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Acidentes são campeões em traumas

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

“A ocorrência de traumas é bastante diversificada em Bauru, mas aqueles causados por acidentes no trânsito, principalmente os que envolvem automóveis, são os campeões de incidência.”

As palavras, que igualam a cidade à tendência nacional (leia box nessa página), são do neurocirurgião Paulo Roberto Laronga, integrante do projeto Pense Bem, criado este ano por um grupo de médicos voluntários para conscientizar a população da ocorrência de neurotraumas, considerada alta, em Bauru.

Mesmo sem mencionar estatísticas para comprovar sua afirmação, Laronga vivencia, através do Pense Bem e de seu próprio exercício profissional, a preocupante realidade bauruense sobre o assunto. E exemplos para demonstrá-la não faltam.

Uma pesquisa feita pelo Hospital de Base, e divulgada em abril deste ano pelo JC Saúde, apontou que o número de vítimas de traumas aumentou 246% de 2000 para 2001. Outro dado revelador é que das 178 neurocirurgias realizadas, no ano passado, na mesma instituição, 53 delas foram motivadas por neurotraumas.

Laronga ressalta que a grande incidência de traumas não é exclusividade de Bauru. Entretanto, ele acredita que um dos motivos do elevado índice na cidade seja o fato da frota de veículos ser uma das maiores do Estado. “Estatisticamente, há cerca de três carros para cada habitante. Assim, a probabilidade de acidentes é maior”, considera ele. E acrescenta: “Mas também conta o desrespeito às leis de trânsito.”

Por isso, enfatiza o neurocirurgião, a palavra-chave é a conscientização. “Além da criação de veículos mais seguros e do surgimento de leis como a que tornou obrigatório o uso do cinto de segurança, é preciso instituir medidas que visem diminuir a quantidade e a intensidade das seqüelas. E essa tomada de consciência leva um certo tempo para ser conseguida”, destaca ele.

Prevenção

Dentro do processo de conscientização pregado por Laronga, o uso do cinto de segurança associado ao encosto ajustado a uma altura mínima que alcance a metade da cabeça são fundamentais, pois a utilização de um deles não dispensa o outro.

Segundo o médico, essa pode ser considerada como a situação ideal mínima de segurança ao rodar. “De nada adiantará o motorista ficar apenas com o apoio na posição correta se o cinto não estiver afivelado ao corpo. Agindo assim, ele poderá ser projetado para fora do veículo em uma colisão e ficará sujeito a traumas tão ou mais graves se estivesse preocupado somente com o encosto”, adverte Laronga.

Tais medidas, conforme o neurocirurgião, diminuem muito, mas não excluem, a probabilidade de ocorrência de traumas em colisões. “O problema em impactos é que a maleabilidade da cabeça é muito grande e apresenta diferentes movimentos em relação ao corpo. Por isso, um movimento repentino de vai e vem pode levar estruturas ósseas e ligamentares da medula a se romperem. Daí a importância em usar ambos.”

Outro aspecto lembrado pelo médico é a necessidade do transporte das vítimas de acidentes ser executado por profissionais especializados. “Uma pessoa machucada não deve ser tocada e a imobilização e transporte devem ser feitos somente por quem domina o assunto. Caso contrário, uma pequena lesão pode evoluir para um quadro gravíssimo”, frisa Laronga.

Perigo em duas rodas

O neurologista conta um caso inusitado que demonstra que o perigo não reside apenas nos automóveis. O acidente ocorreu, na madrugada, entre duas bicicletas às margens de uma rodovia em Bauru. “Ambos não usavam equipamentos obrigatórios de proteção e um deles precisou ser operado de um grave coágulo no cérebro”, relembra o médico.

Por isso, Laronga ressalta a importância de ciclistas ou motociclistas protegerem-se ao rodar. “Estatísticas americanas comprovam que a utilização do capacete chega a diminuir em até 80% a probabilidade de traumas em quedas ou acidentes”, salienta ele.

Números superam EUA e Europa

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), todos os anos, 50 em cada 1 milhão de brasileiros sofrem fratura na coluna. O número, que parece baixo, é maior do que o dos Estados Unidos (30 casos em cada 1 milhão) e mais assustador ainda quando comparado à Europa (de 8 a 14 ocorrências por milhão). Nos Estados Unidos é a terceira causa mais comum de morte. Só perde para doenças cardiovasculares e o câncer.

A OMS aponta que, no Brasil, os acidentes de trânsito e os disparos de armas de fogo são os principais itens responsáveis pelo elevado número nacional. Só o trânsito provoca 40% das fraturas de coluna. Mais de 27% das ocorrências são causadas por disparos de armas de fogo.

Enquanto as quedas respondem por 15% dos casos, os mergulhos de cabeça em águas rasas estão na origem de outros 10%. Um terço das vítimas de fratura na coluna tem paralisia irreversível de pernas ou braços.

Ainda de acordo com a OMS, os jovens são as maiores vítimas do traumatismo craniencefálico. Cerca de 500 mil pessoas por ano sofrem deste tipo de trauma somente nos Estados Unidos. A cada ano, também no mesmo país, mais de 100 mil vítimas desse tipo de trauma sofrem com graus variados de invalidez.

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