Após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, a primeira impressão que tenho do Brasil é da mais absoluta tranqüilidade. Depois, um certo ar de auto-satisfação e confiança, que aflora nas primeiras palavras quando converso com pessoas mais humildes, como camareiras, taxistas, lojistas.
Ao amplo triunfo de Lula foi contraposta a eleição dos governadores, que em sua imensa maioria pertencem a partidos de oposição, e pela eleição no Congresso, onde o PT do presidente eleito obteve um resultado apreciável, mas que não passa dos 30% em cada Casa. Trata-se, portanto, de uma vitória que obriga a compromissos e a muita habilidade política.
Como disse Frei Beto, escritor comprometido com a luta social e velho companheiro de Lula: “A vitória de Lula é a primeira curva ascendente das forças progressistas no mundo depois da queda do Muro de Berlim.â€ É esta carga utópica da vitória de Lula que a população brasileira interiorizou em seu espírito.
Os tempos estão mudando. O capitalismo especulativo de uma globalização desregrada começa a enfrentar críticos severos entre os economistas mais destacados. O Prêmio Nobel de economia Joseph Stiglitz é um bom exemplo, mas há muitos outros. Com a persistente tendência recessiva vivida nos Estados Unidos, com as encomendas às empresas em queda e o desemprego em alta, há os que evocam Franklin D. Roosevelt e a sabedoria de seu New Deal, bem como os ensinamentos de Keynes.
Lula convidou o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e os representantes do Movimento dos Sem-Terra (MST) para uma primeira reunião de pacto social no contexto do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, do qual também participarão algumas das mais representativas organizações não-governamentais. O compromisso do presidente eleito com o mundo do trabalho e com o terço da população excluída do progresso, é irrenunciável. É isto o que lhe dará a força para falar com o mundo dos interesses econômicos e para fazer respeitar a autoridade política e moral que a esmagadora maioria do povo lhe deu.
O Brasil pode chegar a converter-se - caso a equipe que está com Lula se mantenha unida e coerente - num laboratório social de primeira importância para a América Latina e o mundo. A União Européia não deve perder a oportunidade de ajudar ativamente o Brasil neste momento tão importante. É fundamental que o faça, em seu próprio interesse. O Mercosul (acordo de integração econômica entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) pode ressuscitar das cinzas, agora que começam a surgir alguns indícios (tênues) de recuperação da Argentina e que seu ministro da Economia se dirige, pela primeira vez, com tom firme e cabeça erguida ao Fundo Monetário Internacional. É sinal dos tempos. (O autor, Mário Soares, foi presidente de Portugal entre 1986 e 1996)