Eu ainda morava em São Paulo quando, naquela tarde, ao sair do trabalho resolvi passar no auto-elétrico para substituir as lâmpadas e os protetores de plástico descoloridos das lanternas meu velho Fusca. Depois de trocar o óleo do motor, abastecer e calibrar os pneus do carro, fui para casa. À noite, lá pelas dez horas, meu pai telefonou para avisar que a tia Maria acabara de falecer e perguntar se poderíamos viajar logo para Bauru. Sim. Sem saber porque, eu me preparara para aquela jornada.
Sempre que vinha a Bauru eu visitava o tio Eloy, o mais velho dos irmãos do meu pai e sua esposa, a tia Maria. Feirante aposentado, durante mais de 50 anos, seu Eloy montou sua banca de frutas importadas na antiga feira localizada onde hoje está o Corpo de Bombeiros.
Se a visita fosse num fim de semana, era infalível: o tio ia até à feira e de lá trazia uma galinha que ele mesmo matava e que a tia cozinhava junto com algumas batatas e uma cebola inteira, numa panela de ferro, no fogão de lenha da cozinha que ficava num puxado da casa. Sem forro, o teto era negro de fuligem, com flocos de picumã entrelaçados e sobrepostos nas ripas e nos caibros do telhado.
Já naquela época, a casa estava em péssimas condições. Se estivesse chovendo, o tio se divertia mostrando as goteiras. “Aquela é nova, na chuva do outro dia não pingava ali â€. Embora eu sempre entrasse na casa pela porta da cozinha, não era só pela galinha com batatas - saborosa iguaria - que eu visitava os meus velhos tios. Aquela porta de duas bandas, com a pintura a óleo tão fissurada que lembrava o dorso de um jacaré, tinha uma propriedade que só eu conhecia. Entre os seus batentes havia uma membrana mágica. Ao atravessá-la, eu voltava à minha infância.
Lá dentro eu não via apenas um casal de anciãos. Vislumbrava também o meu primo mais velho, já falecido, que era capaz de extrair belas guarânias de sua limitada gaita diatônica, jovem que as moçoilas diziam ser o mais bonito do “footing †domingueiro da praça Rui Barbosa - a original, da época em que ainda não havia sido descaracterizada. (Que pena... que saudade!) Lá eu também percebia a presença de três belas morenas, as minhas primas, resultado do congraçamento dos genes daquele espanhol da Andaluzia com os de Maria de Jesus, moça de autêntico sangue índio. E do outro primo, da minha idade, que me venceu numa briga instigada pelo tio Eloy.
O tio era assim mesmo, cheio de manhas, um truqueiro esperto que venceu até o governador Paulo Maluf, num torneio de truco lá no clube do Senac. (Como, ele não me contou). O tio morreu com 92 anos de idade. Desde então, não mais entrei na casa da rua Luiz Bagnol. Agora fiquei sabendo que o imóvel está praticamente abandonado, uma das primas apenas dorme lá.
Um pedido para tombamento da velha casa da rua Luiz Bagnol, além de uma impossibilidade, seria um exagero sentimental da minha parte. Assim só me restou alinhavar estas linhas, uma tentativa de homenagear o meu querido tio Eloy. Como todo mundo, ele teve lá os seus defeitos, mas soube usufruir total e plenamente do inefável privilégio que é viver a vida com galhardia, de forma a chegar ao fim da jornada tendo a certeza de que, ao longo da travessia, as marcas indeléveis da bondade e do contentamento quase sempre prevaleceram ao pranto e ao engano. (Oscar Camaforte - RG 3.640.192)