, afirma ele. “A única dificuldade é se a pessoa quiser um tecido que já não é mais fabricado”, acrescenta Baptista.
Em relação aos custos de adaptação, o comerciante ressalta que o motorista terá duas opções. Uma delas, a mais cara, é equipar o banco com os apoios originais, cujos valores variam de acordo com a marca do veículo. “Os donos de carros Fiat, Volkswagen e GM pagarão, em cada encosto, cerca de R$ 180,00”, exemplifica Baptista.
A outra opção, mais barata segundo o dono da Ágil Auto Capas, é a instalação “paralela”, cujo preço segue a mesma tendência dos originais, executada em lojas de estofamentos. “Em média, o condutor gastará R$ 60,00 com cada encosto”, destaca ele.
Motoristas
A maioria dos motoristas bauruenses entrevistados pela reportagem conhece a importância do encosto de cabeça para a segurança ao rodar com o veículo. Entretanto, nem todos se preocupam em ajustá-lo corretamente.
É o caso do estagiário de Direito, João Pereira, que afirma saber que o apoio protege a cabeça contra os impactos em uma colisão. “É para não quebrar o pescoço”, ressalta ele. “Mas quando saio com o carro não penso em ficar ajeitando-o”, acrescenta.
Outros justificam que não mexem no encosto porque este já encontra-se na altura correta. “Sei que ele serve para apoiar a cabeça. Os do meu veículo, normalmente, ficam em uma altura base que servem tanto para mim quanto para o restante da família”, destaca o funcionário público Tadeu Franzé. “Só não tenho o costume de ajeitar o encosto quando estou no automóvel de outra pessoa”, complementa.
O propagandista Rodolfo Aparecido Jung frisa que o encosto está “esquecido” somente porque seu veículo não permite a regulagem do equipamento. Apesar disso, ele enfatiza sua importância. “O apoio, além de extremamente necessário, é fundamental para a segurança”, diz.
Muitos condutores também revelam utilizar o encosto como uma forma de relaxamento ao volante. “Gosto de apoiar o pescoço nele porque sofro muito com dores na coluna. Assim, fico mais à vontade e, por isso, cultivo o hábito de ajustá-lo”, garante Anizia Braga.