Modelo, empresário, namorado da Xuxa, pai da Sasha, autor de livro beneficente, galã de novela. Com seis anos de carreira, Luciano Szafir dispensa outros rótulos e se consolida como ator.
A prova de seu amadurecimento nos palcos pode ser conferida na peça “O Exercícioâ€, do americano Lewis Carlino, dirigida por Mônica Lazar, com a qual o ator está excursionando pelo Brasil e esteve em Bauru no último final de semana, quando recebeu a equipe do caderno Ser, numa entrevista coletiva.
Sem exagero, a televisão e a fotografia não fazem jus a sua beleza. Entretanto, Szafir se torna ainda mais bonito por ser sempre muito educado, bem-humorado, estabanado (ele quebrou um copo durante a conversa e molhou o produtor Carlos Thiré), mas acima de tudo um sujeito humilde que reconhece as críticas a seu trabalho e sabe como poucos separar a vida pessoal da profissional.
Sobre a filha, com a maior elegância e como pai coruja, ele se limitou dizer que é linda e lamenta ter crescido tão rápido. Mas sobre a carreira e seus princípios, abriu o verbo e o riso na entrevista a seguir:
Jornal da Cidade – Qual o grande exercício de “O Exercícioâ€? Luciano Szafir – É uma experiência bastante rica porque é uma mudança de emoções e sentimentos muito rápida. Tem cenas em que se está em prantos e volta ao normal. Vai do riso ao drama em fração de segundos. É uma peça que exige bastante da gente.
JC – Dentro do contexto da peça, um personagem é um ator mais técnico, no caso você e outro mais intuitivo. É assim de fato? Szafir – Você assistiu “Meu Pé Esquerdoâ€, com o Daniel Day Lewis? Ele, para fazer este filme, ficou seis meses sem andar. Antes das filmagens passava três horas até não sentir mais os pés. Esse cara é totalmente visceral. Agora, eu faço um personagem totalmente controlado. É assim na nossa profissão. O meu personagem é mais, mas para ele é só aquilo. Acabou, acabou. Segundo a Mona (Monica Lazar), a nossa diretora, eu sou mais visceral e a Larissa (Bracher) mais técnica.
JC – As críticas de atuação existem e como você lida com isso? Szafir – Eu estou ótimo (risos). Mas quanto à crítica, eu na minha carreira acho que fui mais crítico que qualquer outro. A gente sabe. Ainda mais à medida em que você vai conhecendo mais a profissão, você vai percebendo mais, sabendo mais. Se você faz uma coisa que não agrada, você sabe. Por isso, acho que sou meu maior crítico. As críticas que passaram na minha carreira e que eu acho que me incomodaram e não tomo como uma coisa negativa, com raiva. Eu tomo como positivo, mas geralmente a minha é mais forte. Acho que diversas coisas que fiz, até pela época em que foram feitas, pelo tempo que eu tinha de profissão, até foram coisas muito melhores para o conhecimento que eu tinha. Eu gravo muita coisa e fico vendo. É engraçado porque tem coisas que eu não faria hoje, mas tem aquelas que olho e falo: “puxa, que legal!â€. Embora respeite os críticos, o que realmente interessa para mim é a opinião da direção. Acho que é a primeira coisa que você tem que escutar. Daí por diante, sou eu meu maior crítico.
JC – E a sua relação com a direção atual? Szafir – Nesses seis anos de carreira aprendi muita coisa e trabalhei com pessoas que não sabem dez por cento do que a Mônica sabe e isso é a grande escola do teatro. Não adianta passar a mão no erro. A televisão tem um grande problema. Ela cria uma série de mitos e personalidades às vezes, que pelo fato de você ter ganhos de técnicas, mas na maioria das vezes não estão preparadas. Esse é um grande defeito da televisão. Por isso, o teatro é uma grande escola, até mesmo porque no Brasil você não encontra tantas escolas com qualidade técnica para poder ensinar. Você não encontra faculdades como encontra fora do País. Encontra uma ou outra com que você pode contar. Então, aqui no Brasil você pode chegar a fazer uma novela, mas não se tem uma capacidade de fazer qualquer trabalho ou coisa mais complexa.
JC – Neste sentido de complexidade qual a relação do “Exercícioâ€, que tem apenas dois atores no palco com “Lancelotâ€, em que você contracenou com uma trupe imensa. É mais tentador? Szafir – É verdade, trabalhar com 18 atores é diferente. Apesar de exigir muito do físico, com as lutas de espadas e tudo mais, eram muitas cenas e qualquer um que errasse tinha 17 outros para um deles ter um estalo e salvá-lo. Agora não. Mas sabe que eu nem penso nisso. Por menor que seja o trabalho, você tem que estar pronto para fazer. O número de pessoas no palco não me assustava, não. Me incomoda mais a complexidade do texto do que a quantidade de tempo em que você está no palco. Você tem que se ater a tudo. E nessa peça acontece algo interessante, pois todos que trabalham nos bastidores são atores. Então, eu não fico doente e se ficar, trabalho do mesmo jeito. Vai que outro entra no meu lugar e fica no meu lugar. (risos)
JC – No início do seu livro com a Rosana Beni (“Quando os sonhos se tornam realidadeâ€), você conta a história de um pássaro chamado Amur e que não abre mão de seu objetivo primeiro, ainda que depois de um tempo ele não consiga. Szafir – Essa história foi um amigo meu que contou numa conversa e quando surgiu o livro eu disse que ia contá-la. É verdade. Na história, os americanos encontram os aborígenes e vão caçar com eles. Mas eles se perguntam o que vão caçar. Os aborígenes respondem que vão caçar o Amur. Eles passaram o dia inteiro andando e depois de três, quatro horas eles viram uma pegada de um outro animal que não o Amur. “Vamos pegar esseâ€, disse uma parte do grupo. “Não, nós viemos para caçar o Amur e vamos pegar o Amur.â€. Quatro horas depois, outra pegada. Quatro horas mais tarde outro animal. Quatro... e o Amur nada. Quando foi na última vez disseram para os aborígenes: “vamos pegar esse então.†Eles responderam: “Está aí o mal de vocês, vocês saem para pegar o Amur e no meio do caminho desvirtuam.†Acho que isso é uma lição de vida. A gente sai muito fora do caminho. É normal, você está na própria vida, está com o trabalho direcionado a uma coisa e, às vezes, as coisas te levam a sair fora e você acaba se prejudicando. Nesse livro nós pegamos histórias de vida de um monte de gente e a renda é toda beneficente. A primeira edição foi para as crianças com câncer e a segunda para as com Aids. Novos artistas já estão fazendo outros livros com o mesmo objetivo. Eu não pretendo escrever um livro. Não tenho capacidade para isso.
JC – Mas você continua lendo muito ou não sobra mais tempo? Szafir – Eu não tenho lido muito não, tenho lido muito pouco. Mas peguei uns três livros para a viagem. Peguei um livro de alimentação pois eu estou comendo tudo errado. Outro chamado Ponto Z... Eu só conhecia o ponto G e os caras já estão no Z. (risos) E também trouxe um livro do Fernando Pessoa.
JC – Qual é o maior objetivo do artista Luciano Szafir? Szafir – Eu pelo menos acho que no presente momento é continuar com o Exercício, apresentar essa peça pelo Brasil inteiro, rodar as capitais. Depois tem alguns projetos.
JC – Mas não dá para adiantar alguma coisa? Szafir – A única coisa que tenho e posso falar porque já está confirmado é a Paixão de Cristo, onde vou fazer Jesus. Fora isso tem outros projetos de cinema e uma série de coisas que estão caminhando muito bem, mas ainda é um pouco cedo para falar disso.
JC – Sobre a Paixão de Cristo como é mudar de Pilatos para Jesus Cristo? Szafir – Pois é Luly... dizem que tudo o que a gente faz, volta. Eu mandei dois anos o cara para a cruz, agora vou eu. (risos) É brincadeira... Jesus é um personagem muito mais complexo, vai exigir mais como ator. A minha sorte é que o Marcelo Valente, que já fez Jesus na Paixão, trabalha com a gente e ele é uma das pessoas mais dedicadas e esforçadas que já conheci na vida. Mas tem um outro problema, como Pilatos eu estava protegido, pela biga, pelos castelos, agora Jesus caminha entre o povo. E esse povo são 12 mil pessoas e você a três metros delas, para não desconcentrar não vai ser fácil.
JC – Você quer dizer que a beleza atrapalha? Szafir – Eu acho que em qualquer profissão a beleza não atrapalha em nada. É a primeira coisa que a gente vê. Agora, se você parar por aí, se não tiver apto para realizar a profissão, seja ela qual for, tirando modelo, que depende só disso, você vai fazer a primeira, a segunda vez, e se não tiver apto, você some. Todo dia surge alguém bonito.