Ser

O amor tem limites

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 7 min

Amor entre pais e filhos é infinito, mas quando a educação está em jogo o sentimento não muda, mas se impõem limites que nem sempre são aceitos pelas crianças, muito menos pelos adolescentes. Na briga pelo educar, muitas vezes, pais e filhos acabam sendo mal-interpretados.

A professora Rose Batista Guerreiro Moreira, 43 anos, se considera privilegiada. Ela é mãe de Luiz Guilherme, Luiz Gustavo, Juliana, Luiz Fernando e Fernanda, com idades entre 7 e 20 anos

Ela explica que não é fácil educar uma turma que tem criança, adolescente e adulto. Os mais velhos sempre reclamam das regalias dadas aos mais novos. Mas ao mesmo tempo Rose aponta que isso é um processo que deriva da paciência adquirida ao cuidar de um filho após o outro. Mesmo que o seu filho mais velho reclame do tratamento dado ao caçula, cada um ajuda no processo de educação dos menores.

“Agora, para os mais velhos o que eu tinha que passar em termos de postura, do que deve e não deve fazer, eu já passei. Não fico mais atrás deles”, comenta afirmando que não vigia o passo dos dois filhos mais velhos Guilherme, 20 anos, e Gustavo, 19 anos.

A professora conta que já pegou no pé dos rapazes por causa das namoradas, mas aconselhada pelo marido José Luiz, a quem considera mais liberal, parou com as brigas.

“O que tínhamos que conversar, já conversamos e eles também já sabem o que pode e não pode. Nós temos uma relação de segurança e confiança, que acaba dispensando excessos.”

Com relação aos horários, até bem pouco tempo ficava cobrando a hora de voltar para casa. Mas isso nunca foi problema até hoje qualquer um dos filhos ao sair de casa anuncia o itinerário e, para tranqüilizar a mãe, se vão demorar, disparam: “Não me espera que volto tarde”. Outras vezes, quando os planos mudam, eles ligam avisando.

“O mais velho sempre teve mais autonomia, por ser o primeiro filho. Se, às vezes, ele se acha mais dono do pedaço, nós contribuímos para isso”, assume a professora.

Outro fator de sorte na criação dos filhos, foi o fato de Rose ter sempre morado com os pais dela e eles sempre foram avós muito presentes logo que ela se casou.

A professora também não vê muita diferença em educar meninos ou meninas. Aliás, as meninas, principalmente a filha Juliana, 16 anos, é seu braço direito, ajudando inclusive em trabalhos burocráticos e não só nos afazeres domésticos.

Por enquanto, a filha adolescente ainda não é muito de sair de casa. Mas Rose ainda faz o papel de mãe que leva-e-traz. “Conscientemente ou inconscientemente, a gente parece que quer cuidar mais.”

Ela também comemora o fato dos filhos mais novos ainda não quererem sair de casa e acompanhar os mais velhos. “Eles são bem acomodados, gostam muito de sair comigo.”

Essa relação de amizade abre espaço ao diálogo. Rose conta que dá total liberdade para os filhos conversarem sobre qualquer assunto e contar suas experiências, anseios, dúvidas e episódios.

“Nunca me vi precisando brigar para que um deles fizesse tarefa. Mas o Gustavo já me deixou em desespero quando se escondeu atrás da perua que buscava crianças na escola e foi embora. A Juliana caiu da escada e quebrou um dente, daí três meses caiu de novo e quebrou o resto dos dentes.”

Apesar de desesperadoras, as situações foram momentâneas e isoladas na vida da família Moreira. Todo esse equilíbrio, a professora Rose, que é formada em psicologia, atribui à igualdade com que ama e trata cada filho.

“Em primeiro lugar, você não pode comparar um com o outro, seja em casa, na escola, em nada. Você tem sempre que estar disposta a conversar, a fazer um lanche mesmo se estiver cansada, a dar atenção para eles não se sentirem sós, ter vontade de ficar em casa com eles, gostar de sair junto e aceitar os amigos.”

Em matéria de amigos, a casa de Rose está sempre lotada, pois os cinco filhos têm o hábito de levar a turma para casa. “Sempre quis a casa cheia. Adoro esse movimento.”

Negociação

A estudante Juliana Guerreiro Moreira, 16 anos, filha de Rose, aponta que é fácil negociar limites com seus pais. “Basta pedir com jeito.”

Geralmente, eles não costumam negar seus pedidos, mas, às vezes, se faz necessário um período de espera, principalmente quando o objeto de desejo é um bem material.

Ela comemora que os pais são bacanas, abertos ao diálogo e confiam nela. “Eles sabem que sou responsável.”

Juliana revela ser privilegiada por nascer em uma família que sabe conviver e educar os filhos. Ela conta que muitos de seus amigos não se dão bem com o pai ou a mãe. O que não ocorre nem com ela, nem com seus quatro irmãos.

“Eu posso falar com eles sempre que quiser. Eles não são bravos e eu procuro não dar motivo para deixá-los tristes ou enfurecidos.”

Moda antiga

A bancária Guacira Garcia de Freitas do Espírito Santo, 45 anos, diz que a receita de educar os filhos Guilherme, 18 anos, e Gabriela, 13 anos, está no que ela considera “moda antiga”.

“Eu sempre sei onde eles estão, com quem estão e vão quando podem, às vezes não.”

Ela conta que ainda leva a filha para os lugares, mas o rapaz já dirige e muitas vezes sai sozinho com o carro do pai ou da mãe. Mas apesar de ter 18 anos, Guilherme sempre pergunta aos pais se pode ir antes de sair para algum lugar.

Gabriela tem os horários controlados pelas mães das amigas que se revezam em levar e buscar. Entretanto, o horário do filho mais velho é mais flexível, entretanto, controlado pelo telefone celular. Ele mesmo avisa quando vai de um lado para outro.

“Eu sempre fui a favor desde pequenininho deste método. Não fui daquelas que quando o bebê começa a andar e a mexer nas coisas, tira tudo da mesinha do centro, põe no alto. Não resolve. Nunca tirei nada do lugar, mas sempre tive a preocupação de ensinar. Dessa maneira, podia levá-los à casa dos outros sem problemas. Nunca tirei nada da mesinha e até hoje eles sabem a hora do não”, ensina.

Guacira também assume que na infância foi adepta do “psico-tapa”, coisa que hoje raramente vê nas mães modernas. Mas ressalta que seus filhos sempre apanharam sabendo o por quê e na hora certa. A mãe conta que seus filhos foram arteiros, levados, mas não mal-educados. As artes que faziam eram do tipo abrir a porta do forno para subir no fogão, derrubar armários ou coisas da estante.

A mãe de Guilherme não se esquece de um episódio em que a televisão e a estante viraram sobre o garoto quando ele foi pegar um desenho que tinha feito para ela, mas algum adulto fez o favor de guardá-lo fora do alcance da criança.

Hoje, mesmo com os filhos crescidos, Guacira aponta que, muitas vezes, diz não. A última delas foi no feriado de 15 de novembro quando decidiu que a família iria viajar e o filho mais velho, que adora ficar em casa sozinho, queria ir a um churrasco com a turma. Voto vencido, o estudante foi passear com os pais, a irmã e o cachorro, que integra a família.

Impor valores morais e monetários também fazem parte da rotina da casa. Os pais nunca dão nada de imediato para que os filhos aprendam a arcar com as responsabilidades.

Conversar também é outro processo fundamental na casa de Guacira. Ela e o marido Washington Luiz se consideram bem abertos e discutem até seus problemas pessoais com os filhos.

“Nós fazemos uma troca. Por que só eu posso saber das particularidades deles e eles não podem saber das minhas? Nós participamos de um todo e um ajuda o outro. Da mesma forma que eu imponho limites, eu me abro totalmente com eles. Nós somos amigos. Digo sempre aos meus filhos que o melhor amigo deles é o pai e a melhor amiga, a mãe. E quero contar com eles como meus melhores amigos.”

Mesmo com toda essa relação de cumplicidade, a mãe Guacira admite que a filha Gabriela gostaria de sair mais do que ela sai e o Guilherme adoraria que os pais viajassem mais para ele poder ficar sozinho em casa. Ela também acha que os dois gostariam que ela fizesse menos perguntas.

Por sua vez, a bancária assume que vai precisar lidar com as próprias emoções quando um dos filhos apresentar oficialmente uma cara metade. “Acho que vai ser um vestibular.”

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