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Aplausos


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Que o mundo está de pernas para o ar, sabe-se. Vejam os amigos que levantamento recente revela que a cesta básica come um salário mínimo, ou melhor, que um salário mínimo não come uma cesta básica. Não há dúvidas de que, amanhã de manhã, quando lhes servirem o café, uma mísera cesta consumirá o salário mínimo da patroa e parte da aposentadoria do avô. Você não tem nada a perder, porque nada ganha. Ambos - o farnel e o contracheque dos pobres - se equivalem: não valem nada. Diante de uma situação dessas, é natural que as pessoas se desesperem. Os filhos porque não arrumam empregos. Os netos porque nem sabem o que é isso. Os avós porque, claro, não ignoram que o preço do biscoito familiar é reduzir à metade a receita prescrita pelos médicos. Daí, para a busca da auto-ajuda é um cheque. As folhas nos fazem saber que esse - o do auto-ajuda - é um ramo próspero, que os livros sobre o tema vendem às pencas, em bancas, livrarias e mercearias. Eu mesmo, cético, acabo de comprar uma dúzia deles. Estão todos na prateleira, quase virgens.

Não tenho nada contra a turma que ganha dinheiro dessa maneira: vendendo ilusões. Muito pelo contrário. Sempre fui um comprador voraz de ilusões. Diante de um problema, não hesito: fujo do médico e caio nas mãos do primeiro charlatão que me indicam. O que talvez explique o fato de muitas de minhas deficiências serem crônicas, incuráveis. E ajo assim por medo, não por preconceito.

Os médicos tradicionais não nos prescrevem absolutamente nada, sem que antes nos peçam um hemograma. Precisamos medir o tamanho do estrago, gargalham eles - que anteontem lhe mandarem correr, que ontem lhe mandaram andar, que hoje também não sabem o que lhe recomendar, além de condenar o maldito cigarro, a cachaça e o açúcar.

Basta a moça do laboratório me apontar a agulha, para que eu sinta o drama de passar dessa para a melhor. Isso não me impede de acreditar piamente na evolução da espécie. Um primo de meu pai, por exemplo, já desmaia na hora em que recebe o pedido de exame. A família caminha, devagar, mas resoluta. Fôssemos mulher - o primo de meu pai e eu -, dentro de vinte anos, já poderíamos ser mocinhas sem cair na maca todos os meses.

Esse medo pânico de médico (e de hemograma em especial) é que me tem levado a certas situações, digamos assim, constrangedoras. Há anos, tenho os nervos arruinados. Dado o agravamento da ruína, fui, recentemente, a um especialista alternativo. Pois bem. O mestre me enfiou umas agulhas nas mãos, botou para queimar uma erva na barriga e me deu o conselho definitivo: bater palmas, muitas palmas, o dia todo. Mais: rir de tudo e a qualquer momento do dia ou da noite, sem motivo aparente.

Sou obediente, embora teimoso. Durante três meses, ri muito, ri de tudo e bati tantas palmas com tanta força que ganhei uma lesão por esforço repetitivo. Se lhes disser que me sentia mal, minto. Risos e palmas me aliviavam a tensão, embora não me livrassem da ansiedade. Não pensava em outra coisa, exceto em bater palmas e rir. Só que os poucos amigos da repartição tomaram o que era uma terapia como deboche. Quase fui demitido. Tive que trocar o riso pelo choro disfarçado, e as palminhas de São Tomé, por acenos inúteis. Ainda não recuperei a confiança da turma. Isso não é tudo. Por conta do excesso de risos e palmas, quase fui linchado no velório de um amigo.

Na impossibilidade de continuar rindo e batendo palmas, na impossibilidade de estender o braço à moça do laboratório, vou à luta. Deus é pai é há de me fazer ler todos os livros que comprei. Nos últimos dias, me olho no espelho e repito, à exaustão: Você é forte! Você é forte e capaz! Você é forte, capaz e bonito! Chuchu! Você vai chegar lá! Você é planta comigo-nem-pode! Só tenho um medo: parecer, agora, aos olhos dos poucos amigos de repartição, um arrogante. Se isso acontecer, só me restará substituir de vez livros, aplausos e risos pelo choro compulsivo. E, então, poderei ser presença imprescindível nos velórios. (O autor, Orlando Silveira, é jornalista - orlandosilveira@uol.com.br)

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